O Jogo do Contente

Ana Beatriz Araujo
Sep 6, 2018 · 4 min read

Meus pais me ensinaram a sorrir desde que me entendo por gente, não de modo programado mas sim verdadeiramente, eles me faziam cada dia mais feliz e me mostraram o que é enxergar o lado bom das coisas. Cresci e de surpresa fui convidada para uma grande gincana, uma brincadeira que com o passar dos anos foi ficando mais séria e difícil de jogar. O objetivo era simples: ver o lado bom de cada situação ruim que passasse por mim, se possível sempre com aquele mesmo sorriso verdadeiro e alma regida pela pureza de ser feliz.

***

Lembro-me com clareza daquelas águas, eram turvas e revoltas, nada se via além do horizonte a não ser a escuridão. Aquelas águas eram as minhas lágrimas pelas quais eu tinha que passar em um pequeno barquinho prestes a afundar, e o que aconteceria se eu simplesmente me deixasse levar afinal?

Fechava os olhos procurando calmaria e então ouvia — eram eles — aqueles mesmos fantasmas que me perseguiam por meses a fio dizendo coisas que facilmente iriam me tirar do rumo. Faziam com que eu me sentisse pequena, tinham até mesmo o poder de ferir e me colocavam numa imensidão sem brilho ou cores.

Quem gostaria de você? Não é suficiente, não é nada! Tem que mudar ou as pessoas vão se afastar — águas em nível mais alto e ainda mais fora de controle — Tudo aí causa estranheza, você não tem beleza!

E então eu mudei a maré.

Com o poder da diferença tirei lá do fundo o melhor de mim. Meu mar revolto se transformou em ventania, turbilhão esse que levou todos os fantasmas pra longe e fez com que as nuvens grossas se dissipassem no céu. Finalmente eu via meu primeiro amanhecer, as águas já não eram mais turvas e incontroláveis, a ventania se transformou em brisa e era ótimo ter os cabelos voando suavemente, fechei os olhos e no lugar de ofensas que faziam cortes profundos, ouvi o canto dos anjos. Meus anjos.

Olhei em direção ao mar, vi meu reflexo e ali percebi que havia ganhado aquela pequena batalha, pela primeira vez me via perfeita do jeitinho que era. Me apaixonei pelos olhinhos puxados e pequenos que podiam esconder mil segredos, contemplei meu próprio rosto, concluí que meu sorriso podia ser quase tão radiante quanto o sol que brilhava no horizonte. Olhei para trás e acenei com alegria para todos os fantasmas que passaram por mim durante tanto tempo, por conta deles aprendi a levar a vida com mais paciência sem deixar de lutar pra ser o que eu queria ser. Eles me deram asas, e era sem dúvidas a melhor sensação do mundo!

Atualmente vendo um novo amanhecer tentei puxar na memória quantas vezes já joguei agradecendo ao fim de cada pequena grande batalha, e com o passar dos anos tudo foi caindo na densa realidade de pensar que a tendência é tudo dar cada vez mais errado até que o céu escureça novamente, fui esquecendo de ver o lado bom da cada situação que me pusesse à prova e então pensei: por quantos cenários já passei para chegar até aqui?

Escalei uma grande montanha sempre levando fé que poderia cair a qualquer momento e nunca mais voltar a subir. E quando menos esperei estava no topo de braços abertos (uma prima distante do Cristo Redentor talvez?) apreciando a paisagem que era o meu sonho mais distante, e eu sentia que podia segura-lo com as mãos. Ou então o que dizer do fatídico dia onde a vida virou de cabeça pra baixo me fazendo vestir uma apertada camisa roxa?* A sensação era de que eu fosse morrer sufocada a qualquer momento, não conseguia respirar, meu coração ficava cada vez menor e eu não queria em hipótese alguma que as pessoas me vissem naquele estado. Mas, como que por obra divina, o grosso tecido roxo foi se transformando em um leve vestido com o qual eu tenho cada dia mais orgulho de andar, vestir essa cor de corpo e alma fez com que eu descobrisse todos os meus limites e me mostrasse ainda mais forte diante de medos e incertezas que eu nem conhecia, me fez ter ainda mais coragem, sorrir por um dia inteiro a cada pequena conquista e andar por aí com um vestido quase tão lindo, simbólico e esvoaçante quanto meus sonhos.

Hoje a vida me chamou para uma nova fase, talvez uma das mais complicadas e que necessite maior paciência e aceitação, acho que não há metáforas suficientemente boas que expressem a confusão que é um coração. As regras são claras: dê o seu melhor, sorria, seja uma pessoa boa, gentil e amável, e se a noite cair com tudo dando um pouco errado, pense no aprendizado que isso trará pra você, coisas incríveis estão por vir, olhe só à sua frente!

Nada acontece por acaso mesmo na pior realidade de quem pensa que tudo pode ser diferente. Então agora é a minha vez de te fazer esse convite, que tal jogar o Jogo do Contente?

*O vestido roxo simboliza o Purple Day (26/03) este dia é um evento com o intuito de conscientizar as pessoas sobre a Epilepsia, tentando assim acabar de vez com muitos dos mitos acerca da doença. É uma data importante para quem sofre com isso diariamente, para muitos é como uma luz no fim do túnel passando a sensação de esperança e de que as pessoas não estão sozinhas.

    Ana Beatriz Araujo
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