um poema longo para uma noite curta

eu não vou 
comparar
tons nos teus cabelos
com elementos desta paisagem
que contemplo
neste exato instante
segurando uma mecha tua
entre meus dedos

eu não posso 
traçar um paralelo
entre as pintas espalhadas pelo teu rosto
e como não consigo ligar pontos 
na minha vida
(nem nos livros que você me deu)

seria duro demais
se alguém comparasse
itapecerica da serra com nova iorque
sem ter ido à sorveteria do geraldo
sem fazer uso de tanto quanto 
assim como
e também
- você sabe tão bem quanto eu que aqui não neva
e é mais difícil de encontrar artistas 
andando pela rua
mas eu duvido que você brinque 
de carrinho de rolimã 
no central park

hoje mesmo ensinei aos meus alunos
le superlatif de supériorité
disse que estabelece a superioridade de 
um elemento 
sobre o todo numa frase
disse que julie est la plus belle fille de la classe
mas que bobagem
porque 
você é muita coisa além

até me lembrei daquela vez
que fui a um concerto de música 
depois de te deixar no aeroporto
duas vezes num mesmo mês
mas esqueci no momento preciso
de que estava lá
pois senti que estava dentro de ti

cheguei a ouvir a aeromoça sugerir 
que você trocasse de lugar
já que a janela te dava pânico
(não entendi se pela proximidade com as nuvens)
mas você recusou
ficou acordada o vôo todo
parecia muito concentrada 
em parecer natural
je n’ai pas peur
- qualquer metáfora seria apenas acessório
para a imagem real que tive.

não sei se falha a minha memória
tua mecha caía sobre a
pinta
que você sempre quis retirar
mas
vamos dizer que
também pela existência dela
eu nunca pude te comparar.