OS PROTESTOS CONTRA O GOVERNO E A QUESTÃO IMAGÉTICA.

Crédito Imagem: desconhecido.

Uma das imagens mais polêmicas, e que se tornou viral na internet, durante os protestos contra o governo Dilma no dia Quinze de Março de 2016, foi a foto de um casal com dois filhos, todos vestidos de verde e amarelo, com uma babá negra levando os filhos num carrinho e a mãe, o cachorro. A imagem, feita no Rio de Janeiro, foi compartilhada no Facebook e ganhou milhares de comentários críticos, que se referiam a um perfil elitista do protesto.

Vários foram os pontos levantados a partir da foto, desde a exposição do casal, filhos e babá, a escuta do patrão e não da funcionária, até o porquê de se levantar esta questão. Depois houve reportagem da babá falando sobre como se sentia. Achei interessante os relatos, mas a imagem, sem dúvida, gera uma reflexão pertinente.


A imagem é simbólica e a pergunta central reside no que o Brasil representa.


A pergunta não é se:

  • a baba perderá o emprego, ou;
  • se fosse uma patroa negra, ou;
  • se ela própria acha que está fazendo algo digno, ou;
  • se o patrão está pagando um trabalho regulamentado, ou;
  • se cada um tem o direito de contratar quem quiser (óbvio a liberdade existe e é legítima).

Se você faz essas perguntas terminará por ter respostas parciais, superficiais, sem levar em conta a complexidade do ecossistema.


O cerne da questão é o retrocesso social no REGISTRO DA IMAGEM. Isso choca.


O Brasil ainda é desigual, as classes gritam, há uma diferença dantesca revelada no pagamento desse tipo de mão-de-obra.

O contigente para este tipo de trabalho, em sua maioria, é negro porque os negros viveram como escravos séculos e, socialmente, não houve avanço para incluí-los na sociedade e as oportunidades para o acesso à educação e ao trabalho sem preconceito. Avançamos a passos de cágados.

Crédito Imagem: desconhecido.

É patético citar casos isolados como o de Glória Maria ou como se a escuta minimizasse o contexto. Está faltando conhecer o Brasil, viajar, explorar as entranhas e perceber o silêncio, o descaso, o esquecimento, a pobreza para poder emitir uma opinião que leve em consideração questões culturais, históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas. Sem analisar sob diferentes perspectivas, desculpe-me, mas qualquer opinião será reducionista.

Sem duvida, A escuta da babá é relevante, mas não creio que seja o cerne como comentei.

Só para ilustrar: é como se eu trabalhasse em condições sub-humanas e fosse extremamente grata porque durante muito tempo fiquei desempregada e sofria de maus tratos em casa, o trabalho passou a ser meu porto-seguro, trazendo estabilidade e certa segurança. Nunca havia entrado em contato com outras realidades. Não me foi. apresentada. Então um dia alguém pergunta (escuta válida) como me sinto e digo que minha vida mudou completamente com essa oportunidade.

Como no filme “O Show de Truman” poderíamos assistir de fora tudo e pensar: nossa mal ela sabe o quanto tem direitos a mais, o quanto pode mais.

E somos nós que temos esse poder de mudar, a priori, com esse fenômeno de estranhamento, depois dialogando com essas pessoas, transformando a realidade a partir de diferentes maneiras.

O discurso é significativo e só reforça o que talvez ela não veja: que exista algo maior.

A relação dela com o patrão pode ser boa, a mãe poderia estar cansada, mas não assistimos a um vídeo, com imagem, voz, e movimento como em condições cinematográficas. Vimos o registro de UMA imagem emblemática sob o ponto-de-vista histórico.


Podemos extrair da imagem a representação de que a desigualdade social ainda é uma realidade.


É só olhar a França, dá para ver claramente o achatamento de classes e todos os impactos que isso traz. Por isso a perplexidade de tantos gringos e graças, de alguns brasileiros.