Não somos obrigadas.

Ainda em tempo, sobre a cruel data 8 de março.
Preciso dividir nesta rede social, onde me cabe o maior alcance que possuo, a bizarrice que me foi encontrar, adesivada em letras enormes, no piso de entrada de uma das maiores empresas de publicidade e propaganda de Teresina, a seguinte hashtag:
#Somostodxsmulheres

Não cabe aqui dizer o nome da empresa nem refletir se a cidadã ou, muito provavelmente, o cidadão que teve esta ideia achou que estava descobrindo a roda ou dando apoio a qualquer luta que seja. Além do mais, é dentro de uma empresa, só vê quem trabalha lá dentro ou algum cliente que precise passar por aquela porta. Mas chega a ser no mínimo vergonhoso imaginar que existam pessoas que acreditem que uma peça dessas é legal, ou mesmo que não tem “nada de mais”. Pessoas que trabalham com público, com persuasão.

Estou há 3 dias mastigando, mas não, a maldita peça não me desceu. A minha vontade era de ter uma conversa franca com a pessoa que a criou, mas como sei que o problema é bem maior, escrevo aqui no meu mural e vai que isso muda a vida de alguém — ou não.

Oito de março. A data em que somos lembradas. Elogiadas, presenteadas, homenageadas. Por sermos belas, por sermos inteligentes, por sermos fortes, eles dizem. Um dia para nos “mimar”, para nos lembrar, eles acham, de quanto ser mulher é algo maravilhoso e do quanto deveríamos ser gratas por termos uma data nossa, afinal, não existe dia do homem, não é mesmo?

Me digam o que vocês queriam, que eu ainda não entendi. Que um dia no ano ao menos, deixássemos de lado uma luta que, ainda que não assumida por todas nós, existe para a nossa sobrevivência? Que ignorássemos e aceitássemos piadinhas de todo tipo porque é “nosso dia”? Do que vocês reclamam? Do direito de vocês descansarem do nosso discurso, aquele que vocês chamam de “mimimi”, afinal, porra, vocês estão enchendo a nossa bola?

Eu diria à pessoa que criou a peça publicitária que é fácil dizer que é mulher apenas no dia 8. Mas, para mim e para algumas mulheres com quem conversei, foi um dia terrível, dia de ver bizarrices mesmo!

Por todos esses dias, pensei na frase e observei o mundinho ao meu redor. Meu pai não é mulher. Meu chefe e o sócio dele também não. O porteiro do meu prédio e os funcionários da obra que faz barulho aqui do lado da minha casa não são mulheres. Não somos “todxs” mulheres. E se você é homem, você certamente não sabe o que passa uma mulher todos os dias para sequer ousar repetir esses dizeres. E se você é homem e já sofreu assédio, foi estuprado, teve a roupa censurada, apanhou da(o) parceira(o), deixou de passar por algum lugar sozinho ou ganhou menos por algum serviço prestado, eu sinto muito, mas essas coisas não aconteceram com você porque você é mulher. Porque você simplesmente NÃO É.

Dizer que “somos todxs mulheres” invisibiliza uma luta e um sofrimento diário de todas aquelas que são violentadas em suas casas, na rua, em seus ambientes de trabalho. Por serem mulheres. Banaliza aquilo que somos e o maior motivo pelo qual não temos os mesmos direitos que vocês, que são homens.

Respondendo a uma entrevista que dei para o 8 de março (a data em que nos procuram e em que temos a possibilidade de ver a luta ganhar espaços de alcance mais genérico), disse que, na minha descoberta do feminismo, senti uma forte necessidade de me assumir mulher e de entender no que isso implica na minha vida, no dia-a-dia, no convívio com o outro. E esse árduo processo tem se estendido até hoje, quando eu entendo que me basta ser para eu sentir medo. Me basta ser para um homem me levantar a voz ou invadir o meu espaço. Ser mulher é ser culpada pela opressão que sofremos. É ser silenciada e até julgada ingrata se você não aceita a rosa, não agradece o elogio, não gosta do fiu-fiu ou da carícia que aquele cara que diz que é teu amigo te fez, sem a tua permissão. Permissão pra quê? Não somos todxs mulheres?

NÃO, colega homem. Alguém que trabalha com textos e pessoas sabe muito bem o peso que as palavras têm. Mas o capital continua a girar, homens continuam a ser homens e mulheres continuam a morrer. E mais do que esse xisinho nas palavras e do que essas campanhas chatas de “somos todos”, o machismo tá passando da hora de cair.

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