Narração esportiva

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Narração é a forma de expressão utilizada para contar algum fato ou acontecimento. Narrar é, por exemplo, contar a um amigo o que fizemos durante o dia, ou, numa reunião, falar do que aconteceu em uma viagem, ou, ainda, relatar um fato extraordinário, fruto da imaginação. Sempre que uma pessoa fala ou escreve com a intenção de contar algo que aconteceu a ela ou a outras pessoas, constrói-se um texto narrativo. Os fatos contados podem ser relatados através de textos ou mesmo através das mais variadas mídias faladas, eles podem também ser reais, como ocorre em notícias de jornais, relatos históricos e websites, ou fictícios, como nos mitos, nas lendas, nos contos e nos romances. Narrar é, portanto, contar fatos reais ou fictícios que são protagonizados por diferentes personagens. Qualquer pessoa que tenha vontade de contar algo, e o fazer, pode ser considerada um narrador. Se você contar um fato de uma partida de futebol, de certa forma, será um narrador esportivo. Mas então, qual a diferença entre uma história contada em casa, e a história contada por um profissional do ramo?

Uma história contada em casa, pode ser interpretada de diferentes formas. Quem conta um fato, geralmente usa de diversas artimanhas para fazer com que o receptor do assunto entenda e sinta o que o comunicador está passando. Quando um profissional de rádio, por exemplo, relata o que está acontecendo na partida em questão, ele faz com que o receptor sinta e viva, mesmo sem estar vendo, todas as emoções que o jogo está passando. Para realizar isto, ele usa diversas ferramentas vocais para passar seus sentimentos.

Dado que uma narração é o relato de um acontecimento, qualquer informação ou transmissão de uma competição esportiva pode ser chamada de uma narração. Para realizar-se transmissões dos mais variados tipos de esportes, reúne-se uma equipe de narração para repassar as informações e entreter o público alvo, seja ele de qualquer idade ou gênero, mas que busquem saber sobre o mundo esportivo e terem um momento de lazer com este tema esportivo. Este ato já vem se difundindo desde meados de 1930, quando Nicolau Tuma fez a primeira narração de uma partida de futebol.

Para construir uma boa narração, deve-se levar em conta as seguintes recomendações:

Procurar fazer com que os eventos contados captem o interesse dos receptores. Isso se consegue facilmente quando os eventos em si são interessantes por serem pouco comuns ou extraordinários;

O relato deve ser feito de forma com que o receptor consiga entender o que está acontecendo e sentir, de certa forma, as mesmas emoções que sentiria se estivesse presente no local do evento;

Também se pode atingir o mesmo objetivo apresentando fatos comuns de maneira atraente, criando mistério, suspense ou introduzindo elementos surpreendentes, por exemplo;

Seguir sempre uma ordem estabelecida que permita ao receptor compreender facilmente o relato. No início, até que se adquira destreza narrativa, deve-se procurar ajustá-lo à ordem linear: início, desenvolvimento e desenlace.

Ao montar-se uma equipe, dotada de narrador, comentaristas, repórteres de campo, plantão de informação além de técnicos de áudio e vídeo, transmite-se na mídia através de streams, TV’s, rádios e redes sociais, os períodos de pré-jornadas esportivas, a partida do esporte em questão e as avaliações da competição após a mesma ter se encerrado.

Cada membro da equipe tem sua função específica sendo, na maioria das vezes, especialista no que ele realiza. As funções mais basicas para uma transmissão são:

· Narrador: Responsável por relatar os fatos e dar-lhes os mais ricos detalhes, fazendo com que o receptor (público) sinta as emoções que o esporte pode oferecer;

· Comentarista: Sabe-se que para se contar uma história, e para ter-se certeza das veracidade dos fatos, é sempre bom ter uma segunda versão dos fatos. Esta é a função de um comentarista. Quando o narrador conta uma cena marcante e que emociona de uma forma mais intensa o ouvinte, ele pede a opinião do comentarista, para que seja feita uma avaliação mais calma e detalhada do que aconteceu enriquecendo ainda mais a narração.

· Repórteres de Campo: Seguindo a mesma linha de raciocínio, e buscando ter um terceiro ponto de vista, o repórter de campo busca saber a opinião dos próprios competidores e dirigentes.

· Técnicos de áudio e vídeo: Para ser possível transmitir ao público as informações, uma vasta gama de equipamentos e acessórios são utilizados, e para que isso ocorra de forma “perfeita”, os técnicos de mídia são responsáveis por cuidar, montar e desmontar os equipamentos.

Sendo os mais variados tipos de esportes, os locais selecionados podem ser campeonatos, tanto locais ou mundiais, em estádios, pistas, ruas, quadras ou campos abertos. As informações podem ser repassadas através de vídeo/áudio em tempo real, ou até mesmo após a competição, para que o público possa rever as informações que foram repassadas e também rever as mais diversas emoções que o esporte em questão pode proporcionar.

A relação entre O futebol e o rádio é registrada desde o início da implantação desse veículo de comunicação no Brasil, por volta da década de 1920. Aos poucos, ela foi se estreitando e hoje as transmissões de futebol são uma realidade em, praticamente, todas as emissoras instaladas no país. O torcedor encontra no rádio a possibilidade de acompanhar as partidas do clube pelo qual tem simpatia e, em muitos casos, verdadeira paixão. Em busca de cativar esse ouvinte, que, antes de tudo, é um torcedor, as emissoras apostam em jornadas esportivas que criem antes, durante e depois dos jogos emoções suficientes para que esse ouvinte/torcedor permaneça sintonizado nessa emissora. Nesse sentido, o ouvinte/torcedor passa a ser um interlocutor que desempenha um papel social nessa jornada. Sendo o rádio um meio de comunicação, observa-se que existe um bom número de publicações que aborda sua estrutura, sua linguagem, mas que pouco espaço dedica às transmissões esportivas. No caso do futebol, a situação é semelhante, pois ao tratarem do tema, nem sempre as publicações dedicam atenção à forma como esse esporte chega até a massa de torcedores que lota os estádios, por todo o país. Diante dessas duas situações, encontramos espaço para discutir a linguagem utilizada por esse veículo de comunicação no momento da transmissão de uma partida de futebol.

A análise da linguagem é essencial, desde seus conceitos ligados diretamente ao veículo rádio, como sua forma particular de ordenar frases e palavras, até a utilização de ferramentas que contribuem para a formação da mensagem radiofônica. Entre essas ferramentas estão as frases curtas, os verbos de ação, os efeitos sonoros, a maneira como ocorre a participação dos membros das equipes esportiva.

Os sujeitos da narração esportiva têm sua participação analisada, a partir figura do narrador, que é o “comandante” de toda a jornada realizada durante a transmissão de uma partida de futebol. Fala-se de sujeitos porque, ao tratar esse esporte, devem ser considerados os conceitos ideológicos, já que o ouvinte, nesse caso ocupando a posição de interlocutor, é, via de regra, um torcedor, que fez, ainda na infância, a escolha por um time, que é comumente chamado de “clube o coração”, por exemplo.

O esporte no rádio respeita as características básicas do veículo ao levar ao ouvinte os acontecimentos no momento em que eles ocorrem, direto das praças esportivas. Assim como em qualquer outro programa, o ouvinte, que liga o rádio em busca da informação esportiva, quer precisão e rapidez na divulgação dos acontecimentos. Porchat (1989) explica o que espera o público que acompanha uma transmissão esportiva pelo rádio e qual o papel do locutor nesse processo.

A relação entre esporte e rádio começou ainda na década de 1920, mas se firmou na década seguinte, 1930, com as primeiras transmissões esportivas, o que é considerado, por muitos, fator importante para transformar o futebol em esporte de massa. Soares (1984), no livro “A Bola no Ar”, aborda a história da transmissão esportiva, principalmente em São Paulo, mostrando como o esporte e o rádio se relacionaram, ao longo das últimas oito décadas. Muita polêmica cerca o início das transmissões esportivas pelo rádio. O pioneirismo de Nicolau Tuma é questionado por alguns autores. Seu pioneirismo é atestado por Soares pelo fato de ter sido o primeiro a ter realizado uma transmissão completa, dos 90 minutos de jogo, dando ao trabalho muito próximo do que é realizado hoje, no acompanhamento direto das jogadas, em um ritmo mais acelerado e na tentativa de passar a emoção dos acontecimentos em campo. Leopoldo Sant’Anna, em 1924, e Amador Santos, em 1927, são alguns dos narradores citados como antecessores de Tuma e verdadeiros pioneiros da transmissão esportiva no rádio. No entanto, as informações são tidas por muitos como contraditórias e a versão sobre Nicolau Tuma é a considerada a mais verdadeira.Com o investimento das emissoras na diversidade de sua programação, novos produtos começaram a surgir e o esporte foi se tornando cada vez mais interessante como forma de atrair ouvintes e patrocinadores. A força do esporte no rádio se ratifica ao se considerar que, dos produtos criados logo no início da implantação da radiodifusão, como as radionovelas e os programas de auditório, é o único que ainda resiste, e com grande força.

Um aspecto citado por Soares (1994, p.26) como fator importante para o fortalecimento do esporte no rádio é o momento político e social do período de consolidação do rádio no Brasil, a década de 1930. A autocensura foi instituída, com possibilidade de cassação da concessão das emissoras que se colocassem contra um governo que atravessava uma crise e tinha na imprensa um grande obstáculo para a manutenção do poder; o veículo que tinha necessidade de se firmar junto à sociedade e o futebol, um esporte que também se profissionalizava e necessitava de grandes públicos nos estádios, para uma arrecadação que permitisse bancar os custos (SOARES, 1994). Em 1938, há o registro da iniciativa de formação de um dos primeiros pools de emissoras para uma transmissão esportiva. Segundo Milton Jung, a preocupação do governo com as consequências que isso poderia causar, entre elas o fortalecimento das emissoras e uma possível utilização da rede para disseminação de ideologias contrárias ao sistema de governo imposto governo Vargas fez com que não houvesse autorização para que a rede fosse formada.

A idéia de formação de uma rede de emissoras de rádio foi retomada pela Rádio Bandeirantes, em 1958, para a transmissão da Copa da Suécia, a primeira conquistada pelo Brasil, com a formação da Cadeia Verde-Amarela Norte-Sul do Brasil, que reuniu cerca de 400 emissoras. As dificuldades para as transmissões esportivas, principalmente as internacionais, continuaram durante muito tempo. A situação só começou a melhorar a partir da década de 1970, com a evolução do sistema de telecomunicações brasileiro. Para Schinner (200), as Copas do Mundo do México (1970) e da Alemanha (1974) foram dois importantes divisores de águas, digo, das transmissões esportivas. O autor ressalta que na copa de 1970, três emissoras tinham condições de transmitir os jogos da seleção brasileira: a forma de transmissão foi decidida por sorteio e ficou acertado que cada uma das emissoras teria um narrador fazendo a irradiação da partida pelo tempo corrido de 30 minutos. Por conta do revezamento na narração da partida final da copa de 70, um fato curioso é destacado por Schinner. Enquanto Pedro Luiz narrou apenas um gol, e ficou com o microfone no momento mais delicado da partida, quando o Brasil empatava de um a um com a seu sucessor na transmissão, Joseval Peixoto, teve a oportunidade de narrar os gols da vitória brasileira e da festa pela conquista do tricampeonato mundial de futebol. A realidade atual é bem diferente da vivida por esses pioneiros, as transmissões via satélite, a utilização de telefones celulares como instrumento de apoio são fatores que apontam para um futuro mais tranquilo, tecnicamente, para as transmissões.

O profissional radiofônico para se analisar a narração esportiva no rádio é preciso considerar alguns aspectos que não estão diretamente ligados à linguagem do narrador, mas que apresentam certa influência no processo narrativo. Um desses pontos é a formação do narrador esportivo. Geralmente, o narrador é autodidata. Ele aprendeu sozinho o ofício, seja ouvindo rádio ainda durante a infância e imitando seus narradores preferidos, seja como resultado do trabalho em uma emissora de rádio, como evolução profissional, pois boa parte dos narradores começou sua carreira, ou como repórter de campo, ou como plantonista.

Hoje, há cursos que ensinam a narração esportiva como os oferecidos pelo Senac, mas a técnica que é passada nem sempre resulta em um trabalho de sucesso, porque narração é algo construído a partir de características pessoais e profissionais do narrador. Outro fator interessante é a questão da regionalização da narrativa. Há diferenças de narração, considerando o Estado em que a emissora está instalada. Em São Paulo, as narrações são mais rápidas, há mais velocidade no narrador, enquanto no Rio de Janeiro, por exemplo, a narração é menos acelerada. A questão que envolve a narração esportiva e suas características regionais leva também a um fator interessante, que merece atenção: o bairrismo.

Há uma rivalidade entre alguns Estados que vai além da rivalidade entre os grandes clubes do futebol brasileiro. Parte dessa rivalidade se deve, provavelmente, à realização de torneios que no passado colocaram frente a frente os clubes divididos por regiões, como o Rio-São Paulo, na década de 1960. Essas competições acirraram ainda mais a disputa entre os dois Estados, que já mantinham desde a década de 1930, uma luta pela liderança esportiva no país. Como exemplo dessa rivalidade pode ser citado o fato de que na primeira Copa do Mundo de Futebol, em 1930, no Uruguai, apenas um paulista foi convocado para defender a seleção brasileira, pois a sede da então CBD2, que dirigia o esporte brasileiro, era no Rio de Janeiro, como hoje é a sede da CBF3, que a sucedeu no comando do futebol no país. Essa rivalidade foi assimilada por muitos narradores e, obviamente, pelos torcedores.

O rádio, como já foi dito, é um veículo de linguagem oral. Inicialmente, pode-se imaginar que tal afirmação pode resumir suas características, mas o pensamento nesse sentido é simplista demais para um veículo cuja capacidade de penetração, de interação e até manipulação, é tão grande. A questão mostra-se complexa no momento em que se analisa o veículo rádio a partir de algumas características particulares, como citou Ortriwano (1984), entre elas o fato de ter grande penetração, de ser promovida a partir do baixo custo de emissão e recepção; de permitir mobilidade, tanto para quem emite (um repórter que está na rua, por exemplo), quanto para quem recebe a informação; de ser imediatista, para o narrador, o que permite acompanhar os fatos no momento em que eles acontecem; de haver instantaneidade, para o receptor, o que permite acompanhar os fatos no instante em que a mensagem é transmitida; de haver a sensorialidade, que envolve o ouvinte e cria nele a imagem mental do que se está descrevendo; e, finalmente, de promover autonomia, que permite a audição em qualquer lugar, inclusive de maneira individualizada (com fones de ouvido): com o advento do transistor, os grandes aparelhos deram lugar aos pequenos equipamentos, inclusive os portáteis. Essas características contribuem para que o rádio seja capaz de se fazer entender por qualquer um que se interesse em ouvi-lo.

Em relação à linguagem, Cabello entende que o texto radiofônico, além da correção gramatical, precisa apresentar adequação a essas características. Para transmitir a mensagem radiofônica, o radialista faz uso, além do texto, de vários outros recursos. Na formação dessa linguagem específica deve-se considerar o rádio como suporte midiático, mas como ressalta Maingueneau, não apenas como meio de transporte da mensagem, mas também como modificador dessa mesma mensagem. Para ele, “o modo de transporte e recepção do enunciado condiciona a própria constituição do texto, modela o gênero de discurso” (2004, p.72). E no caso da linguagem radiofônica, isso se dá pelas escolhas do que dizer, em que momento, e por qual razão (como será explanado na análise). Ortriwano (1985, p.81) ressalta que a mensagem radiofônica pode ser analisada a partir de alguns aspectos postulados por Angel Faus Belau, em função do meio, dos componentes da mensagem, do ouvido e do receptor. Esses aspectos podem ser considerados também como fatores importantes para o que se pretende com este trabalho, já que a AD entende os meios de produção, a formação do sujeito e sua realidade sócio-histórica como ferramentas de análise. É necessário, ainda, levar em conta que a formação dessa linguagem utiliza também outro item que, muitas vezes, passa despercebido, que é o silêncio. Nesse caso, o entendimento de silêncio é o defendido por Orlandi: de que ele é fundante, ou seja, ele surge primeiro como significação, enquanto a linguagem seria o que ela chama de categorização do silêncio. É movimento periférico, é ruído. Para ela, a fala divide o silêncio e também o organiza. Nesse sentido, sem a fala, o silêncio é contínuo, no mesmo instante em que não é duradouro, pois é dividido pelas palavras.

A linguagem supõe, pois a transformação da matéria significante por excelência (silêncio) em significados apreensíveis, verbalizáveis. Matéria e formas. A significação é um movimento. Errância do sujeito, errância dos sentidos. A junção de todas essas possibilidades faz da linguagem radiofônica algo bastante peculiar (Orlandi, 1992, p.35). Por tais razões, o locutor de rádio precisa, para obter sucesso, dominar todas essas ferramentas de produção do discurso radiofônico para conseguir junto ao ouvinte sucesso na transmissão de suas mensagens: a correção gramatical, o silêncio, o imediatismo, a instantaneidade, a sensorialidade, a individualidade e penetração. Mas não basta apenas pensar e falar, pois a construção da mensagem, a partir de todas as características citadas, ainda precisa considerar o ouvinte como um ser real, concreto, com pensamentos, sentimentos, visão de mundo e uma formação ideológica, decorrente de sua criação, educação e experiências pessoais, como será visto e analisado mais à frente. A chamada linguagem radiofônica foi sendo formada ao longo dos anos. Não foi algo que se criou. Basta lembrar que no início, como já foi abordado, o rádio falava para a elite, as transmissões tinham uma linguagem rebuscada, afinal, se tratavam de óperas, musicais e até discursos políticos. A profissionalização do rádio e a disputa pela audiência foram fundamentais para que se formasse uma linguagem própria, capaz de atingir todas as pessoas. Na criação da interlocução, o radialista precisa entender sua função comunicativa e a necessidade de domínio de todas essas ferramentas.

Ao considerar a dialogia bakhtniana citada por Brait (2005, p.156), ressalta-se que nesse processo comunicacional, há uma interação ativa entre locutor e ouvinte e não um simples transporte de mensagem do emissor para o receptor. Logo, como participante deste diálogo, o interlocutor é um agente que interfere nesta comunicação, pois o que vai ser dito a ele deverá considerar não só seu conhecimento prévio e o código utilizado, mas sua possibilidade de interação decorrente da forma como vai receber a mensagem, decodificá-la e se manifestar diante dela. Isso sem contar contexto, repertório e ideologia. A partir desse papel ativo do ouvinte, tais questões precisam ser consideradas pelo locutor no momento de formulação dos enunciados. Outra questão é a apresentada por Maingueneau para quem não existe a garantia do entendimento do enunciado exatamente como ele foi concebido. No caso do rádio, esses aspectos devem ser considerados simultaneamente, pois a produção enunciativa se dá, muitas vezes, por meio do improviso.

Diante da necessidade de criar na imaginação do ouvinte de rádio as imagens do que se está descrevendo, ou as sensações que estão sendo relatadas, alguns aspectos discursivos precisam ser considerados, como o dito e o não dito, o pressuposto e subtendido, as marcas enunciativas, as cenas da enunciação. Traçadas as características básicas da linguagem radiofônica, cabe, então, entender o funcionamento da linguagem radiofônica esportiva. Mesmo que sua formação leve em conta a maior parte das características já citadas, há questões bastante especificas e que devem ser observadas. O início de tal abordagem pode ser feito a partir da seguinte afirmação “A linguagem jornalística do esporte nunca teve uma escola definida. O surgimento de um estilo próprio sempre dependeu das tentativas de erros e acertos”, feita pelos jornalistas Heródoto Barbeiro e Patrícia Rangel (2006, p. 54). A colocação deixa claro que, em praticamente todas as esferas, a linguagem radiofônica é uma construção histórica, a partir da contribuição direta de todos aqueles que trabalharam no veículo ao longo de décadas. Já narração esportiva de futebol, no rádio, tem características próprias, que vão além do improviso natural, como a utilização de metáforas, apócopes, a velocidade e a forma como as palavras são pronunciadas. Há marcadores linguísticos que contribuem para fluência narrativa e o entendimento do interlocutor que acompanha as transmissões, seja no carro, em casa, ou no próprio estádio. Conhecedor da dinâmica de uma partida de futebol, o ouvinte/interlocutor tem condições de entendimento dos enunciados realizados pelo narrador. A narração esportiva tem mostrado, ao longo dos anos, eficiência em sua proposta comunicativa de levar até o ouvinte os detalhes dos 69 acontecimentos registrados durante uma partida de futebol. Prova disso, é que, como já foi dito, é um dos gêneros radiofônicos mais antigos. O estabelecimento dessa interlocução, apesar da ausência da comunicação face a face, cria uma relação afetiva, pautada pela emoção, entre locutor esportivo e o radiouvinte, o que determina fidelidade entre ouvinte e narrador. À sombra da análise da subjetividade presente na narração esportiva realizada nas emissoras de rádio AM, e da singularidade do narrador, responsável pelo enunciado narrativo, observam-se as condições de produção e os fatores que interferem nas escolhas que formam texto oral e que acabam criando um estilo narrativo. Para Capinussú, um desses fatores é a necessidade de fugir do lugar comum e criar maneiras de atrair o ouvinte, por conta da luta pela audiência. O linguajar diferente do comunicador esportivo tem motivos vários, que vão desde a necessidade de fugir do comum, imprimindo à expressão verbal um significado conotativo, até a incessante luta pela conquista de maior audiência. Esse fato leva, inclusive, à necessidade de atrair ouvintes através da autoafirmação capaz de criar uma terminologia às vezes inédita, que caracterize a busca da marca pessoal do comunicador… A colocação feita por Capinussú vai ao encontro da proposta deste trabalho, que é encontrar no discurso narrativo esportivo a singularidade do narrador, diante de um gênero que é formado pela participação de outros elementos que são essenciais para promover a fluência narrativa, que são os repórteres, plantonistas e comentaristas, cujas funções serão explicadas à frente. Para isso, entenda-se narração esportiva como um elemento que compõe o gênero de discurso de algo maior, que é a transmissão esportiva no rádio. Tais transmissões são chamadas de “jornadas esportivas” e compreendem os momentos que antecedem o início efetivo dos jogos, a sua realização e certo período após o término do enfrentamento entre as equipes.

Ao Analisar tudo o que precede e ocorre após um jogo de futebol e sua cobertura pelo rádio, é possível perceber que a transmissão de uma partida não é apenas um acontecimento esportivo isolado, é um evento promovido ao longo de todo o dia, quando produtores, repórteres, narradores e comentaristas voltam suas atenções para a partida. Esse trabalho ocorre em paralelo com os outros afazeres que o rádio esportivo requer, pois os programas que compõem a grade da emissora, fora a jornada esportiva, continuam no ar e contam com a participação desses profissionais, que têm de preparar materiais diversos para atender a todas as demandas. Cada emissora possui uma estrutura e uma rotina para as jornadas esportivas. Algumas têm jornadas que duram cinco, seis horas, enquanto outras realizam apenas a transmissão da partida e, desse modo, as jornadas acabam tendo menos tempo, geralmente entre duas horas e meia e três horas.

Há emissoras que fazem o trabalho de cobertura dos acontecimentos das chamadas concentrações, que são os locais onde os jogadores ficam reunidos momentos antes de se dirigirem ao estádio de futebol. Desses locais são realizadas entrevistas com atletas, membros das comissões técnicas, tudo para criar o clima do jogo e prender a atenção e promover a fidelidade do ouvinte à rádio. Esse tipo de acompanhamento ocorre, principalmente, em partidas chamadas de clássicos, que reúnem equipes tradicionais e que possuem uma rivalidade antiga, clássica, dentro do mundo do futebol. O auge deste tipo de cobertura ocorre nas decisões de campeonato. Há quem defenda mudanças para essa rotina, como é o caso dos jornalistas Heródoto Barbeiro e Patrícia Rangel, para quem a falta de um debate maior entre jornalistas, estudantes e dirigentes é responsável por modelos que ele chama de “arcaicos” de transmissão e que vêm sendo reproduzido pelos jornalistas mais novos. Para eles, é preciso inovar. Mas essa discussão não é o foco deste trabalho, que tem como objeto de análise a narração esportiva, que ocorre com o início dos jogos. Apesar disso, ressalta-se que entender a dinâmica de uma jornada é um facilitador para se compreender este gênero discursivo e suas condições de produção. A jornada esportiva é conduzida pelo chamado “âncora”, que está dentro do estúdio, e que é responsável pela condução dos trabalhos, como um maestro, que tem de ditar o ritmo desse momento da transmissão. É ele quem chama a entrada no ar dos repórteres, do comentarista e até do narrador, antes da participação em definitivo da praça esportiva em que ocorre a partida. O trabalho do âncora se estende até que a jornada passe a ser conduzida direto do estádio onde vai ser realizada a partida. Não há uma regra exata para o momento da passagem do comando da transmissão da jornada para o narrador, há variação de emissora para emissora. Geralmente, meia hora antes é considerado um bom tempo para essa mudança, mas há casos em que ela ocorre ao faltarem cinco, dez minutos para o início do jogo. Ao receber o comando da jornada esportiva, o narrador passa a ser o maestro do espetáculo esportivo, é ele quem vai ditar o ritmo dos trabalhos. Novamente, o que se observa é uma segunda abertura da jornada, agora feita pelo narrador, já que a primeira é feita pelo âncora. Essa abertura ocorre sempre em um clima de grande alegria, em um tom de voz alto, empolgante, na tentativa de cativar o ouvinte. A partir desse momento, inicia-se efetivamente a transmissão da partida, com a movimentação dos repórteres, comentaristas e plantonistas. A transmissão esportiva, ou narração, é um gênero discursivo dentro do gênero radiofônico e possui personagens com características e funções bem definidas e que contribuem para o entendimento das condições de produção do discurso narrativo esportivo de uma partida de futebol. O narrador, assim como o âncora, já teve sua função definida. Já o repórter de campo é responsável por um dos elementos mais importantes da jornada, a reportagem que, segundo Barbeiro, “é a alma, a essência do jornalismo”: É o repórter esportivo que tem a responsabilidade de fornecer as informações a respeito das equipes, do relato dos acontecimentos que antecedem a partida, como a chegada das equipes ao campo de jogo; a movimentação das torcidas, dentro e fora dos estádios; as reportagens utilizadas antes do início dos jogos, a descrição das jogadas, uma série de outras informações de apoio ao trabalho do narrador, durante a transmissão, as entrevistas antes e depois das partidas — enquanto as equipes anda estão em campo — e junto aos vestiários dos times, após os jogos.

Outro personagem da transmissão esportiva é o comentarista, responsável pela análise do jogo. Para Barbeiro e Rangel, uma posição considerada nobre pela possibilidade de emitir opinião. O plantão esportivo é responsável por informar o resultado de outros jogos, a realização de partidas de outros campeonatos, eventos e outras informações esportivas relevantes. A narração esportiva é, portanto, apenas um dos elementos do discurso esportivo do rádio, mas se concretiza com a junção de todos os elementos e personagens citados. A forma como todos esses fatores se relacionam, interagem é que compõe a narração esportiva.

As narrações esportivas constituem um gênero discursivo, que faz parte do gênero do discurso radiofônico. A sua formatação segue regras definidas, quanto à participação e envolvimento de toda a equipe esportiva, ao longo da transmissão. Com papéis definidos por meio das funções que desempenham, cada um se encontra na cena enunciativa em conformidade com aquilo que se espera dele, enquanto sujeito que ocupa um lugar específico, e de onde realiza o seu discurso.

O ouvinte, ao acompanhar a transmissão de futebol pelo rádio, espera que cada um de seus interlocutores cumpra com o papel para o qual se dispôs, ao assumir a função que desempenha naquele momento, seja ele narrador, repórter, plantonista, ou comentarista. Se de cada um, o ouvinte/torcedor espera um discurso condizente com o lugar que ocupa. Seus dizeres, por mais únicos que possam acreditar seus realizadores, são atravessados por outros. discursos que os antecederam, instante em que ocorre chamado esquecimento ideológico, que é o que permite que cada um se veja como senhor do que diz.

Nesse processo de esquecimento, o narrador, por exemplo, entende que é dele a definição da ordem de fala dos demais membros da equipe, já que é ele o comandante da jornada esportiva. Porém, é o discurso da narração esportiva que deter mina a ordem de participação, seguindo a importância do que deve ser dito, diante da importância do que acontece, no exato instante em que um fato ocorre em campo. O papel social de cada um na narração esportiva pode ser visto como determinante para o entendimento do discurso que é apresentado pelo rádio, durante as jornadas esportivas. Afinal, se o rádio é relacionamento, foi a relação entre os participantes dessa interlocução que esperamos tenha sido um dos fatores possíveis de compreensão com este trabalho.

Ao entendermos os realizadores da interlocução como sujeitos conhecedores dos códigos utilizados, e da forma como são utilizados, podemos compreender ação e reação, atitude e resposta, a partir daquilo que a Análise de Discurso permitiu observar como processo de criação de discurso e formação de sentidos. Sabedores dos fatos que ocorrem durante uma partida de futebol, da relação entre jogadores, visão espacial do campo de jogo, narrador e ouvinte conseguem realizar a interlocução, há interação.

Cada lance de perigo narrado por aquele que tem a função de descrever as jogadas é entendido pelo interlocutor a partir das emoções que são criadas por quem descreve. A interação acontece quando a resposta ocorre, mesmo que haja a ausência da comunicação face a face. Em um momento de perigo de gol, a elevação do tom da voz do narrador, o aumento da velocidade da fala, são fenômenos que provocam reações no ouvinte, seja ansiedade pelo gol que está por vir, se for a favor do time pelo qual torce; seja medo de que a oportunidade se concretize em gol, contra seu time. Nesse ponto, chamamos a atenção da intencionalidade quanto à utilização do pronome possessivo seu. O torcedor entende o time de futebol como algo dele, como se ele fosse participante do clube, do time e do jogo. Essa relação pode ser estendida para a transmissão da partida.

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