A Síndrome do “nossa é sensacional, ih…não é”

Não sei se isso acontece com você, mas acontece comigo várias vezes por dia.

Noooossa, acho que isso é sensacional! Ih… não é.

Noooossa, acho que isso é sensacional! Ih… não é.

Noooossa, acho que isso é sensacional! Ih… não é.

Por que será?

Projetos, videocases, startups, eventos, entrevistas, livros, posts. É sempre a mesma coisa: logo que vejo pela primeira vez e começo a ler um pouquinho sobre a coisa, “nooossa, acho que isso é sensacional!”. Aí, alguns minutos depois, “Ih… não é”.

“Pô, o problema é você. Você se anima muito fácil”, diria quiçá, um comentário logo abaixo.

É verdade, animo mesmo. Mas quem gosta de boas ideias sabe como isso funciona. A gente QUER se empolgar o tempo todo porque devem mesmo existir um montão de coisas sensacionais espalhadas pelo mundo. A gente QUER achar essas coisas. É a esperança do pescador. E a internet é o grande radar, aumentaram muito as nossas chances. Cada fisgada é um motivo para acreditar que o peixe é dos grandes.

“Então o problema é que você é muito exigente. Muito crítico” diria outro comentário.

Hmmm, acho que não. Sempre tive esse defeito do “I want to believe”. Não acredito em disco voadores, mas quero muito acreditar. Geralmente começo do neutro e tento ir para cima no gráfico, ir subindo a montanha até que alguma avalanche me carregue para baixo.

E é justamente isso que tem acontecido, várias vezes durante o meu dia: AVALANCHE.

Vamos então considerar (já que a coisa acontece com uma certa frequência), a possibilidade que o problema não seja pessoal. Vamos imaginar que isso possa estar acontecendo também com você e mais um monte de pessoas. Todos nós, como alvos de promessas das coisas mais geniais de todos os tempos dos últimos 5 minutos.

Por que está acontecendo isso?

Bom, eu tenho um palpite. Acho que estamos no maior cardume de vendedores que já cruzou esses mares. Da foto no Instagram ao novo projeto pessoal, absolutamente tudo precisa ser aceito e, de preferência, apreciado em alto e bom like.

Antigamente tinha uma frase que dizia que “tudo tem seu preço”. Hoje em dia a frase seria “tudo tem seu apreço”.

Desenvolvemos essa gigantesca carência coletiva, coisas do bicho-homem, nem vou entrar nessa discussão porque isso é papo para outra hora. Mas é fato. Tudo precisa ser INCRÍVEL, senão não tá fora da brincadeira. E com todo mundo preocupado em impressionar ao mesmo tempo, e como não somos bobos nem nada, já percebemos que é muito mais fácil DESCREVER E APRESENTAR coisas — do que FAZER as coisas propriamente ditas. Mais fácil parecer, do que ser. Mais fácil soar, do que suar.

Isso me lembra uma coisa que sempre acontecia quando tinha apresentação para cliente. Muitas vezes as pessoas que faziam a apresentação eram melhores que a campanha. E frequentemente a campanha que ia pro ar era muito pior do que aquela na sala de reunião. Acontece todos os dias, cada vez mais eu diria. Tragicômico perceber como as agências podem ser mais eficientes para vender campanhas para clientes do que para consumidores.

Ou, quando alguma dupla me mostrava uma ideia e começava a explicar muito. A pergunta era sempre a mesma: “você vai anexado com um clip no anúncio para poder explicar tudo isso?”

Enfim, o ponto é:

É muito mais fácil DEIXAR uma ideia sensacional do que TER uma ideia sensacional.

Na versão coringa:

É muito mais fácil DEIXAR uma (viagem, pessoa, startup, ou o que você quiser) sensacional do que TER uma (viagem, pessoa, startup, ou o que você quiser) sensacional.

E daí, nosso fuém, fuém, fuém diário.

Devaneios finais: não esqueço a frase que veio lá de uma palestra no SXSW deste ano que dizia “pare de querer ser incrível e comece a querer ser útil”. Ninguém aguenta mais tanta coisa revolucionária. Não é porque você se auto-entitula (ou auto-representa) alguma coisa que você realmente fez essa coisa. A padaria aqui do bairro tem escrito no saquinho de pão “a melhor padaria do mundo”, mas dificilmente eu a qualificaria como a melhor experiência panificadora que um ser humano pode viver. Eu sei que muita gente cai no truque. Dá pra arrumar namorada, cliente, dinheiro só fazendo isso, eu sei. Mas a avalanche da frustração ali do gráfico vem com a mesma rapidez. E só vai restar buscar por novos patos.

É a maldição do avatar: invariavelmente uma frustração na vida real. E quanto maior a promessa, maior o tombo.

O que a gente deve pensar em fazer e acreditar? Um gráfico com um pico não tão íngreme. Mais baixinho e mais gordinho. Menos montanha bicuda européia e mais montanha-calombinho brasileira mesmo. Menos discurso sensacionalista-narcisista e mais entrega. E sabe por que vale a pena tentar? Porque quando as pessoas concluem aquilo que você gostaria de se auto-intitular, você está no caminho certo. Do dinheiro, projeto, namorada, startup… de longo prazo. E longa satisfação.


Originally published at Www.uPdateordie.com on May 13, 2015.

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