“É muito cedo pra você se acostumar”.
Penso em uma história que existe sobre o poeta Mario Quintana. Em uma recepção literária qualquer, um conhecido que há algum tempo não via o poeta percebe que ele está com uma nova mania (Quintana tinha muitas), rapidamente comenta em tom de provocação: — Você, hein, Mario? Sempre uma coisa nova. O poeta rebate: — Você, hein? Sempre a mesma coisa.
Penso neste diálogo com frequência. Não só pela resposta de alto nível para a provocação, mas pela profundidade da crítica suave.
Penso que Mario estava certo: é imodesto, é crítico, é um imenso desperdício ser sempre o mesmo. Não mudar nem de mania.
Penso que é preciso estar atento para não ser “sempre a mesma coisa”. A constância não pode ser prisão. A mesmice não pode ser lugar cativo. Sempre há tempo para outra coisa.
Penso no que Raul canta naquela música: “Não pare na pista. É muito cedo pra você se acostumar.”
Penso que isso quer dizer: tem muita estrada pela frente pra você ficar aí estacionado. Levanta que ainda tem chão. Faz muito mais sentido aproveitar todo esse tempo de vida para mudar do que para ser a mesma coisa.
Penso que o comodismo é muito contagiante. A arapuca do cotidiano faz tudo se inverter de forma que acaba sendo comum você sofrer porque começou a questionar a vida. Sofrer porque pensou em mudar, em repensar as escolhas, a coisa toda em si. Sente a necessidade estranha de modificar algo e começa a sofrer com isso.
Penso no que a menina diz: “sofre não, boba!”
Penso que não é porque a maioria engessa e paralisa a vida em um lugar seguro, quentinho e confortável, que isso seja o certo a se fazer. Por que não sair no sereno? Por que não tomar chuva? Por que não tentar outra crença, outro gesto, outras certezas, outras dúvidas, outros sonhos, outros lugares, outros objetivos?
Penso que mudar o que somos não muda quem somos. Que talvez mudando se perceba que os problemas sem solução são apenas equações mal elaboradas. Na matemática da vida diária a ordem dos fatores altera o produto, os fatos e até a conta. E nós não somos números inteiros.
Penso que mudar é superar o que se é. Pode ser quebrar a cara. Ou não. Pode ser ir além. Ou não. Pode ser a solução para o que você procura. Ou não. Mas vai ser diferente.
Penso em outra história do Mario Quintana: Certo dia um pintor amigo quis presentear o poeta com um grande quadro. Ele recusou e mais tarde enviou um livro com uma dedicatória justificando a recusa: “Elias, me desculpe e acredite. Eu não tenho paredes. Só tenho horizontes.”
Penso que mudar é isso. É deixar de ter paredes, muros, cercas. É começar a ter horizontes.
Mas tudo isso são só coisas que penso. E às vezes eu penso muito.
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Originally published at umalaudaemeia.wordpress.com on April 7, 2015.