Carta aberta ao grande irmão

O que dezenas de câmeras, luzes, microfones, um bando de gente desocupada, porém com bastante atitude tem a ver com a sua vidinha mundana?

Você poderia pensar nada, ou tudo, se você for desses fãs mais assíduos.

Com pay-per-view há cerca de cinco anos, e acompanhando religiosamente há pelo menos 10, ah, e com uma mãe cada vez mais neurótica, posso dizer que tenho certa propriedade sobre o assunto Big Brother Brasil.

Tenho tratamento terapeutico o suficiente para, hoje, considerar que se trata apenas de entretenimento barato, e de mau gosto.

Hoje me questionei o que faz você, eu, nós nos sentirmos melhores e aptos a julgar qualquer acontecimento dentro do confinamento. Brincar de deus é algo perigoso, especialmente em tempos onde tolerância é uma palavra que tem desaparecido dos dicionários e princípios básicos que regem a dignidade da pessoa humana.

Julgamos porque somos humanos, é da nossa natureza pensante e falha, julgamos porque é o que fazemos de pior. Toda história tem bem mais que dois lados, ou 10 câmeras exclusivas, e uma edição manipulada pela Rede Globo. Me desculpem o tom irônico que provavelmente você não sentiu, desde muito cedo tenho ranço com essa história de alienação e manipulação de massas, talvez por ter demorado tanto para me deparar com um fruto nato desta frustração mundana.

Mamãe passa o dia no sofá, acompanha os passos de seus participantes favoritos, vibra, crê em cada palavra dita, proclama heresias, e pasmem, vota. Geralmente temos opiniões bem distintas sobre o jogo, pra quem torcer, quem é mocinho, quem é vilão, e há um mês atrás eu ainda dizia que ela não sabia assistir, sempre torcendo pelas pessoas erras. Mas espera aí, sério isso, sério que eu to perdendo tempo com isso? Sério. Sério porque quando um homem machão levanta o dedo a um centímetro do rosto de uma mulher, a gente mete a colher, quando alguém fala barbaridades de um alcance inimaginável, a gente mete a colher, e por mais que a casa mais vigiada do Brasil não seja modelo ético de sociedade, não seja laboratório da vida real, assusta o tipo de ser humano que existe do Oiapoque ao Chuí, que país é esse, Inês Brasil?

Um país de bolsomitos, de valores tortuosos, de vantagens escusas e (in)verdades secretas. Um mundo de muros, fronteiras minadas e um menino maluquinho com poder nuclear.

Não, o Grande Irmão não é real, mas ele existe, ao menos desde 1984, e ele controla sua mente, que já não é lá tão confiável, e ele diz muito mais sobre você que nossa vã filosofia poderia acreditar, talvez Thiago não esteja sendo verdadeiro ao te dizer que isso tudo não é real, talvez devêssemos ter usado protetor solar enquanto havia tempo.

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