Minha mãe, rainha do lar e do bilhar

Milda cuidava da casa, do bar, e venceu o machismo para ser a dama da sinuca

No ranking dos dez irmãos Osmilda assumia a segunda posição, à frente de Salete e atrás de Erocilma.

Ainda na adolescência, ela se desdobrava desde a labuta da limpeza diária da casa e da louça que alimentava tantas bocas ao comando do bar aberto comandado por seu pai.

Apesar do machismo arrotado com o mesmo amargor das cachaças temperadas, Milda atravessou o balcão do boteco sem nome para desafiar a clientela majoritariamente masculina. Não no discurso feminista que tampouco sabia que tinha. Mas no taco. Na mesa de bilhar.

Ela continuava tendo de por a mesa do almoço e da janta. Só que agora ninguém conseguia tirá-la de outra. Milda se tornou a número 1 da sinuca.

A cada bola encaçapada com maestria por suas mãos sujas de giz branco, ora azul, Milda calava a boca dos marmanjos, abortando o possível brado retrógrado.

Pela época e lugar, se não poderia se despir do rótulo de menina do lar, ela foi capaz se livrar do “recatada”, já que o bela era indescutível.

Alcançou a maioridade com o título de rainha da sinuca — ou do “esnuque”, como preferiam dizer alguns jogadores malsucedidos.

E lá estava ela. Segurava o taco de sinuca, na altura do quadril, com a mão dominante. Firme, mirava a bola branca que deveria atingir as outras, pares ou ímpares, a depender do arremate da primeira.

Dedos polegar e indicador, médio para controlar a potência do taco, e pronto. Bola pra dentro, descendo pela gaveta rumo à gaveta no meio da mesa — ou da banca, como apelidavam outros jogadores.

A outra mão, sem dedos, apoiava a ponta. Sim, Milda não tinha os dedos da mão esquerda. Nenhum. Todos eles foram perdidos ainda quando ela um bebê, numa fogueira.

Embora a escondesse de fotos e em determinados lugares, não havia timidez que impedisse Milda de atirar, com força, nas bolas mais distantes, e com leveza naquelas que precisavam de jeito. Um “trisca” era o suficiente para se chegar à boca — ou à caçapa. O corpo magro alinhava-se à bola, no controle da mira, sempre preciso.

E preciso dizer o quanto me gabei de dizer aos amigos das habilidades de minha mãe. Descrentes, achavam que era lorota. Mas parente nenhum deixava de confirmar aquela história, tampouco Milda.

Acanhada, quando não com sorriso no canto dos lábios, orgulhosa de si, ela assegurava o coroamento, voltando, sem dúvida, àquele tempo juvenil na roça. Ao seu passado de rainha.

Um beijo, um salve e até já!
Vagner de Alencar

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