Você é um personagem de desenho animado?

O barrigão enorme desde os seis meses de gestação lhe renderam vários presentes. Um a um, ela fazia questão de mostrar e agradecer. Até mesmo um vestido muito colorido feito com tecido próprio de fazer cortinas.

Ao vê-la mordi a língua para conter o riso. “Tá parecendo uma burra calula" pensei maldosamente. Mas não conseguia parar de olhar, a ponto dela mesma perguntar “O que foi?” Contive qualquer resposta e fiquei na torcida para ela se dirigir ao outro caixa de atendimento. Chegando lá, meu colega de trabalho disse o que tinha em mente: “Mas Roberta, o teu menino deve estar pensando na barriga: Será que minha mãe é uma personagem de desenho animado?”

Desatou o riso, nem ela se aguentou. Depois admitiu que usava o vestido para agradar quem lhe presenteou. O tecido duro era incômodo e as cores estonteantes demais.

A partir desse causo, até mesmo hoje (alguns anos depois) ainda se tira boas gargalhadas. A hipotética pergunta do bebê passou a me perseguir constantemente: será que eu sou um personagem de desenho animado?

Não que eu use roupas coloridas com frequência, mas justamente o contrário: o fato de usar três a quatro camisas bastante parecidas durante a semana. Os personagens de desenho animado geralmente não trocam de roupas.

A ênfase inicial que relacionava a mulher a um personagem de desenho animado era o colorido do vestido, pra mim o sentido passou a ser o da repetição, pois junto às roupas parecidas, somam-se situações semelhantes, perguntas similares, as mesmas irritações, o mesmo “alarme atrasado”, o mesmo “corretor ortográfico”, os mesmos dias-toda-vez-a-mesma-coisa.

Nos desenhos animados os personagens geralmente são planos e previsíveis, não é preciso meia volta para caírem na mesma fala clichê, no mesmo escape e desfecho. A vida nos desenhos é pura repetição.

E a nossa vida real também tem colecionado recorrências inúmeras. A mesma xícara, o café com pão, o almoço nas pressas, os encontros adiados, os números bloqueados, a facada do cheque especial, as mesmas ligações e o WhatsApp que reincide em vídeos de bom dia e petições.

Também são as mesmas piadas, os mesmos mal entendidos, a mesma intromissão, as velhas mentiras, as mesmas poses, os mesmos destinos de viagens…

Você está de fato vivendo ou apenas existindo? Olho para camisa preta que escolhi usar hoje e parece besteira, mas ela não parece com uma das mescla cinza que usei na semana passada. Tento me transformar em um caçador de pôr do sol sempre que posso e isso tem a ver com o desejar mais da vida quanto à contemplação e reflexão. Todos os dias temos um pôr do sol, mas eles parecem tão raros.

Não somos personagens de desenhos animados, somos gente de carne e osso com talento, inteligência, desejo de aprender coisas novas, de conversas necessárias.

As pessoas se repetem num mar de conformidade. Parece não haver mais que quatro ou cinco formas de pensar, uma ou duas maneiras de reagir… Dizem que cada cabeça é um mundo, mas não parece, não parece… É uma coincidência de cópias tremenda. São as mesmas pessoas em corpos diferentes, corpos ambulantes em modo automático. Tem se perdido a identidade, a humanização… a essência.

Não é defeito de fabricação pensar diferente. É característica do ser racional. É característica do homem criado à imagem e semelhança para ser também um ser que cria, que transforma.

Muitas quintas feiras são como reprises de terças feiras passadas. E todas as segundas são iguais e todas as sextas com as mesmas mensagens de mal ânimo.

Estamos vivendo ou assistindo os dias passarem?

Você tem sido você mesmo? Tem sido quem deveria ser? Quem poderia ser? Você é real ou apenas um personagem de desenho animado?

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