NOWHERE MAN: o que encontrei ao resgatar autorretratos do meu pai no ano 2000

Inverno de janeiro de 2000, Hemisfério Norte.

Existe algo de visceral no resgate de fotografias de câmera analógica guardadas em álbuns físicos, palpáveis. Estes que nos propõem sempre um novo encontro, um olhar inédito para o baú da memória. Antes do advento das redes sociais como um todo, rever fotografias é uma espécie de ritual que abastece a nossa memória afetiva, abrindo um caminho dentro da areia movediça que é a construção da nossa identidade ou apenas um conforto da lembrança nostálgica. Ritual simbólico que aproxima e reúne pessoas em torno de alguma mesa em algum canto do mundo. É um exercício incrivelmente profundo esse de folhear as páginas do álbum de fotografia — vez em quando cortando o dedo com o papel — e segurar nas mãos as fotos que não tiveram chance de edição, que concretizaram algo irreproduzível e sobreviveram como um atestado do que fomos quando éramos.

Recentemente, redescobri num desses álbuns esquecidos, uma série de autorretratos que meu pai fez de si quando esteve pela primeira vez no exterior. Minha mãe, que residia no Brasil comigo e com a minha irmã, recebera essas fotos em um envelope recheado de notícias da vida de meu pai, apenas mais um rapaz latino-americano a trabalho nos Estados Unidos, o exílio. Três meses solitários e, ao mesmo tempo, empolgantes para ele — e um verão atípico para nós do outro lado do hemisfério.

Baby, eu estou aprendendo inglês. Os caras aqui na firma me chamam de Elvis por causa das costeletas.

Meu pai nasceu em Itapecerica da Serra, município da região metropolitana de São Paulo que ainda guarda certo ar de província. Em tupi, pedra escorregadia. Foi lá que aprendeu a fotografar, tornando-se o fotógrafo oficial dos álbuns de família e, no exercício da fotografia, a sua forma de amar. Não só na presença, mas, sobretudo, na ausência. Na falta de recursos tecnológicos acessíveis, visto que trata-se da virada do século 21, enviar cartões postais e fotografias pelo correio era um meio viável de ir ao encontro de; aproximar-se.

Capturando toda primeira lembrança, com a câmera apontando sempre para o outro, não sobrava muito tempo para meu pai se contar. Medito acerca das motivações que ele teria tido ao retratar-se em momentos íntimos do cotidiano e a carga de sua intenção por detrás de cada cena artística que compusera ao documentar esse momento da sua vida.

Mergulho nessas fotos e, quando retorno à superfície, me pergunto o que significa ser latino-americano lá fora. Para muitos de nós sul-americanos, a utopia reside em deixar o país de origem em busca de melhores condições de vida no exterior. Não olhar para o que deixou para trás… This is it. Quem sabe, viver o sonho americano. Sonho distante espelhado mundo afora, o olhar quase sempre fixado na Europa, buscando no norte.

Fascinado pela produção cultural e estilo de vida norte-americanos, meu pai desde cedo aprendeu que sair do Brasil rumo ao Norte era a maneira de atingir o êxito, tanto profissional quanto pessoal.

No fim de março de 2000, ele regressava ao Brasil. Uma parte dele continuou ouvindo seu Rockabilly, usando slangs em toda situação que se apresentava e assistindo aos filmes biográficos de seus ídolos norte-americanos. Uma parte dele ainda tinha ficado em Sandusky, Ohio, mas seria sempre estrangeira. A outra voltou com as malas e com saudade da terra. Ainda hoje, me pergunto se ele não se sente um próprio estrangeiro aqui, em seu próprio país.

Essas fotos são a materialização deste homem no cume da sua história, num ponto em que vê-se como estrangeiro no país de chegada, bem como no seu país natal. Se colocarmos o contexto em perspectiva, a década de 2000 é a porta de entrada do novo século. A influência econômica e político-ideológica estadunidense é muito presente na vida dessa geração que viu a microsoft mudar as formas de se relacionar com o mundo. E, numa sociedade ainda muito marcada por padrões de gênero, a idealização do self-made man que está subindo na escada do sucesso do ideal capitalista; o homem que trabalha longe e vai à luta — e, se preciso, à guerra — pela sua família. Mas como retratar-se de forma a expor sua realidade, fidedigna e sem filtro, frente a uma câmera?

A linha é tênue entre a confissão e a ficção. Sempre tem um pouco de verdade e de dramaturgia naquilo que criamos, manipulamos frente a uma câmera. A linha traçada também é o limite entre espaços concomitantes. Inscrito dentro de um quarto de hotel, sozinho pela primeira vez desde o casamento e o nascimento das filhas, essas fotos representam, de certa forma, a juventude perene de um homem que, em busca de autonomia, muitas vezes encontra-se na fronteira de lugar algum.

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