Vivo sozinho neste apartamento e por muito que insistam que são desculpas, é uma opção minha. Não me venham com conversas, que o homem não foi feito para viver sozinho e merdas do género. Vivo sozinho, sou auto-suficiente e escolhi não dividir o meu espaço com uma mulher. Digo isto com um certo, estou capaz de escrever bastante, bastante orgulho, embora já tenha pensado se digo isto apenas para me animar, não dar ar de fraco e se uma mulher e qualquer mulher serão a mesma coisa, parvoíces minhas, estou muito bem assim. Tenho os meus amigos, o meu trabalho, chego a casa sem preocupações de ter alguém à espera, sou uma pessoa alegre e posso deixar os casacos amontoados à porta de entrada sem que ninguém implique. Sou dono de todos os interruptores da casa e do comando da televisão, embora isso não seja nada por aí além, gosto de dizer que me sinto feliz assim. Tenho as minhas coisas, as minhas músicas, a televisão, os meus livros, muitos amigos, e nunca me sinto só. É certo que nunca é uma palavra exagerada, mas é melhor assim. Não acordo com cotoveladas, chego a casa e encontro o silêncio das paredes, tem dias que me parece entrar num velório mas são parvoíces minhas, nunca encontrei nenhum defunto. Vivo sozinho e é uma opção minha. Nunca tomei daqueles comprimidos que as mulheres trazem na mala a modos de parar qualquer lagrimazinha insignificante, qualquer pieguice, sou uma pessoa alegre não tenho jeito para tristezas. O telefone nunca toca mas se tocar sei que é sempre para mim, aliás, hoje tocou mas foi engano, mesmo que seja engano atento sempre, pode ser alguém a perguntar-me como correu o dia, nunca aconteceu mas pode ser que seja.
Tinha acabado de jantar, jantei na sala e vi as notícias sem fazer comentários, depois desliguei a televisão e vim aqui para a mesa. Não tenho ninguém para me fazer uma festa no cabelo mas as minhas mãos também chegam lá, afinal vivo sozinho por opção. Há uns dias perguntaram-me: e o coração? Sorri, todos me vêem como uma pessoa alegre e por isso responder com um sorriso é o bastante. O coração, fechei a porta com tanta força que a chave caiu lá para dentro, estou muito bem assim, mais chaves para quê? Daqui a nada farto-me do silêncio da sala e vou até à varanda escutar a rua, silenciosa. Não tenho sono, ainda dois espaços vagos entre a fila de carros estacionados, o meu carro, as árvores a acompanharem a rua já despidas de folhas. A mim ninguém me acompanha mas gosto da minha rua, gosto da minha casa, gosto de viver sozinho. Dois ou três carros que passam e desaparecem mais abaixo, um cão entre os carros a escolher o melhor pneu e a afastar-se até ser engolido pelo escuro ao fundo da rua. Acendo um cigarro e até acabar não penso em nada, se gritasse agora ouviria o eco dentro de mim. Depois farto-me deste silêncio e juro que se um cão me ensinasse a escolher o melhor pneu, vestia o casaco, descia a escada do prédio a correr, metia-me entre os carros a escolher o pneu, alçava a perna e depois desaparecia, engolido pelo escuro ao fundo desta noite que não se faz dia, deste silêncio, desta rua, disto, de mim. Se arregaçar as mangas bem para cima e enfiar o braço até lá ao fundo sei que um dedo encontrará a chave. Mas, a esta hora alguém vai bater à porta?
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