Entenda a mente de Dan Torrance, de O Iluminado e Doutor Sono | Vá Ler Um Livro

Recado importante: a análise psicológica de personagens é um conteúdo feito apenas para saciar a curiosidade de conhecer mais sobre a psicologia, uma vez que são personagens fictícios e eu não tenho acesso à sua história de vida completa.

Na psicanálise, o termo utilizado para este tipo de análise é chamado de “sonhar o paciente”. Fazendo alusão aos nossos sonhos, que são muito importantes em uma análise, no nosso caso usarei o termo “sonhando o personagem”.

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DO ENREDO DE DOUTOR SONO

Doutor Sono é a continuação do famoso livro O Iluminado do Stephen King. Em ambos os livros, temos como personagem principal Dan Torrance. Em O Iluminado, Danny é um menino com o dom da iluminação e este dom persiste em Doutor Sono, porém com menor intensidade. Dan trabalha como enfermeiro e utiliza seus dons para ajudar os pacientes.

Dan Torrance é filho único do casal Wendy e Jack. Wendy aparenta ser uma mãe amorosa e Jack demonstra ser um profissional frustrado que desconta suas frustrações na bebida. Além disso, Jack sofria com agressões do pai quando era criança, o que provavelmente foi a raiz do seu consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

O Iluminado

Quando algo não foi resolvido no nosso psiquismo, tendemos a repeti-lo até conseguirmos resolver em nosso inconsciente. Provavelmente, Jack não resolveu suas questões com o seu pai em relação à agressividade e repetiu o comportamento, à princípio inconsciente, com seu filho Danny. Interessante, né?

Em Doutor Sono, conhecemos os desdobramentos decorrentes dos fatos acontecidos no primeiro livro. Dan acaba se tornando alcoolista como seu pai e em diversos momentos do livro esta dependência física e mental é retratada. Ele não consegue ficar muito tempo sem beber, usa a bebida para relaxar quando está muito nervoso e chega a roubar para conseguir dinheiro para comprar bebidas. Neste momento, ele considera que chegou ao fundo do poço.

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A bebida para Dan era o meio de lidar com o seu passado, um pai que era alcoolista e muito agressivo, os fantasmas de Overlook. Claro que não é a estratégia mais saudável de enfrentamento, mas provavelmente esta foi a única saída que ele encontrou no momento para lidar com suas emoções.

“A mente era um quadro-negro. E a bebida, o apagador.”

Li uma resenha sobre o livro em que a pessoa ficou muito decepcionada em ler que Danny tinha seguido o mesmo caminho do pai em relação às bebidas, “Como que ele não teria aprendido com os erros de Jack?”

A questão é que não é nada fácil crescer em um lar que está disfuncional. Apesar de Wendy demonstrar ser uma mãe amorosa e cuidadora, o alcoolismo de Jack acabou adoecendo a família inteira.

“Não, querido. Talvez você possa guardar as coisas do Overlook trancadas em cofres, mas não recordações. Essas nunca. Elas são os verdadeiros fantasmas.”

A Transgeracionalidade (um palavrão, eu sei) é o como se fosse o legado da família, aquilo que é passado de geração em geração de maneira inconsciente. O legado dos Torrance acabou sendo a maneira disfuncional de lidar com as situações. Dan se render à bebida e se tornar um viciado não foi algo surpreendente.

Outro ponto característico da história de Dan é a compulsão à repetição, uma vez que ele repete constantemente o comportamento de beber para, inconscientemente, resolver o que passou, até o momento que teve o insight, quando caiu a ficha, de que estava repetindo um comportamento do seu pai.

“Uma hora se percebe que não adianta ficar mudando de lugar. Que você se leva para onde for.”

Depois do primeiro dia em seu novo emprego, Dan sentiu uma vontade absurda de beber, neste momento ele se dá conta do quanto estava doente e de que precisava de ajuda. Então seu chefe o leva ao AA (Alcoólicos Anônimos). Neste momento, quando ele se dá conta, o inconsciente se torna consciente e ele consegue sair do ciclo vicioso da repetição.

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Romper com a transgeracionalidade e a compulsão à repetição não é fácil, exige muito esforço e coragem para sair de uma zona de conforto, mas o primeiro passo é sempre perceber o comportamento disfuncional. Desta forma, Dan Torrance, com a ajuda de uma rede de apoio de amigos e do AA, chega ao final do livro comemorando 15 anos sem beber.

Esse texto foi escrito por Cristiele Rodrigues. Quer conhecer mais o trabalho dela? Conheça o canal Senta no Divã

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