O ciclo vicioso da irresponsabilidade afetiva

(imagem: autor desconhecido)

Começa assim. Você entra na adolescência e começa sua trajetória de paquerinhas e namoros. Até que, em uma dessas experiências, alguém vacila muito feio com você. Te magoa, te rebaixa, te trai, te humilha, é abusivo e/ou algo do tipo. Ou, num caso onde não houve traição e abuso, você tenta manter a amizade e a pessoa te ignora completamente, diz que nem isso quer, você se torna um nada pra alguém pra quem era tão especial. Fica nítido que não havia respeito ou consideração, apenas interesse.

Claro que às vezes acontece um distanciamento, mas você consegue ter uma conversa íntima sempre que encontra a pessoa na rua, mesmo que anos tenham se passado. Nutre carinho e respeito mesmo que passem anos sem falar. Não falo desse distanciamento natural, mas do que evita, ignora, machuca.

Daí um tempo se passa, você cresce, se “cura”, relaciona-se com outra ou outras pessoa(s), e mais uma vez te machucam ou te ignoram depois de uma relação na qual se dizia existir respeito, amor, consideração. Isso acaba te tornando frio, isso todos sabemos, mas o que não se discute é que, além da frieza, passar por essas decepções mais de uma vez acaba por te tornar tão cretino quanto quem te machucou. E daí você passa de oprimido a opressor. De vítima a algoz. Passa a reproduzir o mesmo tipo de comportamento abusivo ou desumano que cometeram com você. Mas somente se não se autovigiar.

Quantas pessoas legais conhecemos que, de repente, passam a ter esse tipo de conduta? Não falo apenas em agir assim depois de relações, mas mesmo com pessoas que você mal conhece. Para dar um fora em alguém, mesmo em alguém com quem você nunca teve nada, não é necessário ser uma pessoa escrota (não achei palavra melhor), humilhar, ignorar (a não ser que o indivíduo passe a ter um comportamento maníaco/patológico/desrespeitoso atrás de você), gerar problemas na auto-estima alheia.

É importante que nos vigiemos em nossa evolução pessoal. Quem estamos nos tornando? Estamos machucando pessoas, fazendo o mal, gerando traumas em alguém só porque fizeram conosco? É pra isso que viemos ao mundo? Vou fazer a mesma coisa que tanto critiquei? “Ah, sou humano, erro também”. E será que o erro não foi proposital? “Vou machucar um pouco, assim fizeram comigo”. “Cansei de ser bonzinho, vou arrasar corações agora”. Existe essa consciência, mas lá no fundinho, de que você está fazendo uma coisa que é errada. É de suma importância então que nos auto-avaliemos porque sabemos, mais que ninguém, o quanto dói passar por isso. E não, não queremos perpetuar esse ciclo, queremos gerar empatia. Queremos ter responsabilidade afetiva, assim como queremos que tenham conosco. É aquela velha frase sobre educação, mas que aqui se aplica ao amor: “quando a educação não é libertadora, “o sonho do oprimido é ser o opressor”.

Valéria Sotão