Inevitáveis — Meus pobres argumentos sobre a vida prática.

Nunca fui de me preocupar muito com a vida teórica. Ao invés disso, todos os meus devaneios e pensamentos rodeiam a vida prática. Essa, sim, me corrói como maresia. Penso muitas coisas sobre a vida prática. Penso, por exemplo, que algumas coisas são inevitáveis.

É inevitável que você tenha pelo menos um amor impossível. Desses que você não vai conseguir realizar. Que vai chegar muito perto de ser tudo para acabar não sendo nada. Que vai fazer você repensar todas as suas certezas. Que você vai passar o resto da vida pensando tudo o que podia ter sido, se tivesse sido alguma coisa.

É inevitável que pelo menos uma pessoa por quem você fez tudo te decepcione de forma devastadora. E você não vai conseguir perdoar. E você não vai conseguir esquecer. E esse abismo vai separar vocês como o muro separou Berlim.

É inevitável que você faça alguém sofrer muito tentando apenas ser feliz. E o contrário também. Porque em algum momento toda pessoa vai resolver buscar a sua luz no fim do túnel, o seu lugar. Algumas vezes você é quem vai escolher um caminho que não inclui alguém e essa pessoa vai sofrer. Outras vezes, alguém vai escolher um caminho que não o inclui e você é quem vai sofrer.

É inevitável que você tome decisões erradas por medo de arriscar. Sim, você vai saber que o certo a se fazer é ariscar. O seu coração vai dizer que é isso. O seu instinto vai dizer que é isso. O seu signo, mapa astral, cartomante, centro de macumba, tudo vai dizer que é isso. Mas você não vai porque prefere a escolha mais cômoda. E você vai lembrar disso por toda a vida. E vai doer.

É inevitável que você encontre pessoas que vão mudar a sua vida quando não esperar encontrar ninguém. Um amigo, um amor, um cara que fala coisas legais, uma menina que vai mudar de cidade, um velho que está sentado em frente a cafeteria de um país que você visita. Alguém que vai falar alguma coisa, que vai bater forte em você, marcando feito ferro quente.

É inevitável que você se arrependa muito mais das coisas que não fez. O não fazer, não saber, não experimentar, tudo isso gera uma angústia perfurante que faz a gente querer voltar no tempo.

É inevitável que você aprenda mais com o fundo do poço do que com o topo de qualquer lugar. Porque lá no fundo você tem tempo pra refletir. Porque lá no fundo você tem tempo de avaliar. Porque lá no fundo, bem no fundo do poço, você aprende a se defender das porradas que a vida prática dá. E descobre que na maioria das vezes você precisa encontrar sozinho a saída do poço.

É inevitável que você chute o balde. Uma hora você quer se livrar das amarras. Quer perder a cabeça. Quer jogar tudo pro alto. Quer experimentar o experimental. Quer correr mundo, correr perigo. E vai fazer isso. Não importa o quanto sério você seja, o quanto louco você seja. Uma hora você vai ligar pra ele ou ela. Uma hora você vai se declarar e foda-se. Uma hora você vai pedir demissão. Uma hora você vai viajar sem rumo. Uma hora…

É inevitável que você ache que perdeu tempo. Num relacionamento. Num emprego. Numa faculdade. Num ponto de ônibus. Numa reunião. Numa conexão no Panamá. Num batizado. Numa conversa. Numa tentativa de reconciliação. Numa ligação não atendida. Num almoço. Em algum momento você vai pensar e se dar conta: como fui idiota, que perda de tempo!

É inevitável que você siga em frente. Não importa o tamanho da porrada do caminhão. Não importa o estrago do tsunami. Não importa que você não queira. A única coisa que se pode fazer é seguir em frente. A vida prática segue em movimento retilíneo uniforme. Não dá pra ficar parado, não dá para voltar atrás. Você vai seguir em frente porque ela te leva em frente. Ponto final. Porque quando você se der conta já será natal, ano novo, verão. Quando você prestar atenção, vai perceber que é sempre hoje. Que nunca foi ontem e não chega a ser amanhã.

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Originally published at umalaudaemeia.wordpress.com on October 14, 2014.