Se eu não vivi, não existe!

Ensaio sobre a percepção das pessoas em avaliar contextos sociais trazendo como argumento apenas a sua vivência. “Eu passei por isso e não sou assim…”;

Antes de começar preciso admitir que o que estou fazendo aqui é exatamente o que eu quero refletir, ou seja, estou analisando um determinado contexto e/ou comportamento a partir da minha ótica, portanto, limitando a análise ao meu horizonte pessoal.

A meu favor tenho esta própria confissão inicial e a busca por material que extrapole meu atual alcance para tentar abranger o máximo possível de referências externas a mim.

Tenho conversado com alguns amigos sobre política, que é o tema mais quente dos últimos 5 anos no Brasil, para tentar aprender um pouco mais sobre os diferentes olhares que este tema nos traz.

Existem algumas falas muito recorrentes nestas conversas, principalmente quando vamos tratar de assuntos sociais e econômicos, tais como:

“eu passei por isso e estou aqui, e muito bem inclusive!”
"eu vim de origem humilde e me formei na faculdade;"
"eu vim da favela e hoje tenho um emprego digno;"
“eu morei na rua e hoje sou uma pessoa digna e respeitável.”
"meu avô sempre teve arma em casa e nem por isso tivemos acidentes com a arma dele;"
"eu sou negro e nunca sofri preconceito, isso não existe mais;"
"eu sempre consumi games violentos e nem por isso virei um louco homicida;"

Claro que estou tratando de exemplos que passam por temas sensíveis e com discussões que ainda precisam de rios de tinta e algumas décadas para que cheguemos próximos de algo parecido com um consenso.

Eu tenho minhas opiniões a respeito de cada assunto, mas o propósito deste texto é focar na forma com que nossas opiniões sobre temas tão amplos e complexos são montadas. Em como essas opiniões não deveriam passar por achismos ou pela experiência individual apenas, por mais rica e complexa que esta experiência seja.

Eis o porquê, e vamos nos concentrar “apenas” no nosso país: vivemos em um país de 208 milhões de pessoas e de dimensões continentais. São 26 estados e um Distrito Federal e 5570 municípios (Fonte: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/panorama), processo colonizatório complexo e com consequências sociais ainda muito sensíveis em plenos 2018.

Partindo destes dados eu pergunto: você realmente acha que o que serviu para você, as suas experiências, a sua capacidade de decidir pelas opções A ou B e de superar alguns grandes obstáculos da sua vida, podem servir de modelo pra todo esse povo?

Se você respondeu mentalmente: “sim. Porque se eu consegui, todos conseguem.” Podemos terminar a conversa por aqui. Mas, se você, assim como eu, está buscando sempre refletir sobre si mesmo e revisar suas convicções, podemos continuar.

Mas alguém ainda pode responder: "ah mas você está sugerindo que temos que saber de tudo pra poder falar a respeito das coisas?"… Sim, e não. Explico.

De fato, seria bastante complicado se só pudéssemos emitir opiniões se tivéssemos o aval acadêmico, ou diplomas (que já não são suficientes para tal fim). Afinal, como um indivíduo social, a nossa capacidade de opinar é um dos aspectos que nos permitem nos identificarmos como seres-humanos.

Mas meu ponto é, voltando aos dados do tamanho do brasil, não seria prudente tomar cuidado nessas análises? Ao menos conversar e ouvir outras pessoas de outros núcleos sociais? Ouvir as pessoas que divergem dessa opinião e, porque não, acessar dados estatísticos a respeito deste assunto. A internet nos dá acesso a um mundo de informações e textos das mais diversas óticas e qualidades à distância de apenas alguns poucos cliques.

Como não estamos tratando de subjetividades tais como: “qual meu prato predileto” - ou - “se coloco o feijão por cima, do lado ou embaixo do arroz” é saudável trazermos estes temas para o nível que eles precisam e merecem, com um mínimo de embasamento que extrapolem o nosso próprio umbigo.

Estamos passando por um momento político no Brasil bastante sensível e conturbado, com sintomas claros similares aos que permitiram o florescimento de regimes fascistas e nazistas ao redor do mundo, porém, com um gigantesco amplificador sem precedentes na história: a internet.

Não estou falando apenas do candidato A ou B, mas sim de uma sociedade plural que sempre teve como característica aclamada pelo resto do mundo a capacidade de abrigar credos, sexualidades, cores de pele, manifestações culturais das mais diversas, com relativo equilíbrio, difícil de encontrar em outros países no planeta. Mas que está vendo tudo isso ruir em nome de estímulos que, perdão a franqueza, somente o profundo desconhecimento de história pode permitir.

Mas, ainda assim, sou um otimista. Tendo a comparar o Brasil apenas com países colonizados sob os mesmos critérios exploratórios, que viveram no mínimo 400 anos de escravidão, com dimensões continentais, e que só tenham experimentado no máximo 26 anos de democracia. Qualquer comparação com um país fora desses critérios, incorreremos novamente no mesmo ponto que defendo neste texto. E nestas comparações, acredito estarmos dentro de parâmetros de amadurecimento como sociedade dentro da normalidade e por isso tenho muito esperança.

Leitor: “_ Legal, entendi! Mas seria simplesmente pesquisar e ler que assim poderei melhorar a minha forma de pensar?”

Eu: “_ Mas é claro que não, meu pequeno gafanhoto! Minha sugestão é investir também algum esforço para desenvolver uma habilidade das mais importantes do nosso passado, presente e futuro: empatia.

Leitor: “_ Mas o que é isso e pra que serve?”

Segundo o dicionário Michaelis, empatia é:

1 PSICOL Habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa.
2 PSICOL Compreensão dos sentimentos, desejos, ideias e ações de outrem.
3 Qualquer ato de envolvimento emocional em relação a uma pessoa, a um grupo e a uma cultura.
4 Capacidade de interpretar padrões não verbais de comunicação.
5 Sentimento que objetos externos provocam em uma pessoa.

Não vou aprofundar tanto o tema de empatia, pois acredito que poderemos ter outro artigo falando apenas deste assunto, mas vamos pinçar ali do dicionário os itens 1 e 2:

“Habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa.”
“Compreensão dos sentimentos, desejos, ideias e ações de outrem.”

Ao se relacionar e/ou observar melhor a sociedade em que vivemos, caso estejamos dispostos a desenvolver essa virtude, colocando-nos no lugar dos outros, a tendência é que consigamos revisar muitas das nossas certezas.

É um fato que pesquisar sobre um tema, ler, conversar, é, no mínimo, trabalhoso. Nessas horas a preguiça vence muitas batalhas internas. Então, se você não estiver trabalhando em desenvolver empatia a respeito do contexto social em que você vive, provavelmente, você poderá desistir de realizar este esforço e voltará ao título deste texto: “Se eu não vivi, não existe!”

Entendemos a empatia como uma virtude que pode ser desenvolvida e que, portanto, pode se tornar um hábito tornando o trabalho de se informar melhor sobre um tema social um ato prazeroso e não mais um esforço “vão” ou “chato”.

“Nós somos o que repetidamente fazemos. Portanto, a excelência não é um feito, mas um hábito” — Aristóteles

Confie em mim. Você e todos a sua volta tendem a ganhar muito com isso pois poderão olhar para o objeto da análise com um embasamento respeitável. É um dos esforços mais válidos que você fará nesta busca a qual, da turma de aprendizes, fazemos parte junto contigo. Minha proposta é revertermos esse título para: “se eu não vivi, preciso estudar a respeito ouvindo quem viveu. Aí sim, podemos ter uma boa conversa a respeito.”

Vamos propor um desafio*: uma vez por semana escutarmos alguém, ajudar mos alguém que não conhecemos, doarmos um dinheiro para quem nós nunca vimos na vida. Apenas uma vez por semana. Este esforço, antes ainda de se tornar um hábito, vai te ajudar a “despertar” para a realidade bem mais ampla que o seu círculo de experiências. Te ajudará a se sentir realmente útil e a viver com a consciência tranquila, pois estará interagindo com o próximo.

Um grande abraço e, se você chegou até aqui, agradeço a leitura e a paciência.

*Contribuição do desafio do amigo Fabio Nocera;


As dicas de conteúdo para este artigo são:

Documentário “I AM” https://vimeo.com/167876002
Documentário “A Revolução do Altruísmo” (pago) https://www.youtube.com/watch?v=JsKH5qB7Bcc