Entre 51 tons de azul

Eu recentemente me tornei um viciado na trilogia mais hipócrita do mundo, o cara bilionário que usa o sadomasoquismo para conquistar uma virgem e satisfazer seus desejos, talvez o sucesso só tenha sido estrondoso pois de livro a história viu-se nas telonas dos cinemas.

Eu gostaria de contar uma história tão incrível quanto esta mas acredito que na minha vida exista apenas histórias irrelevantes; nada de aviões, helicópteros, talvez alguns barcos mas nada muito sofisticado, ainda…

A vida tem sido um tanto boa para mim, eu acredito que as coisas que acontecem não estão sendo por acaso mas existe um objetivo final que quando eu chegar lá eu terei uma coisa que vale mais do que tudo que já passou, aliás é a única coisa que eu terei para me basear, história.

Não meninas, relaxem, eu não curto sadomasoquismo mas aprecio uma boa literatura, brasileira, claro. Música? Com certeza, ah mas no filme da minha vida a trilha sonora toda será a discografia da Sade disso eu não tenho dúvidas.

Aliás, não sei por que até hoje Sade só foi usada apenas uma vez num filme de 1980. Bom, talvez estejam guardando para marcar a minha história.

2007

Que ótimo, eu acabo de me mudar de Olaria, Zona Norte do Rio de Janeiro, para o Recreio dos Bandeirantes, o que mais tarde fica conhecido como o bairro dos surfistinhas maconheiros, interessante não é mesmo?

Olaria era um bairro bom mas uma pena que a gota d’água tenha sido o assalto que ocorrera no portão da minha casa, eu me lembro bem, com cerca de 8 anos eu vi 2 homens levarem uma kombi armados até os dentes com fuzil. (Meu Deus! Quem assalta uma kombi com fuzil???) Estava difícil viver por lá, até que então meus pais resolvem se mudar.

Recreio da Diversão, ou melhor, da Depressão

Havia 1 semana que eu, como quem se despede de um cachorro, havia abraçado a casa de Olaria e estava habitando o mais novo e empolgante apartamento no Recreio, Zona Oeste, um belo upgrade! Apenas 10 quadras da praia mas agora muito menos eu frequentava, é tão estranho pois eu morava tão longe e ia quase sempre e agora raramente eu saio de casa!

Minha mãe parecia mais um cara solteiro cozinhando, miojo se tornou o prato principal do almoço e jantar, por que ainda não tínha-mos fogão! Com o passar dos anos eu me fiz feliz e brincava naquela varanda maravilhosa do 2° andar de um prédio de esquina e olha que sorte a minha: morávamos no apartamento que dava vista dos dois lados, panorâmica! Eu acabei ficando com a suíte do apartamento, não por que meus pais queriam me agradar mas sim por que a cama deles de 1920, da minha bisavó, não cabia de tão grande.

Ah que beleza, uma suíte com varanda e vista panorâmica para uma praça enorme e montanhas ao fundo, como ventava!

2010

Estávamos 1 ano após a morte de Michael Jackson, o padeiro passava buzinando todas as tardes com aquela bicicleta que carregava pães salgados atrás e doces na frente, o sonho era meu favorito, até o dia que me deu uma caganeira sem dó!

Triste história se não fosse a morte do meu cachorro, TOY, chamáva-o assim pois minha mãe dizia que ele era meu brinquedo, fazia- de cavalo, puxava as orelhas e cavalgava por aquele pastor alemão no quintal de casa com apenas 5 anos de idade, as vezes até dormia com ele na porta do corredor da casa de Olaria. O animal acabou ficando em Vargem Pequena na casa da minha avó pois não cabia no apartamento. Até hoje não descobri o paradeiro do corpo do animal.

“Por essas águas claras correm 51 tons de azul”

Pois é, esta frase se tornou um bordão após o estrondoso sucesso de 2015. Mas até então eu não fazia ideia de que não só minha vida mudaria mas minha mente se transformaria completamente em algo monstruosamente perigoso e manipulador, até para mim mesmo.

2012

O mar começava a invadir meu coração, a praia começava a virar rotina obrigatória. Era meu último ano naquele inferno de colégio azul no qual eu tanto sofri, não conseguia fazer amigos e os poucos que tinha eram ricos e badalados de mais para acompanhar.

Quem diria, na última semana um passeio que ficou marcado, Renata, Ana Clara, eu e Fernanda, ah, doce e infernal Nanda.

Durante 8 anos da minha intensa jornada no mundo do amor platônico eu aprendi o que era chorar, sofrer, sentir uma dor no coração que remédio nenhum poderia aliviar e cirurgia nenhuma resolveria.

De connecticut para o 8 anos de sofrimento

Ela veio da América do Norte, pois é poderia ter ficado por lá, tinha que ter vindo só para acabar com a única esperança que eu tinha de ser uma pessoa normal? Da província de Connecticut nos Estados Unidos, Fernanda, filha de brasileiros veio em busca de uma vida mais barata pois, por lá faculdade somente pagando. Eu realmente poderia sugerir ao presidente americano da época a criação de um “College” somente para ela!

No Azul Celeste

E ela se tornava cada vez mais distante alimentando a minha sede pelo poder

Elas estavam lá, nós 4 andando de bicicleta após as aulas em torno do parque chico mendes. Eu olhava para o céu enquanto tirava fotos, era um momento mágico parecido com histórias de filme, realmente eu gostaria que aquele dia parasse no tempo mas como tudo agradável passa rápido demais ficou complicado expandir aquelas curtíssimas 3h de ciclismo.

Após entrarmos no parque Renata e Ana Clara resolveram fazer uma pequena trilha enquanto eu e Fernanda ficávamos sozinhos sentados em um observatório que havíamos pulado a grade e estávamos a mais de 40m do chão, tudo era perfeito, eu a observava como um artista contempla sua obra após ela pronta. Foi uma primeira tentativa através de palavras mas tudo em vão, ela resolve descer e o momento é desfeito com a chegada do segurança o parque que pede para que nos retiremos do local de acesso proibido.

Eu já estava de saco cheio e com a vida prestes a mudar os horários ficaram apertados e não havia tempo para nada.

Quando o Azul Meia-Noite

A única cor que eu enxergava agora era a faixa do ônibus da empresa Redentor com uma placa escrito “Tarifa Única” e o destino? Méier, o curso que me abriu portas para o começo do 51° primeiro tom de azul.

Era tudo muito novo, estranho, eu precisava me enturmar e eu havia escrito uma música a poucas semanas e resolvi mostrar a um amigo que morava no mesmo bairro que eu e como ía-mos juntos eu o mostrei. Pronto, foi o começo de um sucesso tórrido.

A música era sensacional, com o refrão “Minha gata, minha mina, vem pra cá dançar, quero ver o teu sorriso quero ter o teu olhar” foi o start para que eu pudesse gravar o vídeo que me faria famoso por todo o bairro. Objetivo alcançado, ela assistiu mas não acreditou, assim como não acredita até hoje que foi para ela tudo o que fiz.

Após o milésimo acesso eu resolvi tirá-lo do ar, estava tomando proporções muito grandes e eu poderia ser processado pois o nome do curso aparecia com certas cenas de palhaçada que não elevariam de forma positiva o nome do curso. E assim foi feito.

Quando eu mergulhei no Azul Marinho

2015 era meu ano, após 2 tentativas falhas de fazer a tão sonhada prova eu resolvi fazer do meu jeito, pois em 2013 eu havia perdido a carteira de identidade, em 2014, a inscrição não havia sido paga. Mas 2015 foi o derradeiro, a mudança que me faria ser diferente, manipulador, controlador, intérprete, profissional.

Assim o narcisismo crescia e o dom de ser poderoso só aumentava, a influência por trás de todo aquele menino doce e amigável se tornava estrondosamente descontrolada por qualquer ser humano comum, pois ali eu já não era mais um ser humano comum.

Quando eu mergulhei no Azul Marinho as coisas mudaram drasticamente e com o passar dos anos os projetos em pauta agora saíram do papel e eram o combustível financeiro necessário para sustentar viagens, negócios, festas, pessoas e mais posteriormente, carros de luxo, barcos, helicópteros e até aviões particulares. Em meio a uma enorme crise financeira todo esse capital adquirido com planejamento e investimento pesado de uma herança familiar considerável.

Realmente foi o descontrole total de uma sede de ser o dono do mundo, há uns poucos anos atrás a primeira aventura, a mulher do banco que sentada à minha frente, loira, madura, seus seios pressionavam o botão da camisa social que vestira segundo as regras de sedução , apenas 4 botões de 5 abotoados.

Era o começo do azul oceano que me faria mergulhar nos mais profundos desejos e anseios de uma vida conturbada…

— Esta história possui uma coleção, e é bastante longa, eu gostaria de saber sobre a aprovação de vocês, leitores, para postar a trilogia completa ou simplesmente parar por aqui.

Autor: Gabriel Valladão

De: “Uma história nada real”

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, nenhum dos fatos acima aconteceu.