Faço Dele o meu lar, onde quer que eu vá.

(Texto escrito por mim em 09 de junho de 2016, a bordo de uma plataforma de petróleo, durante uma madrugada de insônia e ansiedade pelo desembarque.)

Hoje cedo eu li um algo que a MAIS traduziu para o site deles, e fiquei refletindo em como aquilo se aplica à minha vida. Daí senti vontade de compartilhar com vocês, o texto, e algo que tenho vivido. Detalhe, enquanto lia, eu me perguntava se não era eu o autor rsrsrs… Recomendo que leiam o texto (CLIQUE AQUI) antes de ler o que eu escrevi abaixo, para que faça sentido completo.

É incrível pensar que é o próprio Deus quem coloca esse sentimento no nosso coração, e para o nosso bem. Se pararmos para pensar, é algo doloroso mas que vem para nossa edificação.

A falta de um lar e ou uma base nos leva a um desapego do que poderia ser um peso para cumprir o ide, nos leva a uma dependência maior de Deus, e a buscá-lo em momentos que antes não o fazíamos. Por exemplo, inúmeras vezes eu me deparei com a situação de estar embarcado em que eu só começava a orar quando via que realmente não tinha mais ninguém com quem conversar. Por algum motivo, não tinha como ligar ou mandar mensagem para nenhum amigo para bater papo, estava ansioso com algo ou só queria um irmão pra falar de qualquer coisa, e não tinha; mas Deus estava ali e eu conversei com ele. Nos meus poucos dias na Jordânia, cheguei a vivenciar dias assim, e ali eu percebia Deus me chamando para conversa insistentemente.

Foto tirada na Jordânia, durante uma conversa longa e de coração apertado, com Deus.

Passar por isso dói (me refiro ao processo citado no texto acima), e por vezes é difícil de suportar. Nos deixa confuso, ansioso e nada faz muito sentido. Dói, porque de tanto você não ter seus queridos para aquele bate papo, dentro de um tempo você se desapega e vê que na real isso não faz tanta falta mais. Quando você volta para casa, aquilo tudo que te prendia enquanto estava longe já não parece motivo para ter voltado. Eu já quis largar tudo e voltar para a Jordânia, porque não fazia sentido estar aqui mais. Parece loucura, mas por vezes, eu estando em casa e sinto falta de estar embarcado. E no meio disso tudo, se olhamos para o lado (como humanos que somos) vemos todos num outro ritmo, e às vezes dá vontade de seguir aquele ritmo e ter uma vida “mais normal um pouco”. Uma vida aqui perto de todo mundo, que doa menos um pouco ou que seja menos “incerta”.

Mas agora não é mais possível! E eu explico porque:

O sentimento de que não nos encaixamos, confortavelmente como antes, em lugar nenhum é a concretização do texto bíblico: “Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus”, ou da sua paráfrase que vi pichada num muro “Não há mais volta”.

Há alguns anos, a minha vida começou a caminhar num ritmo diferente dos que me rodeavam, e no início foi bastante doloroso. Após um tempo, eu comecei entender que isso significava que as coisas estavam mudando, e de forma definitiva. Precisei aceitar, que a partir de então, quase ninguém saberia de perto o que estou vivendo, que mesmo minha família não seria mais um lar para mim, que perderia a maioria daqueles amigos de antes, por mais que eu me esforçasse para mantê-los, e que eu não podia deixar isso me parar.

Acho que o mais difícil era reconhecer que mesmo quando eu voltava pra aqueles antigos hábitos, lugares e pessoas, eu não tinha voltado para casa. Eu não estava de volta para onde eu sai, e nada me fazia achar aquele lugar mais. Por mais que eu insistisse, remontasse os cenários e ajuntasse as mesmas pessoas, não era a mesma coisa e não mais o meu lugar. Tudo porque um dia eu saí do comando e deixei Deus guiar; e quando me dei conta, já não sabia mais voltar para casa. Tentar encontrar minha casa sozinho era mais doloroso do que seguir sem ela.

Eu não cheguei a pensar em desistir, mas já parei para imaginar como seria. Me pareceu terrível! Pois o caminho seria uma busca contínua de algo que me fosse lar novamente. E o que nesse mundo poderia ser lar para alguém que conheceu a Deus e suas promessas eternas, se não Ele próprio? A única forma de deixar o arado e não sentir o peso do vazio seria me anestesiar! Anestesiar a vida! Anestesiar até o fim… Olhando o cenário e tais possibilidades, resolvi deixar o Senhor me tratar e mostrar o que Ele queria com tanta mudança.

Janela do avião. Registro dos meus dias longe de “casa”.

Daí em diante, eu vi um Deus realmente poderoso ao meu lado, vi sua obra sendo realizada na história. Vi que Ele havia planejado isso para mim desde os meus primeiros dias. Entendi que os caminhos que sigo hoje são maiores do que os de antes, e me deixei ser fortalecido por suas promessas e feitos. Enfim, resolvi seguir deixando Deus guiar. Hoje estou nessa rotina louca, 5 dias aqui, 10 lá, outros 10 cá. Sem previsão, sem calendário, não programo nem mesmo um dia inteiro mais. Cheguei a estar em 5 cidades e 3 plataformas diferentes em um só mês, e contando… Tem sido incrível, não pelo caminho, mas pela companhia.

Fiz Dele o meu lar onde quer que eu vá. Afinal, o fim desse caminho sem volta é Ele próprio, em plenitude!

Vieira, João Paulo _ 09/06/2016