Alianças

Algumas noivas não acreditavam em príncipes encantados, mas em “primos (des)encantados”

Pós cerimônia de casamento baiana no final da década de 90

As moçoilas aguardavam com ansiedade o dia do casório, apesar de não existir, muitas vezes, vestido branco ou copos-de-leite espalhados pela igreja — quando havia igreja. A indumentária era conseguida via empréstimo da tia ou irmã mais velha, quando não da mãe ou avó. Já a decoração, sempre simples, se resumia à “latada”.

A latada era uma espécie de puxadinho, uma armação composta por lonas pretas mal-ajambradas do lado de fora da casa de um dos noivos.

Sem a presenças do padre ou da igreja, a formalização do matrimônio quase era feita no cartório mais próximo — no caso, o único da cidade — , sem entrada triunfal da noiva, atrelada ao braço do pai, escorrendo a cauda do vestido rumo ao altar, tampouco marcha nupcial (a não ser na imaginação das meninas que se casavam aos 15 anos ou até menos idade).

No auge da adolescência meninas não acreditavam em príncipes encantados. Talvez porque os maridos fossem “primos (des)encantados”. Os mesmos com os quais conviveram toda a infância.

Havia amor? Talvez. Falta de opção? Também. Ou quase a teoria do: “Se não tem cão, caça com gato” ou “se não teve pretendente novo, se casa com primo”.

Casamento era uma obrigação. Com idade máxima fixada: 20. Até essa faixa etária, não se casar, amasear ou juntar as escovas de dentes seria quase sinônimo de ficar para titio ou titia. Algo inadmissível! Minha avó paterna, Alice, se casou aos 14; Marlene, a materna, aos 13; tia Cilma aos 15.

Apesar de o dinheiro contado, não podia faltar festa. Comida, fosse almoço ou jantar, e forró sob a latada, eram itens obrigatórios.

Os mais abastados financeiramente matavam bois para celebrar o casamento das filhas virgens. Às pés-rapadas, um mutirão de senhoras se incumbia de preparar arroz, feijão, macarrão e galinha cozida nos caldeirões apanhados da escola.

Os drinks, cachaças temperadas com ervas e outros guere-gueres aromatizados, recolhidos do quintal. Alguns engradados de cerveja também surgiam, porém destinados, selecionadamente, aos convidados mais ilustres.

Ainda quando o dinheiro permitia, as famílias dos noivos alugavam ônibus para encaminhá-los à igreja, no centro urbano.

Ninguém se dava ao trabalho de convidar as pessoas — a maioria apareceria mesmo sem chamamento.

Peculiaridades à parte, talvez a coisa que mais me tenha chamado atenção nesses casamentos desprovidos de recursos financeiros na roça eram as alianças — dupla ou até triplamente abençoadas. Assim como os vestidos, elas também eram adquiridas por meio de empréstimos. Anéis de ouro nem nos sonhos mais vindouros.

De jeito algum a ausência de grana impossibilitaria o enlace entre os casais. As juras de amor, o sim e o atravessamento das alianças nos dedos anelares esquerdos ocorreriam. Porém com tempo curtíssimo naquelas mãos alheias. No dia seguinte, deveriam voltar aos verdadeiros donos.

Alguns casais, dias ou semanas adiante, conseguiam enfeitar os dedos com um par de anéis simples e baratos. Outros seguiam com mãos desnudas, sob as juras: na alegria e na pobreza, até que as alianças emprestadas os separem.

Milda&Val

Casamento de meus pais, Osmilda e Valmir (à direita), em 1986

Primos de terceiro grau, meus pais seguiram essa filofosia. Aos 21, Osmilda, minha mãe, se casou com meu pai, Valmir, um ano mais velho que ela. Anos depois, a mão esquerda da matriarca da família ganhou um anel dourado. Obviamente não presenteado pelo marido. A aliança fora encontrada na rua. Em São Paulo. Ironicamente, possuía, na parte interior, a assinatura “Nida”. Por pouco, não o apelido de minha mãe, “Milda”.

A aliança permaneceu em seu dedo anelar até poucos meses antes de sua morte, em maio de 2006, quando sumira repentinamente.

Dois anos após sua partida, numa de minhas voltas à Bahia, Helenita, minha tia paterna, que havia comprado nosso tanquinho de lavar roupa assim que nos mudamos a São Paulo, me chamou de canto para me entregar algo:

— Toma, é a aliança de sua mãe. Nóis encontrou ela dentro do tanquinho. Ele tinha pifado, daí Sinvaldo (o marido dela) precisou abrir para mexer e achou ela lá no meio. Tu deve ficar com ela!

Desde aquela noite, “Nida” me acompanha — vez ou outra em algum dedo da mão direita — como uma lembrança bonita de Milda, minha mãe. Em breve, pretendo acrescentar a letra U à nossa “aliança”. Afinal, Milda estará eternamente “uNida” em todos dias de minha vida.

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