Aos desapegados desejo um bom apego

Foto: Maika Elan

O amor instantâneo está sendo compartilhado por aí e as pessoas adeptas do novo movimento estão se multiplicando como bromélias. Por todos os lados e em todos os cantos ouvimos alguém falar para não nos apegar ou que jamais irá se apegar novamente e, ainda, que pessoas magoam e nos fazem de trouxa.

Pessoas magoam e ainda nos fazem de trouxas, não há como mentir ou ainda mesmo negar. Porém, pessoas são diferentes e existem bilhões delas por toda a imensidão desse planeta. Quando alguém abre a boca para falar que todo mundo faz isso ou aquilo é quase a mesma coisa que afirmar que conhece perfeitamente cada serzinho da Terra, o que, confesso, acho pouco provável.

Não é preciso ser sábio para perceber e saber que as diferenças são gritantes, um ser é distinto do outro e nós mesmos nos tornaremos diferentes ao longo do tempo. Todos iremos mudar, e se existir alguma lei que dê rumo à nossa vida, será essa, todos os dias e em todos os instantes somos seres mutáveis. A cada pessoa que chega, fica e depois se vai podemos pegar um ensinamento, a dor é a melhor tutora e vai ensinar de maneira firme e sutil como devemos encarar a vida.

Entenda que sempre haverá pessoas que chegam, ficam, vão embora e, dificilmente, irão retornar. Mas alguém aqui as quer de volta? Se partiram, não se preocupem com o que largaram, pois com a dor nos tornamos mais fortes e aprendemos a lidar com essas voltas que a vida resolve dar.

O mundo dá voltas e, por isso, muita gente acredita que estará por cima novamente, e é verdade, mas não podemos esquecer que o tempo não para e se um dia estiver por cima, algum dia chegará ao mais baixo. Mas não veja como algo negativo. É sempre assim, recomeçar deve ser sua palavra de ordem, pois todos os dias devemos tentar por algo ou com algo. Conhecer o mais baixo nos mostrará que podemos, um dia, ficar lá em cima novamente.

Ser a favor do desapego é o mesmo que ser contra o amor, com tanta gente no mundo seria extremo condenar esse sentimento tão forte e puro por causa de um ou outro que resolveu chegar e logo se debandar. Ter consciência de que não somos donos de ninguém, pois nem mesmo os pais podem segurar as asas dos filhos quando estes resolvem bater, pode ser um bom começo.

No final das contas nunca teremos garantia de quem veio para ir e de quem veio para ficar, é um risco que estará sempre à tona e poucos conseguem enfrentá-lo. Mas isso pode nascer, crescer e passar a existir quando percebemos que aquela pessoa vale a pena. Será como provar para o mundo, todos os dias, que o desapego é para quem tem medo de ser feliz.

E não comecem com aquela história de demonstração de fraqueza, dizer que ama, que quer por perto e arquitetar os mais diferentes planos para ficar junto, está longe de ser fraco ou sinal de ‘trouxismo’. Trouxa é quem possui o amor nas mãos e o deixa escorrer pelos dedos por puro orgulho, para se sentir superior, pois, se por acaso chegar ao fim, poder afirmar que foi o mais forte e nunca cedeu em nada.

Começar algo pensando no seu fim é o mesmo que dizer para a pessoa que está ao seu lado que ela é instantânea, que nenhum esforço ou demonstração de afeto será verdadeiro ou que tudo que viverão juntos terá prazo de validade e depois será considerado como perda de tempo.

Ninguém deseja ser pedra no caminho ou perda de tempo para os outros. O bom é quando chegamos sem avisar, sem intenção alguma e sentimos que podemos ficar, bom mesmo é sentir que o amor é de calma e exige que não exista pressa no seu caminho, melhor ainda é saber que de tanto sermos reflexos de bons sentimentos nos tornamos indispensáveis. Não é porque alguém me machucou que serei o seu reflexo e magoarei outras pessoas, ser frio e desapegado é para quem nunca sentiu o amor de verdade, mas não significa que deverá permanecer assim para sempre. Somos seres mutáveis e todos os dias poderemos aprender que o amor ainda é a melhor saída.

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