amor sem correntes.

notei (acho que) por acaso que um pensamento tem sido recorrente toda vez que inicio ou estou prestes a iniciar relacionamento com alguém. num geral, a linha é mais ou menos “até que ponto eu consigo levar isso sem precisar sentar para explicar o quanto não gosto da monogamia?”.

verdade seja dita, costuma rolar uma má interpretação por parte de pessoas externas de que isso nada mais é do que falta de responsabilidade, maturidade ou decência. não que eu seja um exemplo de qualquer destas três coisas, mas relacionar minha preferência pela não monogamia com qualquer um desses três fatos é, no mínimo, equivocado. é dizer que eu optar por esse tipo de envolvimento implica diretamente na não existência dos três fatores.

nem de longe.


“não é amor se não for livre” é uma frase que tem aparecido não somente em meus pensamentos mas também em minhas conversas sobre relacionamento. o fato é que não consigo me sentir confortável quando inserido num relacionamento que tira a liberdade tanto minha quanto da outra pessoa envolvida. liberdade não só de ações diretas, mas de cogitações, pensamentos, conversas e sonhos. me privar disso tudo num universo de infinitas possibilidades me parece injusto — privar outra pessoa, então, nem se fala.

o difícil é fazer justamente a outra pessoa envolvida (ou as outras?) entenderem que isso não significa um gostar menos ou uma prova menor de afeto. e que por mais que possa soar desagradável a imagem de um possível envolvimento meu com alguém de fora, isso deveria ser relevado. porque não muda o que eu sinto por essa pessoa o fato de eu me envolver com outrém (mesmo que não afetuosamente), e essa é toda a chave da questão.

ciúmes é um sentimento de posse difícil de lidar, reconheço. acredito que a melhor forma de encará-lo é 1) aceitar o fato de que não somos donos ou donas de ninguém e 2) perceber que a posse não faz a pessoa gostar mais ou menos de nós. assim, talvez possamos compreender de forma um pouco mais fácil o quanto a liberdade não influencia diretamente no que você tem especificamente com alguém.


às vezes aquele pensamento inicial pode variar pra “será que essa pessoa também é não monogâmica?” (otimista e até mesmo esperançoso demais) ou pro infeliz “será que vou gostar dessa pessoa a ponto de cogitar monogamia?” (que eu rapidamente elimino: não quero cair na armadilha de acreditar que cresci para “além da liberdade” e enfim atingi uma maturidade). no fundo, minha preocupação acaba sendo a de não magoar a outra pessoa.

procuro, sim, a felicidade ao lado de alguém(s), porque uma possível solidão afetuosa não me soa nem parece agradável. a forma como essa felicidade se dará, no entanto, pouco importa pra mim. se com uma, duas, três, cinco ou oito pessoas, se de uma forma ou de outra, não faço exigências além do fato de que tanto eu quanto qualquer outrém devemos ser livres.

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