August 24th

Felipe Alcantara
Aug 27, 2017 · 1 min read

Essa é a história de um homem comum. Um homem e um coração azul. Ele sonhava em voar, sem tirar os pés do chão, tinha medo de altura. Por isso andava, marcava seus passos na areia molhada, desenhando aquarelas sob a maresia, desculpando-se ao mar pela audácia de chegar sem pedir licença. O coração apertava a cada palavra cantada ao acaso. Fechava os olhos pra não ser visto, sussurrava canções de amor, sentia o indizível e eu me perdia em seus braços. Engasgava a cada soluço, como quem pensa duas, três, dez mil vezes antes de acordar. Abusava e fazia pouco caso da sua bagunça. Implicava com meus dramas espalhados no carpete. E os sorrisos que indiscrimadamente roubava de seu rosto. Revirava os olhos e voltava aos meus, enroscando os cabelos em mim. Nossos lábios enlaçados já não sabiam se comportar e silenciavam nossas batidas. O tempo passava devagar, dissimulando a força dos ponteiros e as luzes da cidade. À meia noite seus olhos eram tão negros quanto a madrugada, e eu me perdia em todas as coisas indizíveis. Seja feliz, bom dia à meia noite, te amo à mesa de jantar, fica comigo, sorri pra foto. Ignoramos as pessoas na sala de jantar, fingindo não nos importar. Tendo certeza que ter coração é ter problema, coração não pensa, só pulsa. O meu, nos teus diferentes tons.

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    Felipe Alcantara

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    Too cool for the summer. Prefere a série, sem muita paciência pro livro e dorme no filme. O velho clichê da metamorfose ambulante.