Existências


Sabíamos que um dia acabaria. Mas, ocasionalmente, o ciclo remonta assim, de supetão, rompendo momentos gradativamente esquecidos, me unindo novamente a tudo.

Depois de uma longa data, em imediato hoje ocorreu. Pude sentir novamente seus votos de outrora, longínquos, mas ainda me arrepio. Revivi o aconchego, os planos — agora à esquerda — os ensaios, os baques, as mentiras, o perfume, as promessas fáceis, as tentações… Nada obstante, sinto que tudo ainda habita em você, pois posso notar, mesmo de cá.

Às vezes, questiono-me: Quantos ensejos essas voltas já não tiveram? 
Até hoje, não consigo medir os pavores que sentiu ao desassossego de cada nova investida que se sucedeu. Procuro o aconchego das palavras na vida futura ou na minha ainda abalável fé no porvir, na tentativa de atenuar a culpabilidade das minhas infrações e a destruir a criatura abominável que criei em você.

Na metamorfose vi meu abandono, sua revolta, seguida pela sua repulsão e concluída pelo seu esquecimento. Mesmo à margem da loucura, quando sinto calafrios, em desatino desconfio que é você, sua comunicação, sua energia, lúcida e em transformação.

Esgotou, eu sei. Mas na linha perpétua e indefinida em que nos equilibramos, quantas vezes mais será necessário cair? E logo, quantas oportunidades de absolvição eclodirão? Não sabemos, e você sabe que é um equívoco tornar a dúvida uma absoluta verdade.

As noites duram pouco e os contatos diminuiram. Ainda assim, é trágico dizer que mesmo depois de tantas cidades, luzes, experiências, estrangeirismos e devaneios, ainda posso te sentir. Como aquela velha sensação que comentávamos, a de que somos desconectados do acaso.

Quem sabe num futuro, em talvez três séculos, se multiplicássemos cada ano nosso por cem, sejamos capazes de dar um novo começo ao que falhamos.