Viejo es el viento, todavía sigue soplando

Andei um tanto por esse mundo. Menos que queria, mas muito mais que a maioria. Em algumas terras, fui estrangeira e estranha; em outras, fui do povo, local, como se tivesse ali crescido e casado e tido filhos e plantado uma árvore em um terreiro atrás de casa. Esse sentimento de pertencer que encanta a vida de quem está em outras terras.

Em alguns desses lugares deixei pedaços de minha alma, de meu coração e integrei em mim costumes da terra, carregando pelo resto da vida aquele lugar comigo. Em outros, o local foi que me deu um vislumbre de sua sabedoria ou costume que me deixou sem fala. Também carrego esses entalhados na lembrança.

Em um dia de sol forte na América Central, ao me ver cansada e suada, uma senhora, vendendo não me lembro mais o quê, me sorriu. Comentei que estava velha para tantas andanças. Ela me respondeu: Viejo es el viento, y todavía sigue soplando. Verdade. Abri-lhe um sorriso ensolarado que foi plenamente retribuído e me fui ventando, todavía vieja, mas también ventando.

Em outra ocasião, em uma ilha do Atlântico Norte, em uma cidade de ruas não lineares, pedras escorregadias e fajãs a subir, um amigo, ligeiramente perdido, perguntou a um guarda entediado qual a direção da água porque queria muito molhar os pés. O homem olhou-o com estranheza da lógica tão óbvia em sua frente e que ninguém entendia e disse-lhe em tom intrigado, fazendo um círculo grande com as mãos: Ora, a água está em todo o lugar, estás numa ilha! Claro que sim, como não percebemos! E também aprendi que perguntas feitas nas ilhas devem ser cuidadosamente construídas dentro da lógica dos ilhéus. Olhar o horizonte ao longe todo dia na prisão com cercas de água lhes confere uma perspectiva única, uma resignação típica dos que ficam. Ilhéus ficam. Mesmo que não seja em ilhas.

Carrego, também, comigo as línguas que ouvi. A mágica da primeira palavra em língua estrangeira ainda me assombra e extasia, assim como reconhecer meu povo na fala mesma, mas com sotaque diverso. Que delícia ouvir minha língua portuguesa com sotaques de terras além mar! Que delícia ouvir a brisa das ilhas, a saudade e o atabaque ancestral na minha língua portuguesa!

A mezcolanza que nos tornamos ao andarmos por outras terras e ouvirmos outras línguas e misturarmos costumes e ideias é trazermos ele mesmo, o mundo, dentro de nós permanentemente e pertencermos a ele em todos os lugares sem sermos estrangeiros.

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