Mary Robinson: ninguém será deixado para trás ❤

Com a citação de Cornel West, “não posso ser otimista, mas sou um prisioneiro da esperança”, Mary Robinson encerrou sua participação no “Fronteiras do Pensamento”, semana passada, em São Paulo.

Eu queria tanto ir, mas tanto ir nesse evento — e não achei ingressos, estavam esgotados - que o universo me ouviu e uma amiga muito querida me escreveu perguntando se eu não queria dois que estavam sobrando! ❤

Se pudesse resumir em uma linha a uma hora e meia de aula sobre justiça climática, o tema seria “ninguém será deixado para trás”. A primeira presidenta da Irlanda, e uma das maiores referências em ajuda humanitária globalmente compartilhou no evento algumas de suas reflexões. Se você nunca ouviu falar dela, melhor começar por esse TED.

Antes de tudo, eu não sou da área ambiental, portanto me desculpem por qualquer equívoco profundo. Mas a meu ver, o grande tema da justiça climática diz respeito aos impactos profundos que serão impostos à vida de milhões de pessoas e de forma absolutamente desigual. O tema me interessa particularmente porque os desafios trazidos pela mudança de clima vão muito além das desigualdades de renda e oportunidades que já temos — e envolverão, por exemplo, a necessidade de mover uma população inteira de um local para outro, ou a impossibilidade de produzir alimentos em outros locais.

Quero destacar os 5 principais pontos que me tiraram o sono:

  1. A nossa mentalidade para tratar de problemas complexos precisa de um salto quântico quando o assunto é justiça climática. Segundo Robinson, os acordos em Paris no ano passado foram ousados o suficiente para de fato colocar a humanidade num novo trilho — desde que sejam cumpridos. Nosso desafio não é só de legislação, financiamento e novas tecnologias, mas também de disseminação das informações e principalmente, de criar uma articulação capaz em nos fazer alcançar as metas de clima estabelecidas na COP21. Precisamos de uma mentalidade mais plural num momento em que estamos vivendo enormes e profundas crises políticas e religiosas.
  2. Dividir equitativamente o impacto das mudanças climáticas é um desafio global. Os povos de países menos desenvolvidos que serão afetados pelo consumo de países mais desenvolvidos não podem arcar com esse custo. Precisamos de uma nova frente de finanças (destacadas na COP21 como climate finance, totalmente focadas em mecanismos para financiar, mensurar e apoiar as transições globais de populações por conta do clima), porque o mundo não é plano em suas temperaturas, e precisamos dividir globalmente o custo das mudanças radicais que teremos que fazer.
  3. Nunca, na história da humanidade, tivemos que lidar com a necessidade de levar uma população para fora da pobreza SEM utilizar combustíveis fósseis. E esse será MAIS UM desafio. Somos mais e mais desiguais e agora temos a limitação do clima para repensar como vamos avançar sem as mesmas técnicas que tínhamos até o momento.
  4. O tema que ronda o setor social atualmente é a resiliência coletiva, e esse é o valor chave para comunidades darem conta dos desafios climáticos que vamos enfrentar. Segundo Robinson, comunidades que já viveram escassez de água, ou inundações, ou grandes traumas climáticos estão mais preparadas e precisam disseminar seu conhecimento. (Prometo um post sobre resiliência com apoio de uma especialista muito especial!).
  5. Um dos grandes pontos de atenção que Robinson destacou foi o de lidar com tantos desafios sem deixar de lado os avanços que tivemos (e que ainda temos pela frente) com os direitos humanos e a igualdade de gênero. Uma corrida contra o relógio que envolve uma meta muito ousada traz em si o risco de tirar o ser humano do centro — e isso não seria a melhor forma de atingir a meta, segundo ela. Poderia trazer mais danos que benefícios.

Me senti tão honrada de poder presenciar esse tempo tão inspirador com essa grande referência — não só pelos aprendizados listados, como pelo seu entusiasmo e a energia com que falava, no auge dos seus setenta anos. Trabalhar para um mundo melhor num momento como o que estamos vivendo precisa de muito entusiasmo, muita energia e uma dose boa de loucura.