O insustentável peso de ser

O mundo é mais parecido com uma zona de guerra do que eu gostaria de admitir

E os pobres matam os pobres

E os ricos matam os pobres

E os ricos matam os ricos

E os pobres matam os ricos

E matam cem pobres pelo rico morto

O mundo é mais parecido com uma zona de guerra do que eu gostaria de admitir

E se não o amor

E se não a bomba

O nada

E no nada prosperamos, conquistamos o nada

E no nada chafurdamos

E o mundo é mais parecido com uma zona de guerra do que eu gostaria de admitir

E todas as mãos que seguram

E todas as mãos que deixam ir

E tudo

E tudo perderemos

E tudo lamentamos

Pois o mundo é mais parecido com uma zona de guerra do que eu gostaria de admitir

E matam por deus, sempre por deus

Pois pensam que deus

Os deu o universo para brincar

E como crianças assustadas pedem perdão pelos atos terríveis

E como crianças indisciplinadas se sentem orgulhosos de outros atos terríveis

O mundo é mais parecido com uma zona de guerra do que eu gostaria de admitir

E pulam dos tetos dos novos campos de concentração os trabalhadores chineses

E professam o ódio os fascistas recém formados com seus dedos gordurosos

Saíram das escolas que os ensinaram a merecer esse mundo

Mas não os ensinaram a parte mais importante

Que esse mundo é mais parecido com uma zona de guerra do que eu gostaria de admitir

Mas admito mesmo que me doa

E o pavor carbonizado nas ruas de Hiroshima não será esquecido

E a ameaça atômica profetizada pelo pais que criou a ameaça atômica não será esquecida

E a inocência substituída por ódio pelo suposto inimigo

É sempre a mesma inocência, sempre o mesmo ódio, um inimigo diferente

E o mundo ainda mais parecido com uma zona de guerra do que eu gostaria de admitir

E das cinzas renascem cidades que eventualmente virarão cinzas mais uma vez

E do sangue dos poetas não nascerão mais flores

Por conta do solo contaminado

E atiram-se nos rios os músicos, atiram no próprio peito

E cambaleiam por campos de trigo os pintores com o coração em mãos

Esse mundo é mais parecido com uma zona de guerra do que eu gostaria de admitir

E há todos os minutos ouvem-se os gritos da mãe e do filho

E nos perguntamos quanto tempo temos até que todo o ódio, sangue e vergonha nos sufoque

E única filosofia, a última filosofia

Está no fim de uma corda, de uma faca, de uma arma, de um prédio alto

E ainda gritam eles, ainda gritam eles, mas as bombas tentam nos ensurdecer ao seu sofrer

Pois esse mundo é mais parecido com uma zona de guerra do que eu gostaria de admitir

Estão apagadas as luzes e nos escondemos no porão

Sem saber o que encontraremos quando submergirmos

E o desejo governa os exércitos, marcham, marcham

Tão próximos da extinção que a tememos

Mas longe o suficiente para que tenhamos tempo de derramar mais sangue

E num mundo mais parecido com uma zona de guerra do que eu gostaria de admitir

Sangram todos, odeiam todos, todos sentem a vergonha

O sagrado dólar nos mantem de pé

O sagrado dólar nos faz cair

Nos embriagamos de esquecimento

E vomitam-nos a mentira de que tudo ficará bem