Somos uma série mal feita de nós mesmos: #savemarinajoyce e o espetáculo da paranoia na rede social.

Numa madrugada normal na famigerada internet, eis que o pânico tomou conta dos usuários do Twitter. A história, de fato, tem sugestão inicial bastante sinistra. A mudança repentina de comportamento de uma youtuber britânica, chocou os fãs da moça que passaram a encontrar supostos desesperados pedidos de socorro escondidos em seu canal. Unidos pela preocupação genuína que a situação gerava, usuários se uniram na hashtag#savemarinajoyce numa espécie de surto coletivo de Scherlock Holmes ou CSI para dar o veredicto universal possuindo somente 5 ou 6“provas cabais”. Como um roteiro de suspense perfeito, a própria rede juntava pistas que se encaixavam com uma certeza conspiracionista tomada em poucas horas: Marina havia sido sequestrada e mantida em cárcere privado por um sequestrador (talvez ligado ao ISIS) que obrigava a manter fazendo vídeos e planejava um massacre publico aos jovens fãs da garota. Ok. O suposto grito de “help me” sussurrado, seus hematomas, expressões sinistras e outros elementos quando juntos num contexto, até dão um calafrio no fundo da alma por que são dispostos com este certo propósito. Tanto assim que há diversos relatos, da sensação de “estar sendo observado” conforme a madrugada ia adentro. E daí a conspiração é um pulo. E era o que parecia acontecer.

Do outro lado, na mesma calada da noite, um outro grupo de pessoas desmitificava o espetáculo trazendo provas concretas da paranoia antecipada. Isso não bastou. A polícia também se manifestou, mas como polícia é polícia — todo mundo desconfia. Em pouco tempo, 800 mil pessoas acompanham ao vivo a transmissão do suposto encontro da youtuber com seus fãs. Tudo continua sem um desfecho certeiro — e os fatos continuam se ligando de maneira sinistra pra quem quer. E pra quem não quer ,para cada prova, uma contraprova. Para cada medo, um desfecho. E cá estamos. Discutindo e nos ofendendo de novo.

Para além do fato preocupante de que essa história tem respaldo na vida real e existem situações de abuso compatíveis com a ocorrida(por isso gera necessidade da preocupação e do debate sobre o assunto), essa madrugada é um retrato da realidade da rede social e nosso comportamento excessivo e doentio na rede. Aliás, esta é uma máxima: o melhor jeito de olhar como somos, é ver como nos comportamos falando dos outros — e o caso de Marina Joyce é o espelho perfeito da nossa geração. Vamos adiante.

Na cartilha da internet, como acontece nos usuários abusivos de drogas ou outros vícios, a tônica da vida é exclusivamente o agora — assim, o comportamento da rede é de compartilhamento excessivo de conteúdo, memes repetidos até a overdose, nível de tensão a flor da pele, um eterno ringue de qualquer coisa. E a ordem dos desdobramentos seguem sempre um roteiro igual:

1. um/outro fato escandaloso acontece. Pode ser político, cotidiano, social, geográfico, celebridades, esportes, fofoca, qualquer coisa. Não importa.

2. Pessoas imediatamente tomam uma posição certeira e aparentemente majoritária sobre o assunto. (o assunto torna-se viral)

3. Em pouco tempo, pessoas contrárias surgem para desmentir e contrapor. (a guerra de memes é o sinal desse momento)

4. Um rebuliço geral é criado na rede: somos todos levados a tomar partido para um dos lados. Os defensores de A começam a brigar com os defensores de B que marcam suas posições com cada vez mais violência para se fazerem entendidos. A moral de cada um é posta a prova: quem não concorda comigo, só pode ser lixo.

5. Ninguém se entende. O fato em si tem prazo de validade entre algumas horas e poucos dias.

6. O assunto morre ou toma um desfecho.

7. Algumas pessoas chegam atrasadas e comentam e depois que a poeira baixa e as primeiras reflexões mais sérias começam aparecer…

8. Voltamos para o ponto 1. Até o infinito. E além.

Nos reduzimos a meros comentadores ambulantes de manchetes flutuantes. Nossa modernidade líquida em confluência com a quantidade de notícias que recebemos diariamente é menor que nossa capacidade, bagagem e disponibilidade de tempo para tomar nota de cada uma das situações.A rede social nos impulsiona ao julgamento rápido, a decisão imediata, a opinião momentânea que extrapola o limite da razão: a reflexão e a contemplação são deixadas de lado em nome do imediatismo pragmático do ódio gerado pelo saber “instintivo”. Este tipo de resposta é muito ligado as nossas emoções, sentimentos e crenças e não do pensamento mais sereno e lógico, que exigem tempo para aflorar. Na rede, estamos fadados as respostas instintivas: daí vem o medo, a desconfiança, a paranoia, a fobia e a aversão ao outro que cresce diariamente na rede para todos os lados. Na ânsia de uma resposta urgente, humanizamos os nossos e coletivizamos os outros. Não dá mais tempo de pensar no “quê” está acontecendo, mas olhar apenas “quem” está anunciado e já dar o veredito: é a redução dos fatos e seus conteúdos à sua mera aparência e discurso.

A rede social nos transforma em todos especialistas de tudo: opinamos sobre o trânsito, sociologia, medicina, política, cultura e investigação criminal como doutores. Como não temos tempo de estudar sobre cada um desses assuntos, as séries realistas, que flertam com a realidade individual de seus espectadores, o Youtube e nossas leituras rasas em portais de notícia são a nossa unica fonte de pesquisa e “verdade” — depositamos nossa fé em nosso recorte de mundo, e defendemos com todas nossas armas o que aprendemos. É rápido e fácil ter opinião com a internet. Assim, basta meia duzia de lunáticos do Youtube para entender política, bastou House há alguns anos para especialistas médicos pipocarem nas redes e agora uma hashtag com um toque de Pretty Little Liars e CSI mobilizam uma nação detetive a tirar conclusões de certeza cirúrgica. Os vídeos e séries cruzam a fronteira entre real e o espetáculo — a expectativa de viver uma vida cheia de tramas de roteiro versus a realidade monótona e serena da vida normal, se misturam e viram objeto de consumo na rede. E as vezes, até com o fato provado, os entusiastas insistem em não enxergar — em certo momento, é quase como se inconscientemente quisessem que de fato aquilo que eles negam, acontecesse para continuarem podendo gritar seu discurso.

Os fatos são menos importantes que os enunciadores e suas formas: respostas que tem necessidade de consumir tramas fantásticas que gerem compartilhamento, a vontade de produzir histórias de aparência para legitimar o próprio discurso, (como as fanfics “lula preso amanhã”; e “fora temer! no Starbucks que tem feito sucesso entre os dois torcedores dos espectros políticos). O símbolo que o fato representa é mais importante que o fato em si: o mundo acontece como uma representação de legitimação de comprovação das crenças do meu “eu”. Tudo o que há a nossa volta, é rapidamente posicionado dentro da nossa lógica e é necessário defende-la a todo custo publicamente. Isso é viver nas redes.

Um sujeito que não gosta de hipopótamos, certamente fará escolhas entre seus filtros de likes e terá uma timeline cheia de maus hipopótamos: vai ter hipopótamo roubando, hipopótamo brigando, hipopótamo comendo criancinhas inocentes, hipopótamo isso ou aquilo. Tudo pra comprovar a crença previamente estabelecida de que hipopótamos são ruins a sociedade. Já o outro, amante de hipopótamos, passará o dia recebendo imagens dos bons hipopótamos: aqueles que salvaram uma tribo humana no Nepal,estudos que os hipopótamos salvarão o planeta, e certamente muitas imagens de jacarés que comem hipopótamos. “Ora, que coisa! Caça aos jacarés!Esses seres imprestáveis de nosso planeta! E tudo o que é de jacaré, fora!”

Isso funciona com tudo: impeachmeant ou golpe, escola sem partido ou sem juízo, a cor do vestido branco ou azul, a paranoia comunista, defensores de ditaduras, pokemon go, muçulmanos, oprimidos, bolsomitos e bolsominions ou o mistério da Youtuber Marina. O que importa não são os fatos -mas como e o que compartilhamos para a comunidade frente aos fatos. A necessidade de consumo da nossa sociedade é pelos tabloides — assuntos do momento, opiniões compartilhadas, enfim, consumir e atuar regem a tônica de nossa irreal vida real nas redes.

Assim, hoje, 27 de julho de 2016, menos de 16 horas depois do começo da nova temporada já estamos de novo no ponto 5: todo mundo briga com todo mundo, ninguém entende mais nada e por que a história em si já não importa mais, a disputa agora é pelo comportamento correto diante da situação frente a seus pares.

E nos vemos, mais uma vez, condenados a atuar eternamente em nossos papéis de uma Série mal feita de nós mesmos.