noite quente de sonhos e suspiros silenciosos

meia noite e vinte e sete.

O barulho intenso de conversas aleatórias, ruídos indecifráveis no meio de tanta gente e as risadas exageradas eram o palco perfeito para o desejo de fuga. Queríamos sair dali rápido, não pelas pessoas, ela que se divertissem como bem entendem. Queríamos apenas partir para o sossego, encostar a cabeça no travesseiro e respirar fundo por mais um dia vivido. Nem mesmo a cerveja e o forte cheiro de bebida que se alastrava pelo espaço e pelas pessoas nos tentaram a permanecer. Dizer até logo era a melhor alternativa.

Caminhar pelas ruas vazias era tarefa perigosa, nada era como antes, a tranquilidade de poder sair e não ter medo já era quase que inexistente. Nesse momento isso não importava muito, não era tão distante. Caminhamos apontando para casas esquisitas, ruelas aparentemente sem saída e pichações indecifráveis — mesmo depois de muito esforço — que de alguma maneira queriam dizer algo. Continuaremos sem saber o quê. Caminhamos apontado para as estrelas, o céu aqui parece mais estrelado que em qualquer outro lugar do planeta, era visível a covardia da beleza que os astros resolveram nos presentar, agradeci por estar junto da única pessoa que gostaria de partilhar tamanho espetáculo.

A casa estava vazia, nenhum barulho aparente a não ser pelo ronronar do gato pedindo por carinho. Agora não, querido. Sigo em frente a caminho do quarto, sou surpreendida com um aperto no braço para me alertar a parar. Estranhei sua vontade de querer parar ali, na sala, mas me contive e voltei o olhar com uma enorme dúvida. Mais rápido que pude processar, fui puxada para um abraço terno, cheio de carinho, transmitindo tantas emoções que fiquei instigada a passar a vida inteira ali. Concentrei-me em tudo de bom que já havia sentido, em tudo que havia mudado e em tudo que permanecia exatamente da maneira como deveria estar.

O abraço foi interrompido por um beijo no cabelo, acompanhado de uma inspiração profunda como se aquele fosse o melhor cheiro do mundo. Me sentia maravilhosa pelo simples fato de conseguir agradar seu olfato, parece pouco. E era. Suas mãos pousaram em meu rosto, me fazendo olhar para cima até que seus lábios pudessem atingir meu pescoço e sem perder tempo alcança minha boca com um beijo leve, quase que medroso, creio que não queria atrapalhar o momento. Continuamos nos beijando, sentindo cada espaço do nosso corpo, aproveitando cada segundo do tempo, do espaço e de todas as outras impossibilidades ou possibilidades físicas.

A parada brusca me faz relutar, por que paramos? Sou olhada com desejo profundo, seguida por ambas as respirações controladas, mas agitadas. Suas mãos sempre quentes transpassam o tecido fino da minha blusa, o calor me faz relaxar e querer mais, minhas costas se arqueiam quando sinto seu toque percorrer a espinha. Pressionada contra seu corpo, sinto que seria um tremendo erro apenas te abraçar. Nós queríamos mais e precisávamos disso.

A festa lá fora zunia com os passos compassados ao som de alguma música que não conseguia entender por conta da distância. As pessoas continuam bebendo, dançando, sorrindo, vivendo. Aqui nós apenas começamos, a atenção não foi trocada pelos ruídos, começamos a rota pela trilha já tão conhecida e totalmente surpreendente, como se cada toque emanasse a eletricidade da surpresa.

O arrepio na espinha passou para o resto do corpo. Esqueci de onde estava e do risco de sermos pegos no flagra. Isso poderia ser uma boa fantasia, mas nesse caso é melhor deixar os espetáculos exibicionistas para outra ocasião. Tive que parar, dizer para irmos até outro lugar. Relutante, cedeu, e seguimos o caminho que aparentou ser mais longo que o necessário. O quarto estava arrumado, sabia que chegaria hoje, não poderia fazer feio. Não havia tempo há perder, parecíamos dois adolescentes com a urgência do primeiro beijo ou da primeira vez, pouco importava como iria aparentar.

Ao ver seu corpo quente e despido tão próximo do meu senti as pernas faltarem, era irreal demais que depois de tanto tempo esperando finalmente estava aqui, perto. Contato físico real e implacável. Tive medo de parecer selvagem, que meus olhos aparentassem a minha vontade íntima de devorá-lo, não como o Dr. Hannibal, por favor. Mas com um desejo quase que proibido, ciumento, almejando que todos os dias fossem iguais a esse, ou no mínimo parecidos. Quero estar ligada, íntima, próxima e completamente exposta a tudo que puder sentir.

A noite continuava quente, abafada, tão sufocante que fez o suor rapidamente se formar pelo corpo, por partes que não imaginava que poderia suar. Os cabelos já estavam úmidos, os cobertores da cama marcavam nossa silhueta unida, a cama um pouco velha era implacável em fazer barulho, rangia como se pedisse que gemêssemos mais alto. Assim fizemos. Era forte e quase transcendente. Sexo que em momentos turvava a visão e em outros alertava como êxtase, me fazia querer ceder e perder os sentidos e, ao mesmo tempo, me deixava a cada segundo mais alerta para cada músculo que forçava em seu corpo.

Se parássemos no tempo, poderia analisar cada centímetro de toda a cena, detalhes do personagem principal que parece escupido por Michelangelo, e de sua dama que o acolhe em tão perfeita essência que mais parece uma obra pintada por Ingres. Muito artístico. Mas nada é tão perfeito como a realidade, não posso parar momentos, mesmo o querendo, então decidi entregar-me por completo. Pensamentos do passado sumiram, suposições para o futuro agora não existem mais. Aqui e agora apenas o quero, e estou tendo.

três e quarenta e nove da manhã

Acordo com o corpo frio, e atordoada sem entender mergulho entre as cobertas. Olho para o celular e lembro que a última vez que o vira era pouco mais de meia noite. Eu dormi por três horas e sonhei. Mais que isso. Idealizei. Não havia festa, ruídos, gemidos, suor, calor. Não havia ninguém além de mim e minha saudade.

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