A Síndrome do Coitado e para quem (ou quando) ela serve.

Em um planeta romantizado pelo entrave entre o bem e o mal, o certo e o errado, o belo e o disforme, e a urgente conveniência de soluções individuais para problemas coletivos, faz-se também necessária a existência da vítima e do culpado. Já que nossa civilização não aprendeu a praticar o para além do bem e do mal, é arbitrária a subsistência desta lógica nefasta, isto é, aquele que procura enxergar no outro a vítima a ser perseguida, pode ser, direta ou indiretamente, o responsável pelo sofrimento alheio desta ou de outras. Estes, sob um prisma privilegiado, vestem capuzes, preparam suas guilhotinas e sentem-se no direito de sentenciar a auto estima alheia sob um franzino argumento, o de que em que apenas uma fagulha de força de vontade seria necessária para resolver penosas situaçãos da alma, que são obscuras até mesmo para a ciência humana. O que quero dizer, em singelas palavras, é que quando alguém diz “fulano está se fazendo de coitado” pode significar “Na verdade, só quando EU estou assim, ou quando estiver assim, é que isto será digno de piedade.”

Dessa forma, deixo minha contribuição como parte de uma ficção:

“[…]

Refletindo profundamente, compreendi que ele só precisava ser escutado para que pudesse escutar, mas, infelizmente, raros são os humanos que detém caridade suficiente para tal auxílio, já que no intuito de defender seus próprios interesses e de não ter sua paz abalada pelo problema alheio, preferem dizer que cada um é responsável pelo que faz. É assim que norteio a necessária existência da angústia, da insatisfação contínua e desenfreada, do vazio funcional, para que possamos consumir sem questionar, viver sem conturbar a ‘paz’ dos que são privilegiados. Dessa forma, depressão não se vende, mas se cria e se induz desreguladamente para que possamos nutrir, subreptciamente, o nosso íntimo necessitado por prazeres, aqueles mais pueris possíveis. Sendo assim, escravizado pelos nossos próprios desejos, só seremos supridos com a sensação das pequenas relações de poder.

Paralelamente, pude observar meu amigo que, ao perceber esta lógica acabou por surtar, decidindo abandonar tudo e a todos, num voto de auto piedade e culpa — a culpa necessária para obter-se o controle, como nossas seculares religiões cristã-ocidentais já realizam há séculos. Pude assistir sua queda. Opaco e desolado por sua própria consciência, ele se foi. É uma pena ele não estar mais aqui para lhes contar como foi o nosso encontro, já que, uma vez aqui, será escravizado por sua própria consciência. […]”

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