A confraternização

Um encontro que terminou em pizza, prosa e carinho

Vagner de Alencar
Jul 24, 2017 · 6 min read

Noite de São Pedro, o santo do tempo. Só que no dia do “porteiro do reino dos céus” o que estava escancarado eram os portões da Nubio Pizzaria. Do lado de fora do estabelecimento, o vento gélido, de não mais do que 15 graus, soprava impiedosamente em Barra do Choça. Dentro, o calor era literalmente humano.

Assim que apareci em frente ao comércio dos conterrâneos Nubio e Gilça, o silêncio se quebrou pela música que despontava do interior do restaurante. Demorei alguns segundos, até perceber que a sincronia não era um mero acaso.

Uma dupla “voz e violão” estava a postos, juntinha ao caixa onde dava acesso à cozinha. Um equipamento de som amplificava a voz de uma jovem cantora.

Começaram a tocar, mas logo foram interrompidos por Alexsônia, que se atalhou em minha direção para o cumprimento. Era ela a responsável pelo repertório acústico da noite, a anfritã. Mais do que isso. A organizadora da “Confraternização para Vagner de Alencar”, como ela própria nomeou o encontro.

Assim que soube de meu desembarque em terras barrachocenses, Alexsônia tratou de chamar colegas e amigos para celebrarem minha estadia, que duraria não mais que 10 dias. Dessa vez, sem imprevistos.

Para não haver desencontros, ela me mandou um WhastApp perguntando qual seria o melhor dia para que eu pudesse participar de uma “confraternização”, apesar de eu não ter ideia deonde e quem estaria presente.

Tudo porque em minha última viagem à Bahia, em 2006, Alexsônia arquitetou uma festa surpresa. O equívoco com a data não permitiu a realização do evento, que precisou ser cancelado. A confraternização aconteceria na mesma pizzaria.

Um ano e meio atrás, ela havia chamado também a mesma quantidade de convidados: 20. Um cantor embalaria, ao vivo, músicas de Amado Batista. Ao contrário da dupla atual, que tocava na igreja, e entoava músicas canções de Ana Carolina a Trem Bala.

“Espero que você goste”, me disse, com os olhos inundados de carinho, Alexsônia, minha ex-professora na longínqua sexta série do ensino fundamental.

Nos esbarramos em 2001. Eu estudava em Barra Nova, distrito de Barra do Choça; naquela época, o único local mais próximo para cursar o “ginásio” — atualmente conhecido como ensino fundamental 2. Alexsônia foi minha professora de Artes e Redação.

De volta ao presente, na Nubio Pizzaria, quatro ou cinco mesas se uniam formando uma única fileira. Colegas, amigos e ex-professores me esperavam dentro e fora do local . Inclusive com postagens no Instragram com fotos entre eles, mostrando que estavam à minha espera. Por sorte, eu não havia visto.

“Esse aqui é Vagner de Alencar [Alexsônia sempre fez questão de dizer meu sobrenome]. Nosso ex-aluno. É jornalista em São Paulo. Escreveu até um livro”, me apresentou à Gilça, a dona do restaurante, em frases lentas e pausadas, como lhe é de costume.

“Eu conto para todo mundo que um ex-aluno nosso escreveu um livro lá em São Paulo. Sobre Paraisópolis. Da vida na maior favela de São Paulo. Mas eu dizia que era a vida na maior favela do Brasil”, sorriu em meio à revelação equivocada, apontando para alguns cartazes sobre minha trajetória de vida e profissional, colados na parede da pizzaria.

O primeiro continha a capa do meu livro (da época do TCC); o outro, uma minibiografia relatando minha história na roça; também uma foto de perfil do Facebook; e, por fim, meu atual status profissional: do mestrado à Agência Mural.

Os cartazes, impressos na escola onde trabalhava Alexsônia, chamaram a atenção do diretor, Alexson, irmão gêmeo dela: “Esse aí que é o cara?”, revelou Alexsônia.

“Eu tive o prazer de conhecer Paraisópolis tendo Vagner como guia. Foram seis meses lá, vivendo entre becos e vielas”, emendou Hielly, uma amiga baiana que queria ganhar a vida em São Paulo e fora morar comigo em 2007, em São Paulo.

Uma década atrás, eu trabalhava na Feira da Madrugada, na região do Brás, no centro da cidade, e havia conseguido uma vaga para ela no mesmo trailer em que eu era atendente. Acordávamos, de segunda a sábado, às duas horas da madrugada. Cinquenta minutos depois, punhámos nosso uniforme para iniciar o trabalho pontualmente às três. No trailer, vendíamos de pão na chapa a X-tudo. A estadia de Hielly, porém, durou um semestre.

E a novela ‘I Love Paraisópolis’? Quando será o próximo livro? E as viagens?

Enquanto as pizzas não chegavam, as prosas iam sendo encaminhadas. Todos queriam saber de minha boca aquilo que só podiam ler por meio de boatos ou pelas redes sociais.

A resposta para a última pergunta estava encravada em meu corpo. O agasalho escrito CALIFORNIA desvirginou o papo sobre o um mês de estadia nos Estados Unidos. Um dos momentos mais significativos de meus 30 anos.

Fabiana era uma das convidadas. Não nos víamos havia pelo menos quatro anos. Nos tornamos amigos no compartilhamento do ônibus que levava professores e alunos de Barra do Choça para Barra Nova, município que se separa do distrito por uma estrada acimentada de 15km. Embora o nome comum, foi o sobrenome de Fabiana que me permaneceu eternizado: Princesa, apesar de não ser usado por ela — pelo menos no Facebook.

Prima de Fabiana e ex-professora de inglês no ensino fundamental, Simone Morais havia postado algumas fotos entre elas, minutos antes do meu aparecimento. Fez questão de mostrar, assim que cheguei, para massagear ainda mais o meu ego que explodia já naqueles primeiros minutos de reencontros.

Enquanto eu me revezava em cada canto da mesa comprida, um grupo de amigos, animados, festejava o aniversário de um deles. Eram pelo menos dez homens, que, lá pelas tantas, engataram o “MauMau, eu vou comer o seu bolo!”.

Claudete Moreno estava acompanhada do namorado. Nossas histórias se uniram há cerca de cinco anos, em um dos meus regressos à Bahia com direito a passagem de ano dentro de um ônibus de Santa Cruz para Ilhéus.

“Eu nunca vou me esquecer daquele ano-novo”, disparou Clau, como é carinhosamente chamada pelos amigos. Eu também nunca me esqueci da simpatia daquela mulher, sem imaginar que nossa fraternidade não se resumiria em uma viagem de verão.

Cúmplice de Alexsônia na preparação do “evento” e mãe de Hielly, Zânia era outra convidada, e a responsável pela minibiografia estampada na parede.

“Tem alguns errinhos”, adiantou. Meus olhos, no entanto, viam apenas acertos e carinho, buscando respostas para entender o porquê daquilo tudo. Zânia havia sido professora na Escola Municipal Rui Barbosa, no povoado onde me criei, onde estudaram meus irmãos e, mais tarde, assim como ela, fui professor de jovens e adultos. O destino se encarregou de nos juntar muito tempo depois.

Enquanto eu buscava respostas para entender aquilo que, sem dúvidas, era uma grande homenagem, a dupla de cantores parecia responder por meio de Trem Bala:

“Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu
É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu
É sobre ser abrigo e também ter morada em outros corações
E assim ter amigos contigo em todas as situações”

Já devorando a pizza que demorou de chegar por causa da nossa demora em pedir, Alexsônia me perguntou se eu queria trazer um isopor para São Paulo. “Você gosta de licor? Vou separar para você! Qual sabor? Você gosta de jabuticaba? De jenipapo? Vou pegar um de cada”. Escolhi apenas o de jabuticaba.

Depois de três pizzas de carne seca, mussarela e calabresa, assim que o grupo de amigos barulhentos deu adeus ao estabelecimento, encaminhando para o fim da confraternização, Zânia e Alexsônia engataram um discurso.

Antes, Alexsônia pediu desculpa pelos que não vieram, agendou a busca do isopor (que conteria manteiga, carne, biscoitos e até carne) e garantiu que, na próxima vez, faria uma confraternização melhor, à minha altura.

Os discursos só confirmaram aquilo que aconteceria logo na chegada à pizzaria (caso eu não tivesse sido forte): lágrimas de alegria.

Um beijo, um salve e até já!
Vagner de Alencar

Vagner de Alencar

Written by

Jornalista, autor do livro "Cidade do Paraíso" e cofundador da Agência Mural de Jornalismo das Periferias

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