Cuidado! Garoto apaixonado: encontrei minha paixão em cima do guarda-roupas

Encontrei em cima do guarda-roupas minha grande paixão, concentrada — para não dizer concretizada — em um caderno universitário que quase ganhou o caminho do lixo junto a outras quinquilharias.

Seria apenas um caderno qualquer, aliás: um caderno universitário, 72 folhas, formato 20,2 cm X 28,0 cm. Fabricado pela marca Cobra D’água, ele poderia ter sido usado em alguma disciplina como língua portuguesa, matemática ou química. De certa forma, havia química, mas no sentido figurado.

Ele continua revestido por uma capa transparente, de rebarbas amarelas, tinha tudo para ser um diário de adolescente. Mas era mais que isso. Talvez meu primeiro livro. Ou blog — com as páginas impressas, claro!

Era uma espécie de registro daquele sentimento novo e estranho, que invadia cada canto do meu corpo esquálido e se ancorava no órgão que eu acreditava servir apenas para bombear o sangue e fazê-lo circular pelo corpo.

“Cuidado! Garoto apaixonado” é o título que estampa a capa do caderno. O mesmo nome do livro lido — e nunca devolvido — da biblioteca da escola onde cursei a quarta série do ensino fundamental, em Paraisópolis, São Paulo.

O personagem central: Maria Aparecida. A Maria, “Aparecida em minha vida”. Assim, entre trocadilhos, crônicas e poemas (muitos, por sinal), aquele caderno vazio ganhava cor e tom. O colorido das letras cursivas, desenhadas com canetas diversas, e recortes de livros e revistas.

Antes de começar a narrar as declarações e poesias juvenis que pintaram o branco das folhas ainda presas a um espiral de arame, é importante falar como tudo começou: aos 13 anos. A idade poderia representar azar, mas eu tampouco sabia jogar.

Corta para 1999 — E.E.P.G. Prof Homero dos Santos Forte, Paraisópolis. Seria mais uma visita rotineira à biblioteca. Depois de um breve passeio por entre as poucas prateleiras, naquela segunda-feira matinal, um livro caiu sobre mim: “Cuidado: garoto apaixonado!” — o segundo folheado na vida, depois de “Menina bonita do laço de fita” (assunto para outra crônica).

Ainda sem saber que ficção se misturaria com realidade, o título do meu caderlivro foi acidentalmente inspirado na obra homônima, publicada em 1994 pelo escritor Tony Brandão.

Na história, o protagonista Tuí era um pré-adolescente tímido e inteligente que se apaixonava, no primeiro dia de aula, por Camila, a menina de boné e batom vermelho.

Um ano depois de imergir naquela narrativa juvenil, coincidentemente tendo a mesma idade do personagem — 11 anos — , eu parecia ser o Tuí da vida real, e a Maria, Camila, como se a história ficcional do livro que nunca devolvi tivesse saído da biblioteca para o pátio da escola.

Acelera para 2006 — Povoado Cavada 2, Bahia. Enquanto atendia um ou outro cliente no Bar e Mercearia Nova Geração, administrado por mim e minha mãe, Osmilda, as páginas do caderno Cobra D’Água recebiam seus primeiros versos:

“Eu e a Maria nos conhecemos aproximadamente lá pro dia 3 de março de 2000. Ela estudava em outro colégio e foi transferida ao que eu estudava, aliás ela sempre estudou naquele colégio, fez o primário todo, então ela se apegou demais, então ela retornou e ficou justamente na minha sala (…) No recreio, eu mal a conhecia e ela chegou me enxendo de elogios. Fiquei boqueaberto, espantado a princípio. A partir daquele momento fomos nos conhecendo melhor.”
Páginas 4 e 5

Logo na segunda página do caderno, após a apresentação sobre o autor (já com 16 anos), existe uma foto da Maria ao lado de duas amigas no aniversário de uma delas. Colada em meio a uma moldura amarela, uma seta aponta para a protagonista.

Na página seguinte, uma breve biografia sobre a Maria foi descrita sob os dizeres “Quem é ela?” — recortados de um livro didático velho — revelando informações como nome completo, idade e cidade natal, sem deixar de lado aspectos subjetivos como “principais qualidades”: “sinceridade, fidelidade, simpatia…”.

Páginas 2 e 3 do caderno
“Por a Maria ser uma aluna inteligentíssima, algo que foi logo percebido no primeiro dia de aula, eu a convidei para fazer trabalhos escolares juntos — eu também era estudioso. O pimeiro foi de português: Creme Dental Beijo Gelado. Era para fazermos uma propaganda. Esta acima fui eu quem fiz e ela: Sabão em Pó Espuma. Ficaram ótimos. Depois fizemos uma televisão de papelão e colocamos vários produtos. Enfim, são inúmeros os trabalhos que foram feitos com muitas risadas e curtição.’

No tema seguinte, “O amor é o grande tema”, eis um dos grandes momentos daquele contato que acabava de acontecer:

“A cada dia aquela menina-mulher estava despertando algo novo em mim. Foi então que timidamente eu mandei para ela uma cartinha dizendo que eu estava gostando muito dela e que se os sentimentos fossem iguais, que ela não olhasse para nossas diferentes físicas e sim o coração. Mas para minha tristeza, a Maria disse que não dava, que me via como amigo.”

Anacrônico, os acontecimentos contidos no caderno seguem por meio de linhas e figuras e músicas e poemas que poderiam, caso fosse um blog, ser hiperlinks que, a qualquer tópico, seria possível voltar, a cada folheada, para a história central.

Há de tudo: cartas recebidas pela Maria, cartas não enviadas, poemas autorais e até músicas que embalaram aquela primeira história amorosa.

Morando nos confins de um povoado baiano com cerca de 200 famílias, o jovem Vagner de 16 anos poderia não ter escrito as 91 páginas por um simples motivo: caso houvesse acesso à internet — uma raridade até mesmo para quem vivia na cidade.

Esta relíquia literária, embora perdida entre outras bugingangas, já me acompanha há 13 anos, quando a última linha foi escrita em 16 de janeiro de 2004.

O caderno seria uma forma de vomitar, ou simplesmente sumarizar, aquele primeiro amor, que perdurava havia seis anos sem sequer um beijo roubado. Embora não tivesse sido feito excluivamente para ela, alguns meses mais tarde, ele chegou às mãos da Maria, sob uma condição: que ele me fosse devolvido assim que nos reencontrassemos — o que aconteceu dois anos depois.

Atualmente Maria continua “aparecida” em minha vida. Vez ou outra nos encontramos em Paraisópolis, de onde ela nunca saiu. Ela não se tornou engenheira — como previsto nos tempos de escola — , mas dona do “Forró da Juliana”, a principal casa de forró da comunidade.

Depois dela outras paixões — sem cadernos — apareceram, metaforizadas em “rosas” ou “caetanos”, apenas contadas em crônicas perdidas em blogs não atualizados ou em pastas desorganizadas do meu computador.

Um salve, um beijo e até já!

Vagner de Alencar

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