Cineclubes: muito mais que entretenimento

Por: Isaiana Santos

Para quem gosta de cinema, a retomada do cineclubismo em Mossoró fez surgir uma nova opção de debate e entretenimento no cotidiano da cidade. Na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) pelo menos três cineclubes estão em atividade, com exibições de filmes nacionais e estrangeiros, levantando discussões importantes, não apenas para a vida acadêmica, mas também para a formação cidadã. É através dos filmes que professores e alunos tem promovido debates e apresentado uma nova perspectiva para assuntos relevantes e pouco abordados.

Retomado neste ano, como projeto de extensão do Departamento de Comunicação Social (DECOM/UERN), o “CineClube Mossoró” é um dos que possui mais tempo em atividade no campus central da Uern. Comandado pelo professor Giovanni Rodrigues, e contando com a participação de alunos, o cineclube apresenta um novo filme a cada mês.

Mais novo, o “Cine Queer” surgiu de uma necessidade que o professor Sandro Soares, do Departamento de Educação (FE/UERN) sentiu durante o tempo em que ministrou a disciplina “Relações de Gêneros e Sexualidade na Educação”. Ele viu no audiovisual uma forma de ampliar o debate sobre os grupos e as pessoas que “rompem com o binarismo de gênero”. Sempre com temáticas que tenham a ver com gênero e sexualidade, os filmes são escolhidos a partir de “uma obra de arte de qualidade e que ao mesmo tempo aborde a temática de uma maneira contundente”.

Sandro Soares, idealizador do cine Queer.

Uma vez por mês o Cine Queer é feito para os alunos da disciplina. Mas Sandro decidiu abrir espaço para que outras pessoas pudessem participar das sessões, pois ele está percebendo uma demanda grande na universidade em abordar essas discussões.

“Tem sido uma forma de aglutinar interesses, pois outros departamentos estão trazendo à tona esse debate”, comentou o professor.

Questionado sobre o motivo que fez surgir o cineclube, Sandro explica que já existem, dentro da universidade, algumas pesquisas que abordam a questão de gênero e sexualidade e que vê essa temática como algo de grande importância para novos projetos de pesquisa. “Nós temos na Faculdade de Educação, por exemplo, duas alunas que são travestis, então nós não temos na faculdade uma preparação de espaço físico, estrutura e até mesmo de compreensão para a presença das pessoas travestis. Então eu acho que esse tema, é um tema muito ‘potente’ dentro da UERN e que o Cine Queer está abraçando. O Cine Queer quer ser tipo uma vitrine dessas discussões, esses debates”, explica.

A professora Daiany Dantas do Departamento de Comunicação Social esteve presente em uma das sessões para discutir o tema “Binarismo de Gênero e Identidades fluidas: a emergência das multidões queer”.

Sobre o assunto, Daiany diz que apesar de o “Cine Queer” ainda não ser um projeto de extensão, ela tenta apoiar o professor Sandro, pois eles discutem e têm temas de pesquisa em comum.

“A importância do projeto é associar o audiovisual, cinema, produção cinematográfica como uma referência para os debates de gênero, porque o cinema ele traz toda uma dimensão crítica do ficcional, do humor ou de uma estética mais plural que permite muitas vezes a visualização de certos conflitos. O cinema tem essa questão de informar, tirar da zona de conforto e proporcionar discussões sobre temas sociais densos que não são fáceis de inserir na pauta cotidiana ou na realidade da sala de aula,é um debate que fala sobre a condição humana, sobrevivência humana, o respeito ao outro as identidades, as quebras de identidade, a construção cultural da nossa subjetividade.”, comenta.

A professora fala que não só a universidade, mas mundo ainda não está preparado para receber pessoas transexuais, mas que essa luta deve ser cotidiana e o cine Queer dá visibilidade a essas questões, porque ele tira essas questões da margem e traz o debate para nossa realidade.

Feito pelos estudantes de Comunicação Social e membros do Centro Acadêmico, o Cinecom segue a mesma linha dos outros cineclubes. Há três meses eles vêm trazendo filmes que mostram uma temática com discursos diferentes e também como uma tentativa de fuga do cinema comercial.

Alunos de Comunicação Social e idealizadores do Cinecom.

Os filmes são escolhidos pelos próprios alunos de forma democrática em uma enquete no Facebook. Quinzenalmente e sempre as quintas-feiras eles se reúnem para as sessões na sala do Centro Acadêmico na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte

Diferentemente do cinema tradicional, a proposta de um cineclube é promover discussão para que o público reflita sobre temas específicos ou a arte cinematográfica no geral. Sem fins lucrativos, surge como uma tentativa de suprir uma necessidade que o cinema não dispõe, que é fazer uma abordagem mais crítica acerca dos audiovisuais, o cineclube é um espaço para a democratização da cultura.

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