Vou ser sincera. Me comprometi a algo que eu não sei como entregar. Criei esse projeto para conhecer pessoas pelas histórias que mexem com elas e por isso ler um livro que fizesse parte do seu universo particular. Prometi entrar em cada um destes mundos e escrever sobre isso. Não sei nem por onde começar. Sempre trabalhei construindo representações visuais que por si só falassem o bastante . Essa é a minha profissão. Existem imagens que têm muita voz. Mas existem momentos em que são só palavras que tem a sutileza de servir, bem discretas e despretensiosas.

Então, fazendo bem o que faço, vou criar uma imagem de conforto pra me sentir próxima de quem lê e tentar entrar nessa sala que eu abri pouca vezes antes.

No primeiro momento que comecei a ler o Murakami, senti como se estivesse no mesmo cômodo que ele dividindo um café. Ou como se eu mesma estivesse sentada na sala da casa dele ouvindo ele contar a histórias de quando começou a escrever. A escrita dele é próxima, simples. Ele quase me fez pensar que eu também poderia virar uma escritora. Ja que ele começou aos 30, sem experiência nenhuma no assunto, despretensioso. Ele queria e escreveu Pinball, seu primeiro romance, com essa idade. Quando ele conta de corrida, que é uma narrativa que está entrelaçada durante toda a história, quase não sei dizer se ele está falando do modo como ele lida com a vida, com suas próprias limitações pessoais ou com o seu trabalho.

Como prometi ser super sincera com o texto, quando eu falo da relação dele com a corrida e a ligação dela com os diferentes pontos do livro eu me perco de novo. Porque nesse momento o livro fica grande. E é agora que eu volto um pouco pra mim e como esse momento se entrelaça com algo que eu também vivi, e que me identifiquei.

Quando eu tinha 18 anos saí de casa. Depois de 5 anos de relacionamento conturbado com o meu padrasto eu me desliguei de um jeito brutal da minha adolescência e dos cuidados da minha família pra um vida adulta despreparada. Nessa época eu não podia parar. Não podia me dar ao luxo de alongar, tomar uma água, me ressentir. Eu tinha que continuar correndo. Eu lembro da última coisa que ouvi da boca dele. Foi um deboche vestido de ameaça “Eu não vejo a hora dela voltar com rabo entre as pernas”. Aquela foi a minha regra. A regra do Murakami era jamais caminhar. Era correr a maratona até o final.

E existe um momento, para os que correm, em que o cansaço, que o esforço, que o suor de uma ultra maratona de 100 km, que a exaustão, que a raiva de ter se comprometido tanto, que o medo de não suportar e voltar com “o rabo entre as pernas”, fazem você chegar a um espaço de não significado, de silêncio. Não importa se você chegou ao final, porque ele de fato não existe. Não vai fazer diferença nenhum provar que eu nunca voltei, não como meu padrasto esperava que eu voltasse. Porque de fato, só eu sei o que aquilo foi para mim.

A sua relação com a corrida me mexeu um pouco. E ele deixa a gente entrar no seu espaço pessoal, no que ele pensa enquanto corre, em como ele ultrapassa seus próprios limites. Mesmo que eu já tenha corrido grandes distâncias, não sei o que é correr uma ultra maratona de 100km movido unicamente por um desejo pessoal que no fundo só o Murakami pode compreender. E finalizá-la, também como muitas coisas que nos prometemos, são vitórias muito particulares. São lembranças felizes que estão sempre lá para serem acessadas e que não nos tornam necessariamente pessoas melhores ou piores, mas diferentes.


Recomendado por Cristiane Scaff.