O mito da transigência

Da dificuldade de entender o outro

O poder do caminho de um cidadão de bem do século XXI confrontando-se com o “outro”

O mito respira, o mito vive

E, por força de controle, não deseja morrer.

Até hoje, desde o Coliseu Romano, o Martelo das Bruxas e o Holocausto há um legado de marcas registradas da intolerância, assinalando com sangue o extenso tratado relativo à ignorância do ser humano. Em nosso tempo, todavia, a sociedade parece não permitir as mesmas atrocidades do passado, ou ao menos às evita a qualquer custo. Ainda assim, mesmo com algumas lições aprendidas, como por exemplo, a aterradora e lastimável Solução Final ou a Santa Inquisição, a intolerância ainda consegue encontrar uma forma de sobressair e, independentemente do contexto que estiver inserida, descobrir meios para furtar situações no intuito de encontrar saídas, parte delas muito sub-reptícias e impessoais, isto é, para um mundo fragmentado e individualizado, saídas que podem passar desapercebidas.

Ela agora age sem a presença de um Grande Irmão ou uma “botinada na cara”, estando mais vinculada ao que tange o indivíduo. Para exemplificar, certo dia vi nas redes sociais uma propaganda que me deixou assustado: Uma chacota que alertava aos suicidas para que os mesmos evitassem de se jogar do ponto mais elevado das vias movimentadas nos horários de pico, deixando de ser um obstáculo ao fluxo de automóveis e dando passagem à pressa do nosso ser civilizado e tolerante que é o homem de bem, trabalhador e que não se faz de vítima — frutos de muito esforço pessoal e de muita meritocracia. Se analisarmos de perto, é claro que temos várias metanarrativas contidas nessa piada — ainda que com os seus epitáfios — como o projeto do homem moderno, etc. Mas o que mais me preocupou foi a constatação de que a intransigência é como uma andorinha, “que por si só não faz verão”, precisa estar inserida em uma nuvem de outras andorinhas para que seja eficaz. A piada só surtiu o efeito desejado quando outros comentaram, uma torrente de intolerância. Ficou evidente, o monstro pode habitar cada um, mas precisa de uma circunstância para que mostre quem ele é. É muito provável que se as mesmas pessoas tivessem que responder a um programa de televisão sobre a questão do suicídio, mais da metade falaria o oposto da situação exemplificada nas redes sociais.

Jan Huss sendo queimado vivo.

A Solução Final no seu dia a dia

E sua silenciosa execução

Não adianta, estamos todos enchendo os fornos da intolerância com carvão humano. Seja vivendo uma vida efadonha que necessita de prazer a qualquer custo — o que acaba nos cansando — seja experimentando o vazio que segue entre uma next big thing e outra; Isso sem contar no preço que pagamos por aceitar uma vida a crédito: adiantando o problema em parcelas cada vez mais inflacionadas. Somos ávidos em alimentar uma simples fábula, achamos que podemos viver com pouco e com simplicidade em meio a uma sociedade extremamente estratificada nos bens de consumo, na competição e na fragilidade das relações humanas — essas que, por sua vez, não andam duradouras. Ficamos aterrorizados quando, por um descuido, expomos a fragilidade dessa invenção do contemporâneo que nos habita, quando transparecemos falando o que bem pensamos e os dedos apontam para nós — é o medo de ir para o forno construído pelo outro. Isolados, confinamo-nos, vivemos como estrangeiros de nós mesmos. O pior? Fazemos o mesmo com o outro, no intuito de testar se sua fábula é tão eloqüente quanto a nossa: quem vive mais, quem erra menos? Nessa construção de contos e lendas sobre a sobrevivência contemporânea você também se depara com o que de fato acredita ser o ideal — ou a sua própria e individual metanarrativa. O agravante é que isto pode ser também o motivo para encher a sua própria coleção de fornos ou caldeiras: neoliberalismo, a meritocracia, feminismo, machismo, o combate a homofobia, neo-nazismo, este texto, entre outras várias construções de metanarrativas que se levadas ao extremo podem construir um complexo repleto de máquinas para uma silenciosa execução da Solução Final, ou melhor, a sua solução: silenciar o outro, eliminar o que não te convém ou que você, eu e outros não achamos que deve existir.

Entrincheirando-se

O que é do outro, é meu também

Mas só quando atinge o que me interessa

Enquanto um problema não é nosso, sabemos que no íntimo há pouca ou nenhuma afinidade. Todavia, não podemos esquecer quaisquer respaldo de sordidez à vista, tampouco que isto torne duvidosa nossa postura quanto ao ser civilizado que somos, já que dispomos de um dever um para com o outro. Sendo assim, é comum olharmos para uma pessoa que está faminta e dizer: “eu entendo a sua fome” ainda que nunca tenhamos sentido o desespero de tal padecimento. Nietzsche certa vez relembrou-nos sobre esse tipo de compaixão, considerava um gesto medievo, um voto cristão para ser salvo, onde o objeto em questão não era ajudar o próximo, mas sim remover a pena e o medo de Deus puní-lo. Assim mesmo, este gesto ainda persiste, é a óstia que decidimos comer no contemporâneo, hoje em forma de consumo. No entanto, quando a situação é comum a você, algo que tenha passado, existe um toque passional. E é assim que as causas contemporâneas unem-se, através do fenômeno de rebanho, a partir do momento em que esse problema atinge as intempéries de outras criaturas em comum, isto é, deixa de ser isolado de seu âmbito. Porém, parte deles são fenômenos de intolerância dentro dos órgãos de tolerância, principalmente ao depararmos com um risco eminente de todos esses tornarem-se ativistas ávidos por justiça de uma causa nobre, mas a qualquer custo. Parece frívolo, mas tem afastado muitos dos embates nas ruas, por se sentirem deslocados. É o risco do senso de comunidade ser destruído . Uns — inclusive, que possuem até mesmo o senso de matilha, com certo teor de ferocidade — em certas ocasiões, têm os nervos tão à flor da pele que, além da busca do responsável que causa o sofrimento, executam um interrogatório feroz e uma punição impetuosa — ou a legitimação sem escrúpulos desta. Aqui há a falta do espaço para o perdão, da regeneração e do acolhimento. Há também um outro fenômeno, a monocausa. Aparenta-se muito com o que escrevi até então no que refere-se à origem de manada, porém, como o próprio termo intui, legitima apenas uma única causa, descartando a importância das outras. Geralmente, as causas que combatem a intolerância e o preconceito andam de mãos dadas, prefiro não citar, uma vez que não teria espaço para listar. Inclusive, existe uma cartilha imaginária sobre “quais podem e quais não”, dificultando a adição de causas contemporâneas — algo que dá pano pra manga. De qualquer forma, o mais evidente deste cenário pós-moderno e que ainda sustenta metanarrativas é que a construção de pequenas relações de poder impulsiona a repetição de erros já cometidos. É como ver um VT de uma partida de futebol seu time no qual ele já perdeu e você, de frente para a televisão gritando: — Não, por aí não! Vai perder o gol!. Entretanto, que isto não seja um “manifesto” com a finalidade de parar a luta de ninguém, mas sim adicionar os que estão deixados à esquerda. É permitir que um desajustado à causa de vocês possa dialogar sem sofrer um golpe do efeito de rebanho, ou da ofensa gratuita. É aprender e trocar, sem bem ou mal, certo ou errado. Vocês? É acolher os inacolhíveis, os que estão desconstruindo os Muros de Berlim que habitam em cada um de vocês.


Exércitos formados por um só

A Solução Final para a presença do outro

Por fim, em novas palavras, com essa linha de raciocínio bem simples, encontra-se o mito que, na fantasia do homem contemporâneo em não se achar capaz de cometer atrocidades tais como as feitas no passado, torna sua transigência sacra, blindada de questionamentos, uma vez que evoluída — ou revisada. O sujeito limpo, moderno, civilizado, um novo messias que aprendeu com o passado a suportar e agora tenta andar junto das mazelas. Mas eu vos pergunto: Será?! A resposta exata, desconheço. Todavia, não é difícil imaginar um campo de extermínio como o de Treblinka ou um de concentração como Auschwitz convivendo na cabeça de cada um como Solução Final para a presença do outro — mesmo a específica — que o incomoda. Devemos nos atentar porque, diferente das outras, dessa vez não teremos uma ou mais metanarrativas ou um Estado totalitário (ou até mesmo um Estado) como pano de fundo, mas sim exércitos formados por um só.