Fala que eu (não) te escuto


Mais empatia, porra!

Se hoje o WhatsApp avisa quando a mensagem foi visualizada é porque prestar atenção em alguém virou um diferencial.

"Você tem um minuto?" virou um alerta mental pra "Corre que vai dar merda!". Eu ouvi uma vez numa palestra que doar não é dar o que a gente tem de sobra (mas se alguém quiser me doar dinheiro, fica a vontade). Doar é dar o que você tem pouco e o que a gente menos tem é tempo. O problema é que ninguém quer doar nem que seja um segundo pra tentar entender o que o outro tá falando. Viramos uma multidão medieval que já sai com tochas e armas na mão, pronta pra violência, o embate e o desafeto.

Somos o amigo do cara que aparece de pochete numa festa. Pais de um filho que acabou de perguntar sobre sexo. Sobrinhos daquela tia que quer saber dos "namoradinhos". Olhamos um para os outros como as conversas que não queremos ter. Ninguém mais quer mais ouvir o que os outros tem a dizer de graça. E não vem com o argumento de que seu terapeuta te ouve. Ele é pago pra isso.

Claro que cada caso é único, mas a gente chegou num ponto da sociedade em que as pessoas terceirizam a capacidade de pensar, e eu nem to falando da empresa que contrata uma agência de publicidade (continuem sempre assim). Nozes, os indivíduos dessa grande árvore chamada sociedade, ao contratarmos um psicólogo pra ajudar a entender a nossa própria vida, estamos privatizando a autorreflexão.

Mas a culpa tá longe de ser de cada um. Embora também não seja das estrelas. O ritmo cada vez mais acelerado da vida faz com que a gente faça mais e pense menos. Não por acaso, paramos de tirar nossas próprias conclusões e passamos a aceitar o que outras pessoas falam como verdade absoluta.

Susan Cain, autora do livro “O Poder dos Quietos” afirma que existem estudos psicológicos realizados ao longo dos últimos 40 anos indicando que, em algum nível neurológico muito profundo, uma pessoa acaba transformando a opinião dos outros na sua própria, no decorrer da exposição de ideias.

“As melhores ideias saem do indivíduo e depois são aprimoradas em grupo”.

Num mundo ideal isso não seria um problema, mas esse é o planeta Terra, onde a última grande ideia foram os dinossauros.

Ou você acha que uma sociedade capaz de produzir discursos de ódio dignos do moço-nazista-de-bigode é um bom exemplo de "mundo ideal"? Eu não preciso nem dar nomes pra você saber de quem eu to falando, mas um deles tem bolso até no nome e o outro não é lutador, mas adora um golpe.

"Somos bem burrinhos na hora de defender coletivamente o nosso. Mas individualmente o brasileiro é bem esperto quando se trata de defender o seu." — André Forastieri

É claro que eles são um problema. Mas cada um de nós também é. A gente acha que tá sempre certo. Acha que tem empatia. Acha que é melhor que o outro, só porque mais gente posta a mesma ideia no Facebook. A gente acha muita coisa, inclusive que tem certeza.

Mas o outro não é um salgado frito, como bem disse Odyr Bernardi. Ou você pensa que gritar “coxinha” da janela te faz melhor que alguém? Apesar de ser um salgado delicioso, coxinha é sim uma ofensa, mesmo que seu coração pseudo-liberal não te diga isso. Sem falar que as pessoas chegaram à conclusão que você pode sim generalizar a insatisfação. Nem todo mundo que tá insatisfeito com o governo é “coxinha”, assim como nem todo mundo que é contra o panelaço é pró-Dilma.

E já passou da hora de perder esses preconceitos. Tá feio, tá escroto.

Pelo menos na época de escola a gente era assim só por pirraça. Hoje em dia a gente faz por ignorância. Parece que todo mundo virou o valentão do colégio e o meu dinheiro pro lanche tá acabando.

E ninguém tá livre desse mal. Se você teve saco de ler até aqui, talvez eu pareça um esclarecido (ou um completo idiota). Se o primeiro cenário for o seu caso, deixa eu assumir aqui: eu tenho muita preguiça de pessoas. Que atire a primeira pedra quem nunca pensou algo do tipo "não dá pra conversar com essa gente".

ESSA GENTE. Essa gente é a nossa gente. Eu não sou o maior devoto que a Igreja possui, mas eu lembro bem dos meus tempos de catecismo. Existe um trecho daquele livro que eles adoram chamado "Bíblia" que diz "ame o próximo". Esse asterisco com letras miúdas que botaram de "…caso ele concorde comigo" veio depois e me soa muito errado.

É claro que eu to rindo com a imagem.

"Tá infeliz? Vai pra Miami."

Essa frase é quase tão ruim quanto o "tá com pena, leva pra casa". Sabe quem também tinha um discurso parecido com esse de ame ou deixe? Os militares. E embora muita gente talvez pense que sim, ninguém aqui tá afim de parecer militar quando o assunto é ideologia política. Seja pra Cuba ou pra Miami, ninguém deveria ser obrigado a deixar o país que nasceu e no fundo, bem lá no fundo mesmo, ama.

A gente não precisa de uma polarização da sociedade. Dois lados funcionam pra uma moeda e a gente vale mais que isso. É o computador que funciona com 0 ou 1, “sim” ou “não”. Vivemos numa sociedade de pessoas binárias. Ninguém se entende porque ninguém mais se escuta. Antes parasse por aí…

Mas fica pior. Quando alguém diz, no meio de um protesto, a frase "Esse é um protesto pacífico e respeitoso. Seu bosta!" é porque as pessoas pararam de prestar atenção ao que elas mesmas dizem. Então tá na hora de voltar para aquela mesma escola que ensinou a gente a ser pirracento pra aprender uma lição muito importante.

O que é empatia?

O pior surdo é aquele que não enxerga.

A frase parece confusa, mas tudo bem, nós também somos. Não enxerga o erro. Não enxerga a possibilidade de mudar. Não enxerga o outro. Se ninguém quer escutar, falar passa a ser tão inútil quanto vocalista de banda instrumental.

Não é hora de ninguém se separar. A gente precisa, cada vez mais, se unir. E se ouvir, nem que seja pra depois falar: acho que você tá errado. Você não é um vidente, caso contrário estaria na franquia X-Men. Não tente descobrir o que a pessoa quer dizer, escute.

Espero que eu não precise gritar, estamos entendidos?

Nota do autor: Ao final deste texto eu tinha 40 mensagens não visualizadas no WhatsApp.

Aquele coração ali embaixo é um abraço virtual.
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