Politicamente correto é liberdade criativa

Um dos jogadores do projeto no qual trabalho pergunta:

Quando teremos uma boa representatividade das mulheres nos personagens principais do jogo?

Algumas semanas depois, a mesma pergunta acontece, mas em relação aos negros. Perguntas importantes, pois representatividade em mídias de entretenimento são ligeiramente benéficas para a sociedade — gosto sempre de trazer o caso da personagem Tenente Uhura de Star Trek, que não só influenciou a atriz Whoopi Goldberg a iniciar carreira, como também Mae Jemison a se tornar a primeira astronauta mulher e negra a viajar no espaço, além de trazer a percepção para outras pessoas que uma mulher negra é uma pessoa completamente normal e pode ser livre de estereótipos.

Mas voltando — as perguntas foram feitas nos nossos fóruns, e a discussão que se desenrola com os outros jogadores, apesar de civilizada, é previsível: enquanto alguns apoiam a diversidade, outros defendem o estado atual do jogo e que há outras prioridades — e o argumento, que criou a faísca para a concepção deste texto, comum nas duas discussões e a favor do status quo, foi:

“Meu medo é ver um conceito de personagem limitado ou enviesado porque ele tinha que atender à cota do politicamente correto.”

Nosso jogo possui seis facções bem distintas, onde cada uma carrega um tema visual distinto (Europa medieval, Japão feudal, Egito antigo etc.) e um bom número de guerreiros, todos também distintos entre si. Cada uma delas também possui um general, líder dos grupos. Dos seis, cinco são humanos, deles três são homens (com bastante variedade), duas são mulheres (ambas possuem corpo atlético e vestimentas ligeiramente provocantes)… e nenhum é negro. E embora os personagens que compõem cada facção possuam bastante variedade em cores de pele, de cabelo, tamanho e forma do corpo, e até nuances de sexualidade — coisas que surgiram justamente pela percepção da falta de diversidade em certo ponto da produção — o que de fato aparece como rosto de cada facção, tanto no jogo quanto fora dele, são os generais. Ou seja, eles são os protagonistas do jogo, os representantes dos jogadores… Mas é possível que eles possam representar todos, sem prejudicar a criatividade dos designers?

As pessoas que acreditam que o politicamente correto prende os desenvolvedores geralmente pensam que isso acontece em detrimento da liberdade criativa — um conceito bem defasado, principalmente nesse viés, na minha opinião. O momento em que alguém decide criar algo, automaticamente entram as limitações que quebram o conceito de liberdade: limitações técnicas (“eu ou minha ferramenta não consegue fazer isso, logo…”), limitações pessoais que parecem objetivas, mas acabam sendo subjetivas (“acho isto legal, e isto chato, e isto bonito, e isto feio, logo…”), limitações financeiras (“a ferramenta que preciso custa caro”) e muitas, mas muitas outras, mesmo. Você pode até conseguir fazer o que bem entender dadas as limitações, mas isso é diferente de ter total liberdade criativa.

Mas isso tudo não é ruim, na verdade é ótimo para a criação em si! Desde que nos entendemos por gente, qualquer expressão artística sofre limitações, deliberadamente ou não, e os resultados são impressionantes quando conseguimos driblar ou usá-las a nosso favor. Como fazer um retrato realista usando apenas tinta? Escrever sobre o futuro que desconhecemos? Explicar desenhando numa pedra de um jeito que os outros entendam como se caça um mamute?

Minha especialidade como artista é o pixel art, técnica que utiliza os pixels em menor escala e de forma cuidadosa para criar um desenho, e, que eu saiba, uma das que mais possuem limitações técnicas, que quanto mais levadas a sério, melhor a sua prática, e daí melhores os resultados. É como treinar uma arte marcial com pesos nos membros: uma vez que você os tira, sua habilidade inata é mais eficiente. Num plano mais conceitual, Neil Gaiman (autor de Sandman, Deuses Americanos, Coraline) disse que a melhor coisa que poderia ter acontecido em sua carreira foi virar crítico de livros, onde precisava ler de tudo, principalmente o que não gostava, o que no final acabou acrescentando no seu repertório, expandindo seus horizontes e melhorando sua própria escrita — hoje mais rica e versátil.

O que nos leva à questão crucial: se atender ao politicamente correto, criando personagens de perfis variados, é uma limitação como muitas outras, que expande mais do que contrai nosso músculo criativo, e que em troca traz mais variedade no resultado e representatividade ao nosso público, por que não o fazer?

Felizmente, no nosso jogo e em muitos outros, ainda há espaço para mudar. Meu medo é ver um conceito de personagem limitado ou insípido porque ele era uma escolha segura e sem quaisquer limitações ou desafios na sua criação. Um personagem esquecível e importante para ninguém.