Famílias padrão “Marley & Eu”

Quando dizemos a expressão “família tradicional brasileira provavelmente vem à sua cabeça a imagem de um pai, sua esposa e prole. Hoje menos do que algumas décadas atrás. Só que nem todos os casais optam pelo modelo “final de novela”, muitos decidem não ter filhos ou preferem aguardar mais um tempo até se sentirem seguros para a nova responsabilidade. Com isso muitos desses parceiros têm optado por adotarem pets. Será que como uma forma de substituição? Ou de treinamento para a chegada do bebê?

Na foto Ramon Lopes, Marjorie Assumpção e, a nova integrante da família, Mayla.

De acordo com pesquisa do IBGE, há no país cerca de 52 milhões de cães e 22 milhões de gatos em domicílios, enquanto o número de crianças fica na faixa dos 45 milhões. Além de reforçar o dito popular de que o cão é o melhor amigo do homem, esses dados podem representar mudanças importantes na estrutura da nossa sociedade.

Segundo o mesmo instituto o número de filhos por família também mudou, e isso ocorreu devido às mudanças de vários parâmetros sociais. A média, entre as mulheres, vem reduzindo desde 1960, e é unanimidade em todos os estados do Brasil, como exposto no gráfico abaixo.

Apesar de ainda haver uma desvalorização da mão de obra feminina, cerca de 30% a menos do que a do homem, elas estão cada vez mais inseridas no mercado de trabalho, gerando concorrência e resultando em uma necessidade maior de capacitação profissional, que exige dedicação e tempo. Por consequência, a proposta de constituir família vai sendo adiada por ambos os lados.

Veja o relato completo do casal sobre os planos da família.

O casal, Ramon Lopes, professor de música, e Marjorie Assumpção, designer de interiores, fazem parte desse novo modelo de família. Após um olhar cúmplice com a esposa, que demonstra que a questão já foi discutida, Lopes conta quais são os motivos fundamentais para a decisão. “Já seria legal uma companhia, para dar uma animada na casa. A gente tem planos de ter filhos, mas não agora, por causa dos compromissos e gastos”, contou.

Jocasta, com o gatinho Iso, conta um pouco sobre a nova vida a dois, os desafios de cuidar do bichano, além dos planos futuros da família.

Na nova casa de Jocasta Lima, publicitária, casada há dois anos com o concurseiro Vladimir de Paula, o Iso é o centro das atenções. Enquanto eles não estão em uma “situação favorável” para ter uma criança, o gatinho é considerado como filho e recebe todos os cuidados e carinhos para uma confortável vida felina. “Foi uma decisão nossa, a gente não podia ter filhos tão cedo, por questão financeira”. De acordo com ela, o bichinho agora é parte da família.

O professor e psicanalista, Sanzio Canfora não acredita nos pets como uma substituição, mas como um desejo da maternidade ou paternidade direcionado ao animal. Para ele colocar os pets no lugar de um filho pode ser complicado para o casal, pois indica um desejo de serem pais que não está sendo ouvido por eles.

Sanzio fala sobre o endereçamento de amor ao animal de estimação.

Canfora também salienta o cuidado em afirmar a mudança de uma padrão de família. Ressalta que muitas vezes é um receio de mudança de vida e afirma que não é possível ter certeza se o padrão “Marley & Eu” realmente é uma tendência. Mas, para ele, é comum que as pessoas queira endereçar amor a alguém e, por isso, optem pelo cachorro. Ele explica.

Mas, como contam Jocasta, Ramon e Marjorie, não basta apenas “querer” ter um filho, na realidade social em que vivemos hoje muitos aspectos devem ser levados em consideração na hora de tomar essa decisão. A questão financeira é o principal empecilho citado por eles. Além disso, é preciso replanejar a vida do casal para adaptar a rotina de trabalho e estudos aos cuidados com o bebê, que exige muito tempo e dedicação - mais que um cachorro, e mais ainda que um gato de estimação, segundo Jocasta.

Na opinião de Canfora, é muito comum que os homens exitem, dizendo coisas do tipo “deixa eu terminar meu mestrado antes”, e depois vem o doutorado, talvez a espera por uma promoção na carreira profissional, e assim há sempre uma prioridade. Dessa forma, a decisão de serem pais vai sendo adiada até que o casal se sinta “preparado” para ter um filho. Mas o psicanalista argumenta que essa preparação todos os seres humanos têm, e dificuldades todos vão passar, o que falta é a coragem para mudar suas vidas e encarar o novo desafio.

O pet pode então contribuir de alguma forma na situação. “Acontece que quando eles querem ter filhos, mas não sabem disso, eles descobrem que querem tendo um animal de estimação”. Mas é preciso ter atenção na forma como eles são tratados.

A analise completa da situação, feita pelo psicanalista Sazio Cafora, explica melhor os cuidados que devem ser tomados pelas pessoas ao substituir o lugar de um filho por um animalzinho de estimação.

Ao analisar a situação deste modelo “Marley e eu” de família brasileira, constituído por duas pessoas e um animal doméstico que se amam mutuamente, o especialista conclui que “preferência por pets” talvez não seja a expressão ideal que assume o lugar de um filho. A barreira que se encontra entre pais e filhos, neste caso, pode ser apenas uma opção do casal movida pela insegurança.

Fica então a conclusão do psicanalista sobre o assunto…

Conteúdo produzido, redigido e editado por: Ítalo Lopes, Ludimila Guimarães e Umberto Nunes.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Umberto Nunes’s story.