Dèja-vu
Houve um estalo naquela encarada. A centelha na retina, piscada repentina. Semente plantada. Alteração no fluxo sanguíneo, temperatura do suor em declínio, calor interno iminente, conflito. Sorriso de canto, ligeiramente tímido, todo libido, a senha, encanto. Num instante, respirações sufocadas, mãos curiosas, unhas, boca, dedos, risadas, tensão. No minuto seguinte, corpos no chão, língua nos lábios, pernas em volta do pescoço, pressão. Beija, puxa, solta, suga, mordisca; olhos fechados, gemidos, seios projetados, rijos mamilos, tesão. Vira, mãos no peito, unhas marcando, cabelo no rosto, estocadas seguidas, olho no olho, corpo no corpo, o perfume exala, ninguém cala, ecoa na sala. Desliza, afunda, transpira, morde, inunda, respira…
Houve um estalo naquela encarada. Os dois se cumprimentaram cordial e rapidamente, seguiram cada um para um lado. Ambos se olhavam quando o outro não percebia. Havia pelo menos dez anos desde a última conversa pessoalmente. Até então, nada muito além de votos de aniversário via internet. Ela, do alto de seus pouco mais de quarenta anos, parecia não haver envelhecido um dia sequer. Exceto pelo olhar mais seguro e desafiador que ganhara com o tempo, suas feições ainda eram fortemente joviais. Ele, a despeito de alguns quilos a mais e cabelos a menos, também não havia mudado drasticamente na última década.
Passaram a noite buscando um ao outro com os olhos, embora escapando do contato simultâneo. Em dado momento esse contato deixou de ser evitado e ela foi até ele. Os olhos grandes e brilhantes o fitaram enquanto dos lábios finos, contornados por um batom escuro, disse um suave “oi”. Ele foi surpreendido pelo mesmo desconserto de tempos atrás ao perceber a voz falhar em responder. Ela sorriu, denunciando que o dèja-vu era mútuo. O desconforto não durou muito e logo a conversa fluía pontuada por gargalhadas e longos momentos de estudo de ambos os rostos. Falavam de amenidades, evitavam o imenso elefante sentado entre os dois. Então ele experimentou avançar.
— Acredita que ainda está aqui? disse ele, mostrando a marca de um arranhado na clavícula.
— Mentira! Como assim? Impossível! Você andou renovando essa marca, né, espertinho?
— Você subestima a própria força! Não só física, eu diria…
Os risos cessaram.
— É a prova de que eu não sonhei, não inventei. Da forma como as coisas se deram, duvidei muitas vezes da minha memória.
— Eu sei. Acho que não agi da melhor forma. Na verdade, agi, sim, da melhor forma pra mim naquele momento. Infelizmente, não era a melhor pra você. Esse tempo todo sem nos vermos… Te acompanhei nas redes sociais, pelo menos o que você deixou aparecer, né? Vai saber se não andou vetando uns conteúdos de mim…
— Por que eu faria isso?
— Sei lá. Você nunca demonstrou explicitamente, mas sei que ficou bastante chateado comigo. Seria compreensível me deixar fora da sua vida.
— A gente já não tinha mais contato pessoalmente, quão mais fora que isso dá pra ser?
— Que bom que você não mudou. Quer dizer, você ainda deve sofrer muito com esse jeito falso ariano de ser, mas que bom que não ficou amargo.
— Moça, o que houve, ou acho que houve, sei lá. Enfim, o “nós” foi um divisor de águas pra mim. Lento mas foi. Aprendi a aceitar muita coisa que eu dizia já aceitar e na realidade não conseguia. Já estava sozinho há algum tempo e tinha uma batalha com isso. Depois do “nós” aprendi a ficar bem com isso, e, olha só, passaram-se quase dez anos e nada de relacionamentos. (ela caiu na gargalhada)
— Meu deus! Você fez voto de castidade, rapaz?!
— Engraçadona! Só aceitei meu destino. O “nós”, do jeito que foi, do jeito que se desenrolou, foi um fechamento de ciclo pra mim. Não sei explicar direito, só digo que me sinto bem sozinho.
— Sei. Então se eu te chamasse pro quarto agora você recusaria? Disse ela, aproximando o rosto, entrelaçando as pernas nas dele, encarando de perto.
— Eu disse que tudo bem eu ficar sozinho, não falei que me tornei assexuado.
Houve um estalo naquela encarada…
