O Doleiro e o Traficante


Bodes expiatórios e sustentáculos do capitalismo financeiro


[Texto publicado no Guerrilha GRR]

É comum que naturalizemos nomes, conceitos e unidades de sentido de toda ordem: nem sempre sabemos ou temos certeza do significado exato de alguma palavra, mas ainda assim a usamos porque parece expressar o que queremos dizer. Por outro lado, esta inocente peculiaridade humana vem sendo utilizada há séculos como forma de exercício de poder, culminando inevitavelmente no que a teoria política chama de uma “hegemonia discursiva”.

O que entendemos pela palavra “trabalho”, por exemplo, ou “liberdade”, está diretamente condicionado a longos processos históricos, os quais vão ajustando os significantes (a mera palavra) –neste caso “trabalho” ou “liberdade”– aos significados (sua representação material) que mais convêm a quem está no comando. À luz desta perspectiva, nos interessa aqui as noções de “Doleiro” e “Traficante”, personagens de grande destaque nos jornais de todo o país, ao menos desde a redemocratização de 1989. Veremos que, em relação a estas palavras, os significados que habitam o senso comum estão completamente enviesados e distorcidos pelos grandes meios de comunicação, implicando numa forma de controle social.

Como reflexão inicial, peço ao leitor que faça um pequeno esforço de memória: alguma vez você lembra de haver visto um doleiro e um traficante dividindo espaço numa mesma notícia, artigo ou reportagem de um grande veículo de comunicação? Recorrendo ao Google Notícias podemos encontrar algumas poucas notas de meios massivos que contêm tal ligação; entretanto, além de serem muito escassas, as notícias encontradas deixam de lado os vínculos mais importantes entre ambas figuras, e a relação só aparece por motivos circunstanciais. Que este aspecto relacional entre traficantes e doleiros esteja ausente dos grandes meios de comunicação brasileiros é algo extremamente preocupante, em especial numa conjuntura em que a “guerra às drogas” banha as periferias em sangue e os casos de corrupção política são assistidos diariamente pela população atônita, de maneira que ambas problemáticas parecem carecer de explicações –e muito menos soluções– válidas.

O que é um doleiro afinal?

Um doleiro é, simplesmente, alguém que movimenta moedas internacionais no mercado paralelo, geralmente em dólar, e daí o nome. É um neologismo que até pouco tempo atrás continha uma grande carga de informalidade, mas que posteriormente foi incorporado ao nosso idioma. Além disso, não existe tradução para esta palavra em nenhuma outra língua, ainda que os doleiros existam em todo o mundo. Assim que a única explicação plausível para a incorporação oficial dessa palavra ao nosso dicionário diz respeito a uma utilização massiva do termo, obviamente impulsada pelos meios de comunicação corporativos.

Mas quem ganha o que com a utilização da palavra “doleiro”? Simples: sendo este personagem um intermediário indispensável para os fluxos ilícitos de dinheiro entre banqueiros e criminosos, batizá-lo –ainda mais com um rótulo pejorativo– ajuda a construí-lo como bode expiatório quando algo não sai conforme o planejado.

Teoricamente, o jornalismo tem a missão de informar o mais objetiva e imparcialmente possível sua audiência. Sendo assim, qual o propósito de usar a palavra “doleiro” senão para criar uma cortina de fumaça sobre o problema da “corrupção”? A opacidade e confusão incitadas pelas diretrizes do jornalismo da grande mídia se intensificam ainda mais quando entendemos a definição desse rótulo. Se aquele que movimenta moedas no mercado paralelo é um criminoso, por que vemos diariamente nos jornais a cotação “paralela” das moedas? Pois sem querer nos topamos com outra cilada semântica: o “dólar paralelo” é um mero eufemismo; muito mais correto seria dizer “dólar ilegal”, “dólar ilícito”, ou por que não “dólar sujo”?

traficantes e Traficantes

Antes de pensarmos na figura do traficante como personagem dos telejornais diários, vamos a seu significado literal: o traficante de drogas é aquele indivíduo que pratica o comércio de drogas ilícitas (ainda que aqui estejamos omitindo o fato de que remédios farmacêuticos também são drogas e também circulam ilegalmente). Sendo assim, devemos assumir desde já que qualquer pessoa que leve a cabo tal prática é um traficante, independentemente de sua posição na cadeia de produção. Vale dizer também que o indivíduo que recorre ao “doleiro” geralmente o faz porque está em posse de dinheiro ilegal, na grande maioria das vezes proveniente do tráfico de drogas. Ou seja, geralmente são traficantes quem realizam transações financeiras por meio de doleiros.

Mas fomos muito longe, e provavelmente você já se esqueceu que estávamos falando sobre “traficantes de drogas”. Qualquer pessoa que se informe somente pela TV não poderia imaginar este personagem de outra forma senão que negro, pobre, jovem e cruel. O traficante, segundo o que nos informa o jornalismo de massas, é o grande culpado das mazelas sociais, e as drogas o encanto proibido que deve ser erradicado para que possamos, finalmente, ser uma sociedade decente. Diariamente vemos os meios de comunicação aplaudindo mortes e prisões de jovens das favelas e periferias de todo o país enquanto simplesmente ignoram a incomensurável relevância jornalística de fatos como como o envolvimento do HSBC na lavagem de bilhões de dólaresprovenientes do mercado de drogas ou ainda a meia tonelada de pasta-base de cocaína que estava sendo transportada no helicóptero da família Perrella.

Ternos e gravatas sujos de sangue

Não seriam, pois, o problema das “drogas” e o problema da “corrupção” aqueles que mais opacos se apresentam ao público geral? Acaso sabemos quem são os grandes traficantes de drogas? Alguma vez vemos a grande imprensa problematizando honestamente a questão, ou abrindo espaço para reflexões primárias sobre o que entendemos por drogas, por que algumas são ilícitas e outras não, quem mais lucra com o tráfico, ou ainda, quem mais sofre (e morre) nas mãos do tráfico e do combate ao mesmo? Nenhuma dúvida de que a resposta é não. O mesmo acontece com o fenômeno da “corrupção”. Acaso sabemos quem são os grandes corruptores e receptores de todo esse dinheiro ilegal? Acaso os grandes meios de comunicação –que ainda exercem um peso desproporcional na opinião pública– alguma vez mencionam ou questionam a identidade dos CEO’s e diretores dos bancos e megacorporações que estão diretamente envolvidos nos escândalos que estampam a primeira capa de seus jornais? Não cabem dúvidas de que a resposta aqui também é negativa.

Os motivos desse ocultamento não são inteiramente desconhecidos: os grandes bancos de todo o mundo, sendo as instituições que irrigam dinheiro às corporações e constituem a espinha dorsal do capitalismo financeiro, estão blindados pelas megaempresas de comunicação; o grande empresariado, por sua vez, conta com a mesma blindagem já que é quem financia os meios de massa, investindo bilhões em publicidade anualmente; em outro plano de análise, a economia mundial hoje é altamente dependente dos mercados ilícitos de armas, drogas, contrabandos e ilegalidades de todos os tipos. Se estima que, anualmente, o mercado das drogas ilícitas movimenta pelo menos 330 bilhões de dólares, isso sem contar os outros grandes mercados negros que também alimenta, como o de armas e outros contrabandos. Isso nos leva inevitavelmente a uma questão óbvia e central, porém pouco abordada: para onde vai toda essa grana?

Obviamente não vai para as favelas; nem mesmo para a mão dos traficantes mortos e presos pela polícia dia após dia. Aliás, a porcentagem do lucro direcionada ao pequeno varejista de drogas é comparável à ínfima porção do lucro direcionada ao pequeno agricultor. Todos os fluxos ilegais de dinheiro e mercadorias contam com a conivência –e muitas vezes com a participação ativa– das elites econômicas: banqueiros, políticos e megaempresários. Assim que com “elites” nos referimos ao verdadeiro topo da pirâmide social: o “1%”. Ao contrário do que se costuma argumentar, a questão aqui não é legitimar o tráfico nem a violência e barbárie que supostamente emanam dele; o que realmente importa e se faz cada vez mais urgente é deslegitimar a proibição das drogas e mostrar que a violência e a barbárie na qual vivemos toda a América Latina não são causadas pelo traficante retratado na TV, mas sim por aqueles que financiam –direta ou indiretamente– os mercados ilegais e, ao mesmo tempo, apoiam incondicionalmente a barbárie sob o eufemismo de uma “guerra às drogas”.

E assim essa monstruosa roda viva segue acumulando milhões de mortos e encarcerados por todo o mundo com uma pretensão que já nasce fadada ao fracasso: erradicar arbitrariamente determinadas substâncias do planeta Terra. Bastante parecida com a guerra ao terrorismo –e sendo ambas capitaneadas pelos Estados Unidos– a guerra às drogas tem uma função muito clara relacionada à geração de demanda permanente para importantes indústrias e redes financeiras, sem as quais muito provavelmente o sistema capitalista não se sustentaria.