TEXTÃO
Hoje, é preciso pedir “desculpa” ao escrever um texto longo. Estamos numa quase completa escuridão, e para ver os planos mais fundos, somente uma lanterna. Essa luz direcionada usamos para um “textão”.
O preludio anuncia: “Senta, que vai ter textão!”, “Aguenta que vai ter textão!”. “Tem textão aí”!
Combo: Interjeição e culpa”.
A cultura americana, tendo como exemplo o Twitter e seus cento e quarenta caracteres, é a representante mais próxima da contemporaneidade, fez e faz uma ode à síntese. A capacidade de ser conciso é louvável, sem dúvida, mas não acredito na supremacia de um estilo. Sinto falta, muitas vezes, da famosa dialética. Aparentemente, o exercício da tese e da antítese vem se atrofiando.

Carecemos de exercitar o músculo do texto, não do pejorativo “textão”, mas da democracia dos gêneros literários e do diálogo coloquial. Há espaço para todos. E esse é o que permite a expressão em todas as suas formas, simplesmente, porque somos, paradoxalmente, iguais e diferentes em nossa condição humana.

O tempo é algoz, para muitos, e o imperativo da volatilidade é inegável. Não é permitido nada que se possa aprofundar, pois se considera “perda”, por isso a “culpa” e a “des-culpa”.
Lembro que num curso fui querer explicar meu ponto-de-vista, quando uma moça lá na frente vira e diz: “aí você já está sendo muito profunda”. Fui repreendida por querer ir um pouco além daquilo que me parecia superficial, ausente de ponderações.
Vejamos os relacionamentos, no geral. Não há “tempo” para conhecer o outro, é preciso se entregar aos devaneios de cara. Não estou dizendo que seja condenável essa entrega direta.

Meu ponto é outro. É como uma viagem na qual você vai à Índia, adentra os portões do Taj-Majal, sequer visita ou lê sobre, somente se preocupa em fotografar freneticamente da entrada. Depois dessa energia intensa e focada, a percepção é de que não há nada mais a ser feito a não ser voltar ao hotel, ao aeroporto, a casa. Queremos o prazer imediato e esquecemos do “estar presente” naquele lugar, naquele momento, com a natureza, seja ela no sentido mais amplo ou mais restrito, neste último, a natureza humana. A oportunidade, então, subitamente passa de contemplarmos o que vemos, ouvimos e sentimos.

Aí vem o vazio. O esquema do nosso conhecido consumismo.
http://www.urso.tv/2015/08/12-ilustracoes-criticas-e-curiosidades-sobre-o-consumo.html?m=1
São picos de contentamento entremeados de curto espaço de tempo, até não existir nada que seja consumido, e a constatação de que fomos engolidos pelo desejo dessa euforia passageira e a dependência de paroxismos contínuos até nos darmos conta que algo está esquisito.
Nesse momento, no qual se dá o fenômeno de estranhamento, irrompe a consciência de que não é sustentável viver assim, pelo simples fato de que falta nos conectarmos e nutrirmos as relações para ter mais estados de satisfação que se tornem duradouros.
É só vermos o processo da semente até dar o fruto ou até o desabrochar da flor. Então, perseguimos o adiantamento de etapas e tendemos a pensar binariamente, quando está evidente que, como nas relações, a leitura tem um tempo para digerirmos ideias, fazer contra-pontos, relativizar. Um texto pode não ser expresso em poucos caracteres. Dessa forma, não é necessário o anúncio de que será mais longo que um parágrafo, embora a carga cultural seja pesada.