Mundo grande. Mundo pequeno.

Mundo grande. Grande demais. Por mais que a gente ande. Por mais que a gente corra. Por mais que a gente se apresse ao máximo: nunca será possível ver, viver e presenciar a metade da metade do que está disponível para nós. Essa é a melancolia da existência: nunca seremos tudo o que poderíamos ser. Somos apenas um ponto embaçado no grande mapa. Quanto mais viagens, maior se torna o mundo. Quando mais longe, mais sabemos que ainda estamos perto.

Mundo pequeno. Muito pequeno. Frequente são as vezes em que mesmo muito longe a gente acaba encontrando um traço de nós mesmos que chegou primeiro. Alguma coisa que faz se identificar com um sorriso no oriente, ou com uma rua de paralelepípedos no hemisfério norte. Vai ver essa coisa se perdeu de nós em algum momento da vida e foi agarrado na roupa de um amigo. Ou o vento levou, feito leva as sementes.

Mundo grande: alma pequena. Mundo pequeno: alma grande.

Mundo grande. Complexo. Confuso. Confundimos “partida” com “largada” e acabamos sempre achando que a jornada é um disputa para superar o outro e não a nós mesmos. No meio da corrida a gente já não sabe mais se está em uma busca ou uma fuga. Se a pressa é para se aproximar ou se distanciar. Às vezes o grito é de alegria e achamos que é de desespero. Às vezes o ponto de chegada é o mesmo lugar do ponto de partida.

Mundo pequeno. Não importa o lugar onde estamos; em casa ou num quarto de hotel; numa pousada ou numa cama de albergue: da janela para dentro sempre estarão nossos fantasmas. Todos temos nossos fantasmas. Tem aqueles que nos visitam nas madrugadas de insônia. Tem os que aparecem num domingo chuvoso, enquanto se vê um filme cabeça na tv. Deve ser por conta deles que a gente guarda muitas palavras, evita muitos encontros, temos muitos segredos, somos muito preocupados com o que vão pensar, com o que vão dizer.

Mundo pequeno: existe aquela pessoa e só aquela pessoa que nos interessa e queremos conhecer bem. Mundo grande: sempre existe e sempre vai existir alguém para conhecer. Alguém para se interessar.

O nosso medo de ter medo, de ter medo, de ter medo: mundo grande. O avesso do avesso, do avesso, do avesso: mundo pequeno.

Mundo grande. Os dias são assustadoramente intensos e um turbilhão de coisas passa sobre nossas cabeças. Tsunamis, furacões, terremotos que se abatem sobre você e eu. E a gente se dá conta de que é pequeno, mínimo, insignificante. Que o mundo continua e vai continuar girando, as coisas acontecendo, enquanto estamos paralisados em algum canto.

Mundo pequeno. Pequenas coisas acabam fazendo cada um de nós imensamente feliz, acabam fazendo chorar ou perder a fala. Um sorriso, um elogio de manhã, o olhar da menina, uma carta de amor, uma ligação no meio da tarde, um bolo de cenoura, uma música que toca na rádio, um cheiro conhecido, uma mensagem no celular, um novo amigo, uma coragem repentina, um bilhete, um convite.

Expediente: mundo pequeno. Fim de semana: mundo grande.

Futuro, distâncias, solidão, mundo grande. Coincidências, sincronismos, encontros inusitados, mundo pequeno.

Pequeno mundo grande. Grande mundo pequeno.

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Originally published at umalaudaemeia.wordpress.com on March 27, 2015.