sobre a redoma individual e intransferível

Maria Helena
Jul 10, 2017 · 3 min read

Na sala do psiquiatra, pela primeira vez. Ele vai me receitar algum placebo que eu não preciso para me recuperar. Eu não acredito que eu vim parar aqui, eu disse pra minha mãe num jantar. Lembra de como eu era há uns 2 anos atrás? O quê aconteceu? Acho que fazer essa transição pra vida adulta tá foda demais... me sinto insuportavelmente sozinha e impotente.
A gente nunca acha que vai precisar de ajuda para tão somente levantar da cama e ter perspectiva. E, no fim das contas, os comprimidos não são placebo e nossa relação ainda tem alguns bons meses pela frente. Eu costumo chamá-los de happy pills.

Agora sentada em minha cama, estou escrevendo em plena crise — por ter esquecido e pulado duas doses do medicamento — repleta de pensamentos destrutivos. Ninguém em depressão — ou com ansiedade, ou numa fase estranha, ou na melancolia que seja — quer realmente morrer. É somente insustentável carregar a dor, que por vezes é tão imensa, sozinho. Porque não há, de fato, como contar dessa subjetividade para alguém, ainda que o espaço da terapia/análise seja muito importante para elaborar o que sentimos e nos ajudar a superarmos tempos difíceis. A dor simplesmente não é mensurável e não há como compartilha-la nem transferi-la a terceiros.

Toda vez que eu digo pra mim mesma que não vai ter jeito e que eu separo todos os comprimidos, planejando engoli-los de uma só vez, tenho lapsos de consciência da unidade que é a vida, e penso em tudo o que poderia dar errado se eu tentasse tirar minha própria vida e, ao final, sobrevivesse. Vou ao fundo de mim mesma e, quando retorno a superfície, consigo sair de mim e olhar para aqueles que estão à minha volta e como não quero incutir nenhum tipo de dor nessas pessoas. Fico indagando pra quem eu poderia contar sobre o meu ímpeto, sobre o meu ego doente, sobre como eu preciso que tudo isso seja mais leve. Escrever é o que tem me ajudado a localizar a minha vida e, quando sinto que ela está por um fio, um lápis e um papel me dão uma noção de pertencimento. Escrever é compartilhar a dor, de uma certa forma. Apoderar-me dela, em vez de ser sua vítima.

Desde muito nova, recolhia-me sentindo as dores de existir. Nunca soube dar nome a isso. Sempre me pareceu algo muito absurdo e, em se tratando de algo que ninguém quer tocar, dizia para mim mesma que, quando fosse mais velha, ia passar. E, realmente, tudo muda. As questões com as quais eu tenho de lidar hoje são bem mais complexas; mas, de alguma forma, a dor ainda é a mesma. Ela só se apresenta de maneiras e intensidades diferentes, de acordo com o momento em que estou existindo.

Acho que a decisão mais importante que eu tomei nos dois últimos anos foi de buscar ajuda externa, ser mais terna comigo e, em tratamento, acabo encontrando uma força que eu pensei que nunca tivesse em mim. A dor não necessariamente deixará de existir. Enquanto houver vida, ela estará presente. Mas percebi que eu preciso inclui-la, em vez de sufocá-la. Porque o processo de cura não é linear. Tem dia que eu vou estar no fundo do poço. E tudo bem. Com o tempo — e sim, com a ajuda do medicamento, pelo menos por enquanto — , eu consigo sair dessa lama por minha conta. Minhas vidraças podem ser quebradiças, mas elas também sabem cortar.

A gente nunca precisa passar por tudo isso sozinho(a). “No man is an island, entire of itself.”, como dizia o poeta. Só de escrever essas poucas linhas, sinto que a dor fica o mais próximo de palpável e já não tenho tanto medo do que ela possa fazer de mim. Ela existe, mas eu também. E ninguém pode existir por mim, no meu lugar.

Maria Helena
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