“Saló” ou “Os 120 dias de Sodoma” — Uma metáfora das sociedades ditatoriais.

Não há dúvidas de que “Saló” ou “Os 120 dias de Sodoma” de Pier Paolo Pasolini seja um dos filmes mais perturbadores já feitos na história do cinema; Repleto de orgias, merda (literalmente falando) , humilhações e cenas angustiantes, chega a ser difícil não tapar os olhos em alguns momentos. Entretanto, apesar de desconfortável, o filme passa longe de ser apenas um show de horrores gratuitos, é antes de tudo, uma crítica muito contundente ao fascismo,ou, como irei expor aqui, uma metáfora que exemplifica muito bem toda e qualquer espécie de ditadura.

A história é relativamente simples: Na Itália fascista do século XX, quatro dirigentes fascistas ( Um bispo (representando a igreja), O presidente de um banco (representando o poder econômico), Um duque (representando a burguesia) e um Juiz (representando o poder judiciário) ) selecionam um grupo de jovens para ficarem confinados em uma mansão por 120 dias, sendo submetidos a orgias, torturas e humilhações de todo tipo. O filme é dividido em três partes ou “círculos” (Inspirados nos três círculos do inferno da Divina Comédia de Dante Alighieri ) : O círculo das manias, o círculo da merda e o círculo do sangue; Em cada círculo, três ex prostitutas contratadas pelos quatro libertinos, contarão histórias referentes ás já citadas- manias, merda e sangue; histórias estas que irão inspirar os quatro homens a cometerem todo o tipo de atrocidade com os jovens ali presentes.

Uma das cenas mais impactantes se passa no círculo da merda -Estão todos reunidos no grande salão da mansão, espaço onde boa parte da história acontece, ouvindo a ex prostituta contar uma de suas histórias. Ela conta que quando jovem fora obrigada a comer as fezes do cliente que a havia contratado; No mesmo instante, o duque vai até o meio do salão, defeca e obriga uma das jovens que ali estavam a comer os seus dejetos.

Uma, das muitas cenas perturbadoras que permeiam o filme.

Como já dito, Pasolini produz esta película com a intenção de criticar o fascismo, porém, seu filme pode servir como retrato ou metáfora de qualquer ditadura, seja ela de direita ou de esquerda. O principal elemento de qualquer sistema ditatorial é a ausência de liberdade-no filme, os jovens que muito bem poderiam ser uma imagem do povo, tem sua liberdade cerceada, tendo que ficar submissos ao estado (representado de maneira evidente pelos quatro homens).

Durante as sessões de depravação no salão da mansão, há uma pianista contratada que fica a tocar piano- geralmente são músicas suaves e calmas — Uma imagem da falsa tranquilidade que as ditaduras tentam passar enquanto acontecem as mais diversas atrocidades . Exemplo claro disso é o Brasil do período militar (1964–1985), onde as torturas e mortes eram rapidamente abafadas e sempre estava “tudo bem”.

As orgias e humilhações pelas quais os jovens passam é o retrato do povo numa sociedade autoritária, onde deve-se estar sempre submisso. Quem transgride as regras ou não se adapta, ou é morto ou torturado- como acontece na última parte do filme “O círculo do sangue”. Importante observar que nesta última parte, alguns dos jovens já estavam do lado dos fascistas, ajudando os mesmos a torturar aqueles que não haviam “se adaptado”- elemento sempre presente em regimes do tipo- o oprimido que defende o opressor. Simone de Beauvoir resume muito bem isto : “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.”

Apesar de forte e extremamente desconfortável, a película de Pasolini passados mais de 40 anos de sua estréia se mantém atual para aqueles que conseguem enxergar além do óbvio. Imputa sérias reflexões, principalmente em um período em que uma onda conservadora vem crescendo em todo mundo, onde políticos que defendem torturadores são exaltados e onde o caráter ditatorial se faz presente mesmo em democracias -é realmente isso que queremos?

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