Nós não conseguimos parar os estupros se estimamos a reputação dos homens em detrimento da segurança das mulheres


Título original: We can’t stop rape if we prize men’s reputations over women’s safety

Escrito por Jessica Valenti e traduzido por Lívia Oliveira.


As normas sobre assédio sexual feitas na década de 90 com um sentido horrível de necessidade social não nos fez odiar homens — e eles não pararam o assédio sexual
Emma Sulkowicz, estudante de artes visuais na Universidade de Columbia, carrega um colchão, com a ajuda de dois estranhos que se conheceram momentos antes da foto ser tirada, em protesto pela falta de ação da universidade depois que ela relatou ser estuprada durante seu segundo ano. Foto: Andrew Burton/Getty Images

À medida que a discussão nacional acerca do estupro nos estabelecimentos de ensino cresce — da força-tarefa da Casa Branca às capas de revista — há palavras que ouvimos repetidas vezes: histeria, pânico, injustamente acusado. A concepção defendida por especialistas e anti-feministas é que as novas ações para acabar com as agressões sexuais são uma reação exagerada, que, na melhor das hipóteses, levará à confusão entre os sexos e, na pior das hipóteses, arruinará a vida dos homens.

Na década de 90, quando o assédio sexual foi semelhantemente posto no centro das atenções, ouvimos essas mesmas palavras e preocupações. Eles estão errando agora como erraram antes.

Fazem 24 anos que o vice-presidente Biden, então presidente do Comitê Judiciário do Senado, presidiu um dos momentos mais vergonhosos de nossa nação: as audiências de acusação do juiz Clarence Thomas. A professora de direito Anita Hill discursou para legisladores do sexo masculino, onde suas terríveis acusações de assédio sexual foram recusadas, visto que Biden garantiu a Thomas que ele tinha o “benefício da dúvida”.

Ainda assim, houve advertências generalizadas de que as políticas de assédio sexual no local de trabalho resultariam em um mundo onde os homens não poderiam dizer que ela era bonita, sem medo de perder seu emprego. Em 1992, Erica Jong escreveu no The Washington Post que homens, “aterrorizados com a rejeição por mulheres que eles gostam”, terão “agora terão de enfrentar o tribunal marcial pelos comandos do assédio sexual”.

“Será surpreendente se alguma ereção sobreviver a esse estudo minucioso”, escreveu ela.

A distopia de “odiar homens” nunca veio à tona. Não só as ereções vivem de forma ilesa, mas como o assédio sexual continuou a florescer. Hoje, não vemos dezenas de homens demitidos ou proibidos judicialmente por causa dos elogios inocentes ou piadas sujas; em vez disso os perpetuadores [da cultura do estupro] rotineiramente ficam impunes, suas vítimas ignoradas e menosprezadas.

O renomado astrônomo Geoffrey Marcy, por exemplo, foi considerado culpado neste verão de assédio em uma série de mulheres ao longo de quase uma década e ainda não foi demitido ou suspenso da sua posição proeminente na UC Berkeley. Em vez disso, a escola emitiu um “aviso” contra ele e Marcy ofereceu uma fria desculpa. Foi somente depois que a indignação [do corpo docente e estudantil] da faculdade e a explosiva cobertura da mídia que finalmente, nesta semana, Marcy renunciou.

É difícil ver a saída de Marcy como uma vitória, todavia, considerando que ele desfrutou de um imenso poder e prestígio em seu campus por anos apesar de seu comportamento ter sido um longo segredo aberto. Um professor de Harvard que era estudante de pós-graduação de Marcy disse ao BuzzFeed, “qualquer pessoa de minha geração do campus sabe o que Geoff [apelido de Goeffrey Marcy] fez”. E um dos que reclamaram disse que seu assédio era tão conhecido que “as mulheres desencorajavam outras mulheres a trabalhar com ele”.

Depois de décadas de trabalho em assédio sexual, e as mulheres fazem o que melhor podem fazer para se protegerem, ao que parece, é se colocar longe dos homens predatórios. O blogger Cliff Pervocracy chamou esta estratégia de “missing stair” [“escada perdida”]: muitas vezes há um predador em uma comunidade e em vez de se livrar dele, as mulheres dizem umas as outras para vivarem a cabeça para cima — não caia, cuidado com a escada que falta!

É mais fácil evitar um assediador do que fazer uma denúncia contra ele — especialmente quando ele é poderoso — porque as mulheres sabem que muitas vezes são desvalidadas ou ignoradas. De fato, embora o número de queixas recebidas pela Comissão para o Emprego com Igualdade de Oportunidades tenha diminuído significativamente desde a década de 90, a porcentagem de casos considerados “sem causa razoável” simplesmente aumentou.

Então na próxima vez que você ser a um artigo enfurecido sobre as guerreiras jovens lutando contra a cultura de estupro são “histéricas”, ou os campus são policiados corretamente à noite, lembre-se da década de 90 e o fim do mundo que nunca veio. Porque enquanto o medo de um futuro feminista corre desenfreado, aqueles que verdadeiramente merecem nossa ira permanecerão livres.