Quando o desafio da mudança é o desapego.

Valeria Barros
Sep 1, 2018 · 6 min read
Crédito Foto: Desconhecido.

Decidi alugar meu apartamento e me mudar para outro em São Paulo (ainda estou em transição na busca de um novo local) devido as viagens constantes; com clientes em diferentes lugares no Brasil, já não precisava de tanto espaço. E lá no fundo, havia um desejo tímido de um minimalismo material.

A internet, sem dúvida, é uma aliada ao fazer negócios virtualmente e conciliar com o presencial.

Com a movimentação das novas economias: criativa, colaborativa e compartilhada, as possibilidades de existência e gerenciamento dos recursos mudou e fazer uso delas é uma baita saída para grandes desafios atuais, como com o qual me deparei.

Essa mudança, embora tendo sido planejada, foi passível de alguns imprevistos, todos gerenciados no prazo estimado.

Minha carreira como gerente de mudanças e de projetos, me ajudou muito a ter uma visão mais ampla do que se deve considerar para lidar com esses momentos:

  1. Planejamento
  2. Estágios da mudança e sentimentos de cada etapa
  3. Identificação dos atores envolvidos
  4. Estratégia e plano de comunicação
  5. Protótipo
  6. Implementação

mas a cada nova mudança, existem novos aprendizados e a possibilidade de se perceber atuando no caos, no qual as necessidades e motivações são diferentes das que nos levaram a tomar algumas decisões lá atrás, contribui para o se conhecer.

O que mais me impactou recentemente foi o exercício do desapego das coisas que adquiri. Acredito que isso tenha relação com minha geração (X).

Nos anos 90, a inflação era muito alta e o Brasil era visto como um país de crises.

Tendo trabalhado em empresa de bens de consumo, o canal de supermercados e hipermercados era o foco de vendas.

Vi o surgimento da profissionalização dos líderes comerciais para o gerenciamento de contas-chave (Key Account Management) como Pão de Açúcar, Extra, Carrefour, Wal Mart e demais mercados grandes locais, a diferença era a presença de um número grande de caixas (check-outs); nessa época, havia necessidade de estoque, o consumidor se preocupava em abastecer sua casa com compras mensais devido a incerteza do futuro.

Quando o Brasil começou a ter mais estabilidade e a inflação passou a ser mais controlada (algo inimaginável), o foco do consumidor passou a ser o pequeno varejo, as pessoas começaram a comprar semanalmente, em pequenas quantidades. Iniciava-se um novo ciclo para os brasileiros e seus hábitos de consumo.

A maioria dos pais, de jovens das décadas de 90 e de 2000, ansiava que seus filhos e filhas tivessem a estabilidade que não tiveram. O sonho da casa própria era um marco simbólico de que se havia poupado e as finanças tinham sido bem investidas.

A internet começou a ser utilizada e a tecnologia começou a impactar a vida das pessoas bem como a popularização dos celulares, especialmente, motorola. Ficou mais fácil achar e ser achado. Era o prenúncio dos smartphones, da portabilidade e da interatividade.

Outro aspecto importante que considero em termos históricos, foram as conquistas da mulher – a passos lentos – na década de 70, refletidos na década de 90, que lutavam entre outros pontos, pela independência.

Ouvía, nessa ocasião, muitas mães desejarem que suas filhas não dependessem dos maridos. A ideia da independência financeira da mulher deveria ser perseguida com muito trabalho.

E como tantas outras pessoas da minha geração, tive minha casa própria – na casa dos 30.

Trabalhei horrores, viajei para destinos muito diferentes, e cada objeto adquirido na minha casa, foi fruto da relação capital x trabalho, e tinha um significado especial. Consegui atingir alguns dos objetivos que me foi ensinado.

Quanto mais o tempo passa, mais a noção de linearidade é desconstruída, mais noto as tensões e me dou conta de que vivemos ciclos, muitas vezes, múltiplos e concomitantes.

Essa ideia sistêmica e complexa que temos, com cenários análogos como o da biologia e seus ecossistemas, não é fomentada nas escolas. Elas ainda não nos ajudam a pensar e correlacionar o conhecimento formal com o cotidiano.

Aí lá estamos nós, dando nossas cabeçadas para ampliar nossa consciência. De qualquer maneira, essa jornada de descobertas nos ajuda a alargar o pensar, o eterno exercício de construir e desconstruir a realidade.

Voltando ao aluguel, encontrei uma locatária e estabeleci o prazo de um mês (31/08/2018) para entregar o apartamento limpo e vazio. Volto mais tarde ao vazio.

A ideia dessa mudança me deixou angustiada semanas antes de encarar o mês, algo típico de transformações.

Com um histórico rico em mudanças, eu já sabia o que poderia enfrentar, mas eram tantos objetos, que não via saída para o descarte.

Aqui está o nó: como morei em varios lugares, a instabilidade sempre foi minha companheira e parece que meu repertório com todas as experiências estava plasmado naquele lar — referência da minha identidade — figurando como o meu porto-seguro.

A cada dia que avançava no mês, conversando com amigos e observando as novas configurações de mercado com novas economias, eu me questionei sobre o valor de tudo. E passei a vender e doar o que tinha na minha casa (já tinha feito isso antes), mas agora foi algo divertido e cheio de conexão.

Eu só pensava o que fazer com aqueles objetos que faziam parte da minha trajetória – seriam uma extensão de mim? O fato é que conheci pessoas muito interessantes que buscavam algo que nos unia sem jamais imaginar.

O processo foi meio que orgânico.

Comecei a desmistificar toda representação que havia dado e o que queria para o futuro. Quando a gente passa pelo luto, tem uma fase de ressignificar as experiências, e me vi mais conectada com o presente.

Como estou em transição, fiz uso de guarda-moveis, como decisão temporária até encontrar um novo “lugar”.

Esse estado de suspensão no qual não tenho um local ainda definitivo me rende muitos questionamentos que me ajudam a refinar o que estou vivendo, uma espécie de nômade digital.

Os millennials não tem o dilema dos bens, da aquisição, mas da valorização da experiência, já nasceram com outros questionamentos típicos da geração que vivem: a busca pela felicidade, de um propósito, do fazer o que ama e escolher – tarefa difícil – as tantas ofertas, facilitadas pelo amplo acesso a informação.

E se falarmos na geração Z, que nasceu no século 21, há até uma “certa” correlação com a geração X, alguma ligação, mas ainda assim novas características.

Segundo pesquisa da Consumoteca Lab, a geração, por eles chamada, “control Z”, revela insights interessantes:

Fonte: Consumoteca Lab.

Vai vendo.

Fonte: Consumoteca Lab.

“O sucesso precisa ser já.” Vemos a velocidade da informação determinando a cadência da mudança e sua relação com a temporalidade.

Fonte: Consumoteca Lab.

Em ordem cronológica:

  1. X: satisfação financeira
  2. Y: realização pessoal
  3. Z: meio do caminho entre satisfação financeira e realização pessoal.
Fonte: Consumoteca Lab.

Aqui há uma ideia mais ampla de “aquisição”, diferente da X – mais focada em bens.

Fonte: Consumoteca Lab.

Então, quando vemos esses desejos e comportamentos de cada época, penso que o que nos une a todos, de diferentes idades e gerações é a condição humana.

Aquele vazio a que me referi, próprio do estágio das mudanças, é o lugar do encontro, que todos sentimos de perda, para preenchermos cada um a seu tempo, com novas imagens, interpretações e vivências.

Refletir sobre as mudanças que passamos a luz da história é algo potente para nos conectarmos com o que está acontecendo no país e no mundo. E o apego não se resume a bens materiais, podemos refletir também sobre o apego a ideias, pessoas, relações. Bem como, o desperdício. Quanto o apego e o uso sem proveito são entraves para o novo, para que haja fluxo e vivência de algo desconhecido e mais conectado com o agora?

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