Masculinidades negras, representação e literatura.

Vagner Amaro
Jan 12 · 4 min read

Quantos autores negros existem na literatura brasileira contemporânea Quantos personagens homens negros? Como são retratados os personagens negros Questionamos na literatura o que há por trás das imagens estereotipadas dos homens negros? E na realidade? As imposições para tentar encaixar, e se encaixar, em uma única narrativa sobre a identidade do homem negro pode ser cruel e asfixiante, pois nega multiplicidades, complexidades, diversidade e humanidade.

A pesquisa “Personagens do romance brasileiro contemporâneo” — (1990–2004), desenvolvida na Universidade de Brasília sob coordenação de Regina Dalcastagnè, informa entre seus resultados que nas principais ocupações das personagens negras há uma grande concentração na criminalidade. Mais de um quinto dos negros representados nos romances analisados são bandidos ou contraventores. (E a eles poderiam ser acrescentados mais três presidiários.). Este mesmo levantamento realizado pelo grupo de pesquisa, revela também que de todos os romances publicados, entre 1990 e 2004, por algumas das principais editoras brasileiras (Companhia das Letras, Record, Rocco e Objetiva/Alfaguara), 96% dos autores e 79% dos personagens são brancos.

Capitão Mathias, interpretado pelo ator André Ramiro, no filme Tropa de Elite.

Quando fui criando o personagem Edson, no conto Dança, para o livro Eles, tinha uma primeira questão: Muitos homens negros quando estão em postos de trabalho como vigias, seguranças, porteiros e policiais reproduzem as mesmas atitudes racistas dos homens brancos. Mesmo sendo impossível ver estes homens como racistas, visto que “só os brancos podem ser racistas, porque somente eles construíram um sistema que os permite gozar de vantagens na sociedade”¹, como representar isso na literatura? Policiais e seguranças particulares agridem duas vezes mais homens negros do que brancos, segundo pesquisa “Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça no Brasil”, do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada). Uma pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco constatou que 60% dos policiais percebem que pretos e pardos são priorizados nas abordagens. Outra pesquisa, de 2001, realizada na Universidade Candido Mendes (RJ), apontou que a Polícia Militar do Estado do Rio age com discriminação contra os negros, escolhendo-os prioritariamente nas abordagens. Sem contar um documento da Polícia Militar de Campinas, amplamente divulgado, indicando para priorizar nas abordagens pessoas negras.

Mas quando estes homens, nas funções de vigilância e segurança são homens negros? Cabe apenas cumprir ordens? Opressão racial e social fazem que sigam cegamente de acordo com as ordens dos superiores?

Edson é obrigado a revistar um homem negro de terno na loja de bebidas, e ele também desconfia do homem negro de terno, ele é fruto de uma cultura racista, sofre e faz sofrer. Mas sendo também ele UM, é repleto de complexidades que o guiam na sua trajetória. A ex-namorada de Edson, mais velha, branca, pedia quando eles transavam que ele fosse agressivo, apertasse, batesse, mordesse, ele cansou do papel e terminou o caso. O avô dizia que um negro sem emprego nada vale, a professora, na infância, também dizia frases racistas.

Edson é formado em Administração de Empresas e quanto mais Edson estuda para fugir de certos postos de trabalho, mais o mercado de trabalho o empurra para os serviços braçais, ou serviços de segurança ou vigilância.

Nesta busca por um novo emprego, Edson enfrenta os olhares e outras atitudes de desconfiança de vigias, seguranças, atendentes de lojas e recrutadores. Passa por revistas policiais. Longe de ser O Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, “Entretanto, o seu nome ia ganhando fama em todos os navios. Um pedaço de bruto, aquele Bom-Crioulo! diziam os marinheiros. Um animal inteiro é o que ele era!”, Edson é um homem negro, repleto de angústias, contradições, sonhos e fome de viver, o que mais deseja é desfrutar, solitário, de um sonho antigo, um sonho infantil, e se libertar de uma realidade que o sufoca.

  1. Ted Thornhill

Trecho do conto “Dança”

“As vozes da reunião, armada para que algum funcionário dedurasse o outro, ficavam cada vez mais distantes, e Edson, olhando para o chão, lembrava de uma vez que o patrão fez um Preto, que estava todo elegante de terno, abrir a bolsa de couro que carregava, “É isso mesmo, amigo, horas aqui na loja, rodando de um lado para o outro, vai ter que abrir a bolsa sim!” — disse o patrão. A cabeça dele ficava vermelha nestas situações e a voz esganiçava um pouco. “Vai ter que abrir!!!”. Edson, em frente ao suposto ladrão, percebeu o olhar constrangido que mirava nele, buscando cumplicidade e ajuda. Mas não podia ceder, fazer nada, não era por ele ser negro também que daria esse mole, não eram irmãos, e muitos pretos se embecam para poder roubar — sabia de muitos casos contados pelos seus amigos também vigias. Fez o cara abrir a bolsa de couro, e dentro havia apenas papéis e alguns produtos de higiene pessoal; depois dos pedidos de desculpas do patrão, o cara saiu da loja, murcho, disse com uma voz fragilizada que processaria o estabelecimento. Edson e o patrão sabiam que o Preto não processaria, que aquela ferida o Preto de terno carregaria pela vida, cada um com a sua cruz. Ao vê-lo sair, Edson observou que o Preto, de costas, parecia um terno sem corpo se movimentando, um terno oco.”

Na Livraria da Travessa: Eles

A personagem do romance brasileiro contemporâneo: 1990–2004. Acesse aqui

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