Despretensiosamente, vocês nos matam.

É quando frequento ambientes fora da “bolhinha” do movimento estudantil e dos meus laços familiares imediatos, que percebo o quanto o mundo ta longe de mudar.

Hoje, esperando por uma consulta médica, tive que ouvir merda por mais de meia hora. Comecei a prestar atenção quando o homem que estava na sala indagou a duas mulheres qual delas era “o homem” da relação. Ambas sorrindo, logo esclareceram que eram apenas amigas. Uma das moças ainda brincou que provavelmente ela seria o homem, porque tinha um comportamento mais grosseiro.

Não demoraria muito pr’aquele papinho ~descontraído~ se tornar discurso de ódio. Em questão de minutos, o homem abre a boca e começa a dizer que tem certeza de que uma mulher que se relaciona com outra tem “problemas psicológicos”. Dito isso, seus argumentos só pioram a situação: “não é normal”; “isso não gera filhos”; “como que encaixa?”; “uma mulher precisa de um homem”; “isso deve ser decepção amorosa, porque sempre tem homem no meio dessas coisas”.

Nessa hora, quase levantei. Mas me restringi a encará-lo com muita raiva, de onde eu estava. O papo seguiu e uma das moças contou que uma vez teve medo porque convidou uma amiga lésbica para dormir em sua casa e ela só tinha uma cama.

- Ainda bem que não deu certo. — Ela disse. — Já pensou se eu gosto?

O homem riu e falou que não teria problema se ela gostasse, perguntou do que ela tinha medo.

- Do preconceito das pessoas.

- E desde quando precisa se importar com o que as pessoas acham? — o homem gargalhava.

Moço, eu imagino o que se passa na cabeça de uma pessoa que se contradiz como você. Imagino o tamanho privilégio que ela possui ao dizer que não liga pro que os outros pensam. Mas só imagino mesmo, porque eu não sei o que é viver sem medo, eu só quase sei.

O que eu sei é querer andar de mãos dadas com a minha companheira sem chocar, sem parecer que estou fugindo à normalidade. O que eu sei é querer passar despercebida na festa, na rua, no consultório médico. O que eu sei é sentir vontade de chorar quando escuto falas como a desse moço, porque eu sei que tem gente como eu que morre nas mãos de pessoas que pensam igual. Moço, é fácil dizer que não liga pro que os outros pensam quando você tem o privilégio de estar dentro dos padrões da normalidade, quando você pode ser quem você é sem medo. É o mesmo discurso do branco que diz que racismo está nos olhos de quem vê.

Eu quase sei o que é isso, moço, mas não chego a saber. Tenho em mim bem firme, a lembrança de não ser tão vigiada por desconhecidos quando tinha um parceiro, cabelo comprido e era mais feminina. Lembro que não tínhamos medo de expressar nosso amor onde quer que fôssemos, que as pessoas até gostavam.

O que você não sabe, moço, é o que é estar beijando a pessoa que você ama na rua e pessoas tirarem foto, pedirem pra assistir ou até para “fazer parte”. Moço, você nunca deve ter sido empurrado na rua por estar de mãos dadas com a sua namorada. E nem você e nem eu — ainda bem — nunca vamos saber o que é querer morrer por não poder ser quem se é dentro da própria casa. Mas eu quase sei porque tenho amigos que se mataram e outros que enfrentam depressão. Não são problemas psicológicos que nos fazem ser quem somos, mas definitivamente eles acabam aparecendo na maioria dos casos por causa de discursos como o seu.

Em situações como as que descrevo aqui, sobre aquilo que chamamos de suicídio, faço minhas ressalvas. Cada vez que somos lembrados ou “visibilizados”, como alguns preferem dizer, por meio de piadas, personagens caricaturais, despretensiosamente, vocês nos matam.

E moço, com certeza você já viveu decepções amorosas e isso não te fez gay. Decepção é ter que aguentar homem com esse discurso. Cada dia que passa, amo mais e melhor as mulheres do que a vocês.