hoje as lembranças resolveram me abraçar
Parti sem olhar para trás, deixando uma vida, amizades, paixões, decepções e tudo mais que possa acontecer com qualquer ser humano. Parti em busca do novo, do medo, da aflição, das preocupações, do frio na barriga, das lágrimas pelo diferente, do sorriso por conquistas que jamais pensei que poderiam existir. Já não queria mais trilhar algo para caminhar e dar de cara com o mesmo. Era uma tácita necessidade de abandonar o modo estático de tentar prosseguir.
Foi um ato de coragem, talvez um dos maiores que já tive. Recomeçar não é fácil, a palavra já possui um peso que cansa só de pensar.
Meu apartamento alugado de poucos metros quadrados era como um troféu, encarava aquilo como um prêmio de consolação pelo tremendo ato de coragem. Estava longe de onde vim, mas estava onde me sentia em casa. Havia poucos móveis, apenas o que dizem ser essencial para alguém viver. Um carinho especial era destinado para a minha cama, de lá conseguia trabalhar, chorar, amar, sorrir. Era uma mistura interessante.
Após semanas sem uma lembrança sequer, esta noite senti minha pequenez pesar sob meus ombros. Deitei e me acomodei debaixo das cobertas. O frio era como um inimigo implacável para quem deseja curar suas amarguras, apertava mais a cada segundo até que a angústia fosse recolocada onde deveria estar. Com o rosto virado para a parede, encolhi-me naquele cantinho, deixando todo o resto do colchão livre para alguém que jamais iria estar.
Inspirando fundo tento não deixar transparecer o que queria realmente sentir, uma luta interna que venho perdendo há meses. Ao fechar os olhos e inspirar novamente sinto o cheiro da saudade invadindo meu nariz, paro bruscamente. Mas como um vício irresistível cedi ao abraço das cobertas, envolvi todo o corpo no último pedaço daquilo que semanas antes era todo nosso. E passando pelo clichê incurável do término, me desato a chorar.
É sábado de manhã, invariavelmente frio, mas o sol tímido entre as nuvens faz despertar uma esperança. O cheiro do café forte circula sobre nossa pequena casa. Eu não gostava de café forte, por isso ele sempre fazia separado. Antes de tomar o café eu sempre tomava um banho, especialmente hoje ele decidiu vir comigo. Pelo vidro embaçado do espelho eu o vi se aproximando, não falei nada, tirando a minha mão esquerda que segurava o cabelo no alto da cabeça ele começa um ritual para prendê-lo em elástico. Com um penteado meio desengonçado, perfeito para um selfie no instagram, ele me encara e lentamente põe uma das minhas mãos, depois a outra, apoiadas na parede, e começa um processo irresistível de beijar as minhas costas. Tentador demais para quem acabara de acordar. Em movimentos de aprovação, minha cabeça movia-se de um lado para o outro, em ritmo quase musical, e meus olhos fechados serviam como provas mais que necessárias que aquilo estava me agradando, e ele sabia. Ele sempre sabia o que fazer, onde tocar e por onde ir sem jamais me fazer sentir vontade de parar. Agora o cheiro de café pertencia apenas à cozinha, o quarto estava dominado pelo cheiro de banho, aquele de sabonete, molhado, cheiroso, limpo. Sempre fiquei em dúvida sobre qual me agrada mais, se esse que agora sinto ou se o cheiro do seu corpo após o sexo, difícil.
Abro os olhos e encaro o breu. É difícil manter a sensatez quando não a queremos ter. Quando alguém nos deixa, cada um lida da sua maneira, eu lidava querendo esquecer, mas vivia me afogando em lembranças que me faziam perder o fôlego, me faziam sentir mal, sentir saudade. Sem motivos, sem avisos, sem deixas ou delongas, as pessoas apenas partem com a coragem em que chegaram, mas com vontades que serão para sempre desconhecidas.
Sabemos de nós, às vezes nem tanto quanto necessário. Sabemos, ou pensamos saber, de nossas lutas, receios, buscamos saber o que sentimos, o que nos aflige e o que pode nos atingir. Mas não sabemos do outro, mesmo que convivamos diariamente, não sabemos o que pensam, o que sentem, o que deixaram para trás e o que pretendem alcançar. De tudo, sabemos apenas da superfície, são mergulhos rasos mesmo quando queremos ser profundos, é impossível mergulhar de cabeça em quem nos abre apenas poças d’água. Intimidade é uma faca de dois gumes que algumas pessoas não conseguem segurar, e mesmo com a mais tênue intimidade, nós podemos ser surpreendidos.
Esta noite lembrei do quanto fui surpreendida com meu infinito um pouco menor que esperava. Nós gostamos de nos apegar com a mágoa, de sentir a saudade até amargar. O coração treme com a falta, toma uns sustos, o cérebro, quase delirante, passa a enviar ilusórias esperanças, nos provoca arrepios, nos faz sentir presença, cheiros, ver em outros sorrisos aquele que procuramos.
Ao sentir um resquício do cheiro que deixara, tudo foi por água abaixo. Não tento encontrar culpados, muito menos buscar porquês. Cheguei num certo momento em que aceitar termina sendo o melhor caminho. Uma hora passa, como sempre dizem, as pessoas sempre dizem tudo e nós, por vezes apáticos, fingimos não ouvir. Enquanto tento tapar ouvidos com penas apego-me aos aromas, sensações, lembranças e incertezas circundantes. Hoje a noite resolveu meu abraçar e trouxe consigo um vendaval de emoções. O arrepio na espinha transpassa para todo o corpo, o frio está impetuoso e sem ter para onde correr, mergulho nas cobertas que carregam histórias, emoções e aromas. A saudade fica, mas uma hora se vai, e mesmo sabendo disso, desejo intimamente que permita espaço para que sobre apenas lembranças.
