O homem da farmácia

Gosto de farmácias, principalmente dessas em que você pode comprar bombom, batom, creme para estria, remédio controlado e biscoito. Para que a farmácia de hoje seja completa, só falta vender cigarros e jornal (tá bem, cerveja). Essa farmácia de ontem é a que sempre vou. Tem restaurante, café, vende roupa de bebê, maquiagem e sou capaz de passar horas lá porque os atendentes são tão legais que viraram amigos. Na verdade essa amizade surgiu desde o dia em que passei pela porta, ela começou a apitar loucamente, a sirene vermelha acendendo e eu (como esperado) não havia roubado nada. Todos vieram olhar o que aconteceu para no final, descobrirem que era SÓ meu crachá, dentro da bolsa. Detalhe, isso ainda aconteceu inúmeras vezes depois porque eu sempre me esquecia desse detalhe. Eles apenas sorriam e balançavam a cabeça quando passava e desligavam o sistema de segurança. Fiquei pensando nesse momento que se eu quisesse roubar, poderia facilmente.
O homem da farmácia sempre esteve lá. Ele é um sujeito idoso, magrelo, de olhos verdes e esbugalhados e parece ser hiperativo. Ele não para um segundo e quer fazer 100 coisas ao mesmo tempo e pior: ele consegue. Cinco minutos debruçada no balcão com a receita na mão e ele dá a impressão de que poderia resolver todos os problemas do mundo, inclusive os meus. Sobre ontem, ele provavelmente acha que só me vendeu muitos remédios. No entanto, ele não imagina que despertou tantas lembranças da minha infância, farmacológicas, da vida e das coisas que sempre gostei de fazer. O homem da farmácia me falou coisas estranhas olhando dentro dos meus olhos e ele sequer me conhece porque nunca é ele quem me atende, apenas o observo de longe. Tenho certo receio de gente acelerada porque me reconheço nelas. Acho que duas pessoas assim não devem estabelecer um canal de comunicação muito eficaz.
O homem da farmácia — fez com que primeiramente eu me lembrasse do Pedro, um japonês dono da farmácia do meu bairro quando eu era criança. E lembrei que meu pai sei lá porque cargas d´água, tratava o Pedro e me fazia pensar também, que ele era um bichinho raro, exótico, uma espécie de aberração por ser japonês e não estar no Japão. E todas as vezes que íamos lá ele me dizia a mesma coisa:
“- Você sabe que o nome dele é na verdade Tetsuosano? Pedro foi um nome que ele inventou para usar aqui…”.
“Ele já foi pro Japão várias vezes mas ele quer ir embora.”
“Você sabia que a família dele é toda de lá?”
E ouvi isso a infância inteira, adolescência e início da vida adulta, até que o Pedro de fato largou tudo, quando eu já tinha uns 25 anos acho e quando retornei de uma viagem, ele havia ido embora e passado o ponto para a atendente dele que até hoje administra a farmácia. É uma sujeita antipática e de cara fechada e por conta disso nunca mais voltei lá. Mas para todo mundo lá ainda é a farmácia do Pedro (chupa, nova proprietária). A farmácia do Pedro tinha um cheiro de consultório de dentista misturado a esses suplementos vitamínicos de cheiro ruim. Eu nunca entendia quase nada do que o Pedro dizia, mas ele sorria sempre, o tempo todo.
Ainda sobre memórias farmacológicas, meu irmão mais novo sempre teve uma saúde muito debilitada. Penso ser nessa época em que comecei a ler bulas de remédio, para entender porque ele tomava tantos medicamentos. Tomei gosto pela coisa e me lembro de que aos 11 ou 12 anos, eu administrava toda essa coisa de remédios dele, quantidade, posologia e efeitos colaterais. E os constantes problemas respiratórios contribuíram bastante. Eu já sabia qual servia para tal coisa, o efeito que dava, quais era mais fortes, mais brandos e chego a sentir na boca o gosto do Biotônico Fontoura misturado ao Óleo de Capivara, uma espécie de coquetel para pulmões fracos, recomendado na época. Tomei por anos.
Depois tive um namorado que adorava bulas. No entanto, ele gostava de química então passava horas me explicando sobre as substâncias, a combinação delas e trocávamos tanta informação, como um hobby, só que estranho. Ele nem de longe é da área mas até hoje, se tenho qualquer dúvida com relação a um medicamento ou qualquer informação afim, basta enviar uma mensagem e todas as minhas dúvidas são sanadas. Por fim, me tornei aquela pessoa que as tias ligam para saber qual medicamento a filha da vizinha deve tomar para alguma enfermidade de ocasião e pedem o genérico, porque é mais barato. Depois ligam ou mandam recado que a dica foi ótima e etc. Resumindo: o brasileiro e a automedicação. Nem vou entrar na discussão do motivo pelo qual acho que isso acontece por pura preguiça.
E então ali estava eu, com a receita na mão, pensando em tudo isso enquanto aguardava o homem da farmácia me atender. Ele aproximou-se, tomou a receita das minhas mãos. Deu um leve sorriso para a mesma como se conversasse com ela, olhou pra mim e disse:
“- Que receita bonita não? As receitas dele são sempre bonitas… dá até gosto ver…” — falou o homem com os olhos esbugalhados de sempre, meio brilhantes. Releu o nome dos medicamentos em voz alta, sorrindo. Nessa hora percebi que podíamos nos entender sim, apesar de acelerados. Tínhamos gostos estranhos em comum. E quando o vi deitando uns olhos de admiração na receita, soube que estava diante de alguém que realmente vê poesia no que faz, ainda que isso signifique para leigos como eu, passar o dia lidando com doentes, em meio a caixas de remédios, nomes impronunciáveis e ilegíveis.
“- É pneumonia né? Perigoso. Precisa cuidar e fazer repouso, de verdade. E é preciso querer melhorar também senão o remédio não adianta.” — disse enquanto pegava os remédios na prateleira e lançou um olhar com a cabeça voltada para o balcão ao dizer a última frase. Colocou os medicamentos sobre o balcão, olhou-me nos olhos e perguntou:
-”Tem muito tempo que você está assim né? Teve alguma chateação?”
Balancei a cabeça negativamente, com cansaço.
“- Então só beba bastante líquido e boa sorte.”
Fui caminhando em direção ao caixa, um misto de engraçado e estranho, pensando em Bakhtin, nos gêneros textuais mas, principalmente, no quanto há lirismo em toda parte.