Tem nudez que pede outra coisa

Uma pica solar com quem vivi umas aventuras, uma vez, bêbado, veio abrir o jogo sobre eu ter esquecido um sutiã na casa dele de propósito. Eu, que naqueles tempos cultivava uma contínua e interminável ressaca; eu, que sequer lembrava com certeza da noite anterior; euzinha, arquitetando um esquecimento estratégico de sutiã na casa do cara. Tá bom ou quer mais?

É a caricatura do comportamento do homem médio: o cara que acha que o mundo gira em torno do próprio pau. Enfim, nada contra o pênis, até tenho amigos que têm. A coisa em si é aquilo mesmo, mas e o ego em torno dele? Será possível que tem marmanjo de trinta anos de idade precisando de cartilha pra entender o básico?

Há experiências heterosexuais inacreditáveis — tem coisa cuja compreensão orbita o impossível, mas ainda bem que bruxa aprende a rir logo: em tempos de calmaria, via de regra quando estamos entre mulheres, o riso é um poder que sempre surge. É com algumas dessas experiências que vou ilustrar esse texto.

Ele queria saber se eu tinha terminado o namoro, disse que tava
Com saudade de me comer ou algo assim. Falei que não, não tinha
Terminado e não queria dar pra ele. Ele tava ali sentado no banco
Do passageiro, com o pau duro já — maldita química, claro que eu tava
Com um tesão do caralho também, mas não ia trair meu namorado de jeito
Nenhum, e quando ele percebeu que não ia rolar, começou a bater punheta
Bem ali, no banco do passageiro do meu carro, na porta da casa dele, que tinha
Só me pedido uma carona. Gozou o carro todo, a porra de um homem que não
Era meu namorado, que não era nada além de alguém com quem tive um
Rolo no passado e que nunca nem me assumiu e sempre me colocou
Como objeto na frente dos amigos.
(autora desconhecida)

É aí que se vê: o machismo dá as voltas e disfarça, atualizando-se na lógica desconstrução/conveniência. Essa, por sua vez, encarna na constante da, digamos, reação-diante-do-enfrentamento.

Na relação desconstrução/conveniência, o pró feminismo vai só até onde é interessante pra si — afinal, o que há mais além? É o suficiente pra não se levantar diante dos broder (o que deve ter consequências gravíssimas para sua masculinidade) e não perder a moral com as mana (afinal o cara pega aquela amiga dela e coisa e tal).

Diante das amigas feministas, o pró feminismo aparece através de uma escuta acessível. Existe uma disponibilidade, às vezes até mesmo um interesse sincero (eu acho, sei lá) pelo que temos a dizer. O diálogo tem sido mais possível, ainda que, às vezes, desanimador. Por outro lado, aquela velha questão: o que você faz quando ninguém [As Feministas] está olhando? E assim chegamos na mesma denúncia de sempre. Os caras não entendem nada. É tudo parte de um processo de perpetuação do silenciamento — como um “aham pra não render” fantasiado de “vamos conversar sobre isso”.

Ilustrando: os machos veiculam conteudo machescroto no grupo da galera naquele aplicativo de conversa. As minas se posicionam e questionam a sangria desatada delirante coletiva. Os machos ouvem, estancam o conteúdo e fazem um novo grupo, só pra eles. Porque, afinal, considerar realmente o que é questionado não é uma opção. Deixam a gente falar pra evitar a fadiga.

Ele me deve cinco mil reais. Sustentei tudo sozinha por anos,
Inclusive financeiramente, e ainda tenho que aguentar o cara
falando por aí que eu sou louca.

Fiquei pensando no que há por trás dessa negativa veemente a uma escuta aberta ao que temos a dizer. Por que, com tanta frequência, somos marcadas por experiências de distorção da percepção da troca que construimos com os homens. Por que se recusam a ver de frente que se comportam, via de regra, de maneira problemática. Por que sequer consideram encarar com sinceridade o que sustenta esse comportamento. Por que é tão comum que seja mera fachada a imagem do homem que, minimamente, se questiona e trilha algo na direção de uma maneira própria e sincera de lidar com as coisas (diferente dessa forma banal de que falei acima, e que acaba resultando nos esquerdomachos feministos libertário-silenciadores etc etc).

Questionei se o macho humano instintivamente teme por sua virilidade caso se posicione como não-idiota na frente de outros machos. Imaginei que a biologia pudesse explicar a queda dos chifres e a conseqüente desvantagem nas batalhas empreitadas para disputar fêmeas, mas lembrei que os machos de nossa espécie não têm chifres e não disputam fêmeas (não nesses termos). Ou então, pensei, talvez a dança do acasalamento ficasse comprometida, mas isso aí é improvável, já que, por pior que seja o par, a gente ainda continua dançando, às vezes.

A tentação de justificar algumas coisas acalanta nossos pobres corações com a ideia de desresponsabilização e aceitação da situação como ela é, mas a questão é: não existe uma lei natural que, por si só, explique por que os pintos se acham tão sóis, tão autocentrados e autorizados a qualquer coisa. E tem coisa que não é justificável, ainda que se possa, em maior ou menor medida, explicá-las.

É conteúdo pra outros textos compreender como se dão os processos que levam a essa auto-legitimação masculina para deliberadamente moldar nossa fala conforme a própria conveniência, deixando, afinal, as coisas como elas são — porém maquiadas. Mas e o quanto eles se julgam revolucionários?

(já pararam pra observar comportamento de macho humano em bando?)

Fato é que, na hora do vamo-ver, é um pânico generalizado.

Assim, concentrando tudo no próprio pau — corporificação do ego do macho médio –, os caras seguem resumindo tudo ao gozo tosco e barato, peniano e solitário. Digo, em relação a (não) construir algo em direção ao outro.

Quando o mundo gira em torno do seu sexo, deve ser fácil se acomodar em percepções superficiais das coisas, mas existe um outro com quem a troca só será inteira se for recíproca, portanto sincera, e, pra isso, conscientizar-se é indispensável. Nem tudo é sobre você.

A gente tava conversando virtualmente sobre algo que dizia respeito
À nossa história, um caso mal resolvido de uma relação adoecida
Que se arrastou por anos, e sobre a qual ele sempre foi
Omisso. Era uma conversa importante, que tinha sido
Adiada por anos. Aí ele simplesmente parou de me responder.

Nem todas as trocas podem se dar nesse plano em que somos apagadas por uma legião de bem intencionados.

Objetivamente: não adianta concordar com as migas feministas, compartilhar textão nas redes virtuais, falar que entende, se não traz pro real. Se, no fim das contas, só fica com a mina escondido, extorque a namorada, deixa falando sozinha, expõe como louca, enfim, funda-se em artifícios para se eximir da sua parcela de responsabilidade pela troca e por como ela se dá.

Enfim, as inibições das capacidades que potencialmente habilitam à empatia e ao respeito influenciam incontornavelmente para um posicionamento de tal forma egocêntrico. As amarras que compõe o estrangulamento dos homens e a exaltação de seus egos estimulam, assim, uma orientação ridiculamente narcisista e autocentrada, fundada sobre a falsa ideia de que sua masculinidade (que, nesse caso, se resume ao pau) está no centro do Universo (e que universo frágil seria esse…). Inclusive sob a maquiagem (que muitas vezes é também um auto engano) de libertário consciente.

Sabe, tem nudez que pede outra coisa.